Em alguns destinos da costa brasileira, acabamos por vezes esbarrando com alguma empresa do tipo “fundo de quintal”, ou até mesmo, com algumas pessoas se dizendo “profissional do mergulho”, na maioria das vezes com equipamentos de mergulho livre e, até autônomo em algumas circunstâncias.
Eles promovem o “discoverys” com os turistas, e como as pessoas normalmente não sabem nada sobre a atividade, acabam pagando por um serviço de péssima qualidade e muitas vezes perigoso.
E isso não é novidade. Em alguns dos famosos destinos da região nordeste, isso é mais que comum, inclusive.
Já alguns anos, nossa equipe vem recebendo denúncias de turistas e até mergulhadores, de que algumas pessoas estão comercializando esse tipo de serviço na beira das praias e sem a menor qualidade, conhecimento e técnica, ofertando mergulhos nos bancos de corais próximos das praias, sob o entendimento de que a pessoa terá uma excelente experiência de mergulho, e pelo desconhecimento, o turista acaba embarcando na experiência ao ver bonitas fotos de mergulhadores entre corais, e realiza a atividade arriscando sua própria vida.
Alguns dos relatos recebidos, eles denunciam esses pequenos grupos que chegam a apresentar certificações de mergulho emitidas por entidades bem desconhecidas pelo mercado. De alguns anos pra cá, estão surgindo “certificadoras” do nada, pelo fato de não haver uma entidade oficialmente reconhecida e aceita mundialmente como um órgão gestor da atividade. Hoje uma pessoa simplesmente decide criar uma certificadora, coloca um nome e sai dando certificado da mesma, como se fosse uma instituição de renome e, qualquer um pode entrar, sem ter qualquer tipo de informação mais detalhada sobre a mesma.
Num dos relatos recebidos, o denunciante chegou a procurar por informações sobre a certificadora ofertada e constatou que um dos divemasters não sabia ler e escrever, mas realizou a prova de certificação com a ajuda de um amigo que leu a prova e escreveu por ele. Em outra denúncia, um instrutor estava embriagado levando turistas pra mergulhar, uma turista se cortou nos corais e ele não tinha condições de ajudar a pessoa, situação essa absurda.
São vários relatos e problemas com algumas dessas pequenas empresas de beira de praia ministrando cursos e mergulhos para os turistas desprovidos de informações sobre mergulho, que acabam expondo o turista ao risco e aos reais profissionais do mercado.
Essas empresas utilizam equipamentos de baixíssima qualidade e sem as manutenções devidas. A qualidade do ar nem se fala. A grande maioria dos relatos mencionam a mesma coisa… ar com odor de óleo, oriundo de algum compressor que não passa por manutenção, e como há uma grande rotatividade de turistas, o negócio é “ganhar dinheiro” e manutenção é feita quando a máquina parar.
Conversando com alguns distribuidores de equipamentos, tomamos conhecimento de que essas empresas nunca entram em contato atrás de itens importantes e utilizados nas manutenções dos equipamentos de mergulho, comprovando a falta de manutenção.
Se não bastasse, algum tempo atrás, tivemos dois casos graves com duas turistas que foram assediadas pelos guias de mergulho, sendo que um deles, foi flagrado filmando as nádegas de uma turista durante a atividade. Felizmente ela percebeu e denunciou o indivíduo, que acabou sendo preso pela polícia local.
O mergulho está sendo banalizado com essas pessoas comercializando a atividade do mergulho na beira da praia sem estrutura, tiram o emprego de quem trabalha de forma séria e criam inúmeras possibilidades para acidentes, além da desmoralização da atividade. Literalmente abrem a válvula, mandam a pessoa respirar pelo regulador como se estivesse tudo normal e manda prosseguir.
E fica a pergunta: Até quando isso vai continuar acontecendo ?


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



