Mergulho nas Minas da Suécia

Quando falamos em países nórdicos, lembramos logo do frio e neve, mas por incrível que pareça, eventualmente encontramos sol. Longe de ser igual ao do Brasil, mas ele aparece. E assim como o sol, tive a oportunidade de conhecer o mergulho em mina, durante um período em que morei na Suécia.

Até já tinha ouvido falar de mergulhos na Suécia, mas não sabia que existia alguns mergulhos tão bons.

Nesse país, você consegue encontrar uma variedade de mergulhos, havendo pontos com vida marinha variada e bem diferenciada quando comparamos com o Brasil, há muitos naufrágios, fiordes, lagos e minas com mergulhos para mergulhadores recreativos e técnicos.

Sendo um país onde o frio domina, o uso da roupa seca por lá é mais do que comum e tido como material básico, porque a água é realmente fria.

Vamos falar sobre o mergulho em minas em Tuna Hästberg.

 

Foto: Diving Adventuremine

 

Tuna Hästberg

Em uma montanha, e próximo da pequena vila de Tuna Hästberg, encontramos um mundo diferente. Abaixo da crosta terrestre, há quilômetros de túneis com águas cristalinas e  o mergulho em mina de extração. Tuna Hästberg é uma antiga mina de ferro localizada a cerca de 3h de Estocolmo, capital da Suécia, próximo das cidades maiores de Borlänge e Ludvika.

As atividades de mineração foram interrompidas no final da década de 1960, deixando muitos quilômetros a serem explorados pelos mergulhadores de cavernas e minas.

A viagem até Tuna Hästberg é muito bonita, onde passamos por florestas de pinheiros e geralmente cobertas com a neve branca. Numa ocasião, eu e meu dupla chegamos à mina pela manhã e com temperatura nos -20ºC. Os equipamentos são transportados por um carrinho e guincho elétrico até os 80 metros abaixo do nível do solo.

Equipados com uma luz e um capacete, então descemos mais de 400 degraus em um ângulo de 45º em direção à escuridão total, usando carrinhos para transportar os equipamento até um dos muitos poços da mina e alcançar o ponto de entrada na água.

Os moradores locais normalmente dão algumas dicas e fazem recomendações para realizar o mergulho com segurança na mina, chegando a indicar algumas rotas a seguir, conforme sua experiência.

Para mergulhar lá, é necessário ter uma permissão agendada com antecedência, eles verificam sua experiência e qualificações de mergulho e providenciam guias para aqueles que precisam. A mina pode ser mergulhada o ano todo, tendo a água uma temperatura constante entre 2 e 4ºC.

Normalmente os mergulhadores suecos costumam mergulhar por lá durante os meses de inverno, quando o mergulho em naufrágios dificilmente ocorre.

No espaço onde realizamos a montagem dos equipamentos, possui um sistema de aquecimento, ajudando bastante, principalmente quando retornamos do mergulho, tornando a experiência mais agradável. Você também encontrará uma sala com compressor, energia e manutenção. Um cabo é usado para baixar o equipamento em uma queda adicional de 10m até a plataforma de entrada e saída da água, enquanto os mergulhadores usam a escada.

A entrada na água é meio chocante para quem não está acostumado com uma água tão fria, e levamos alguns minutos para acostumar o rosto ao frio.

Boa parte do sistema de condutos já foi cabeado, com profundidades que variam dos 10 até 100m ou mais. Até os dias de hoje, há mergulhadores, que ainda andam explorando áreas pouco conhecidas, havendo uma área de descompressão ao 6m de profundidade, ao lado da plataforma de entrada e saída, havendo também oxigênio para emergência. Existe também um habitat, uma espécie de bolsão de ar da mina, que está equipado com assentos e um suprimento de ar, tornando a descompressão mais eficiente e confortável.

Durante o mergulho, avistamos alguns objetos antigos da mina, muito s deles ainda bem preservados, além de estruturas de madeira, salões e até vagões. Num final de semana, chegamos a realizar quatro mergulhos, sendo o primeiro mergulho ideal para familiarizar-se com o ambiente.

Ante de iniciar o mergulho, há um mapa do sistema com a indicação dos cabos, sendo registrado qual rota cada grupo irá percorrer e tempos máximos de mergulho. Em nosso primeiro mergulho, alcançamos a profundidade máxima de 25m, sendo a maior em torno dos 10m apenas. No segundo mergulho alcançamos a máxima dos 32m de profundidade.

No segundo dia, utilizamos uma rota mais avançada, porque requer a passagem por uma restrição denominada buraco do coelho (Rabbit hole) e encontrar a chamada “alavanca de troca da ferrovia”. Na restrição, só é possível passar um mergulhador com cilindros duplos por vez, mas nada assim tão absurdamente apertado. Mergulhadores com sidemount passaram com facilidade pelo local. Conseguimos alcançar a tal alavanca, atingindo a profundidade máxima de 32m.

No segundo mergulho, já no domingo, decidimos visitar o ponto famoso de “östra, västra” (leste, oeste) e “elcentralen” (Estação de Eletricidade), requerendo bastante atenção dos mergulhadores, em razão da quantidade de condutos, tornando o mergulho mais complexo. Nesta área, a profundidade pode alcançar os 100m. Conseguimos visitar a construção em formato de “prédio” que era a antiga estação elétrica, onde é possível ver os antigos painéis elétricos e alguns equipamentos da época, onde a profundidade local chega nos 35m.

Em virtude da profundidade, as paradas descompressivas são mais que necessárias, e o uso de uma mistura Nitrox é recomendada. Durante o retorno, utilizamos o habitat aos 6m de profundidade, para realizar a descompressão. O local é iluminado e os bancos permitem um descanso e término do mergulho mais agradável.

Sem dúvida, é um mergulho diferenciado e inesquecível. Uma verdadeira experiência para quem é aventureiro e possui treinamento em mergulho técnico e em cavernas.

Vale lembrar que além das recargas Nitrox, também oferecem misturas Trimix para quem quiser mergulhar fundo por lá.

 

Foto: Divulgação

Ricardo Santos

É diretor de uma multinacional no Brasil e mergulhador desde 1995.

Mergulhador Técnico Trimix e de Caverna, tendo visitado inúmeros países do mundo ao longo dos anos. Durante alguns anos residiu nos Estados Unidos e Europa, o que possibilitou viajar e conhecer inúmeros destinos.

Com fluência em cinco línguas distintas, isso ampliou as possibilidades no conhecimento das diferentes culturas e aspectos dos países que conheceu.

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