A maioria dos mergulhadores já ouviu falar de um equipamento denominado Scooter, e sabe qual seu principal objetivo… o deslocamento do mergulhador sem o esforço da batida das pernas.
Esse equipamento foi criado décadas atrás, ainda na era Jacques Cousteau. Aliás, os primeiros scooters que vi, estavam na mão da equipe dele, então, é bem provável que ele também tenha sido o autor na construção e desenvolvimentos dos scooters. O Cousteau e sua equipe desenvolveram inúmeros equipamentos e veículos voltados para o mergulho. Buscando na web, há várias páginas citando autores diferentes, então, está complicado confirmar quem foi o primeiro inventor.
Hoje encontramos no mercado diversos modelos de scooter para mergulho e, infelizmente, no Brasil eles não difíceis de serem encontrados, pois o fator “custo” acaba dificultando as vendas. Um scooter chega a custar entre US$ 500 e 5.000 nos Estados Unidos, variando conforme o modelo.
De fato, o scooter facilita muito o deslocamento do mergulhador, pois ele permite que se percorram grandes distâncias sem precisar bater pernas, economizando tempo e muito gás dos cilindros.

Aspectos importantes no mergulho com scooters
Quando mergulhar com um scooter, você antes de tudo precisa aprender a se deslocar com ele embaixo d’água, e não é simplesmente pegando o equipamento e cair de cabeça. Normalmente vemos duas formas de utilizá-lo, segurando com as duas mãos ou através de um cabo que conecta a cintura do mergulhador ao scooter.
Mergulhar segurando o scooter com as mãos é extremamente cansativo e chega a fazer com que muitas vezes, as mãos do mergulhador fiquem doloridas, pois imagine um “motor” tracionando você pelas mãos através do volume de água em sentido contrário, com todo o equipamento de mergulho ?
É literalmente uma força te puxando para frente e outra no sentido contrário, e levando em consideração que os mergulhadores não são nada hidrodinâmicos, isso gera um esforço demasiado para as mãos do mergulhador. A melhor forma de tração é ser tracionado (puxado) pelo scooter através da cintura, se o modelo de scooter utilizado permitir, pois não são todos que permitem esse tipo de amarração.

Nesse caso, é amarrado um cabo nas duas laterais dos punhos do scooter em forma triangular, com a ponta do cabo num mosquetão de inox clipado no d-ring presente na cinta entrepernas, eliminando o esforço das mãos e facilitando muito o movimento nas curvas.
O deslocamento produzido pelo scooter também acarreta alguns problemas, como por exemplo, a possibilidade da máscara acabar se soltando durante a navegação ou criando uma remota possibilidade de deslocamento da máscara do mergulhador e consequentemente, o alagamento de todo o interior dela.
Durante a navegação, existe a possibilidade de alguma colisão contra alguma parte de alguma rocha submersa, parte de um naufrágio ou um espeleotema em uma caverna. Então, é preciso estar atento para não colidir contra algo pelo caminho, e no caso do mergulho estar efetuado o mergulho em ambientes mais restritos, o uso do capacete de mergulho é mais do que recomendável.
Esteja atento ao fluxo de água que passa pela hélice, para que ele não seja direcionado para o fundo ou paredes de uma caverna. Isso fará com que haja uma grande perda na visibilidade, podendo criar problemas sérios para o mergulhador e os demais membros da equipe.
Ter um bom dispositivo de corte ou uma faca, é fundamental para uma remota possibilidade de enrosco em algum cabo perdido. Esse enrosco pode ocorrer além do próprio mergulhador como pelas pás da hélice do scooter.
Outro aspecto, é que ao utilizar um scooter para mergulhar, o consumo de gás cai drasticamente e o mergulhador precisa estar atento a essa questão, porque ele deve planejar a quantidade de gás necessário para atingir o objetivo e para o caso de alguma pane no scooter.
Se o mergulhador for realizar grandes travessias e o scooter apresentar algum tipo de falha no final do percurso de ida, ele poderá ter pouco gás enquanto bate pernas para regressar ao ponto de início do mergulho.
Quando falamos em mergulho em caverna esse cuidado precisa ser ainda maior. Muitos mergulhadores de caverna chegam a utilizar a regra do terço alterada para 1/6, inclusive. Quando falamos em mergulho de exploração em caverna, muitos mergulhadores chegam a levar um scooter reserva para uma eventual situação de emergência, sendo transportado entre as pernas do mergulhador. Não sendo um mergulho em caverna, utilize sempre a regra do terço (1/3) como medida de segurança.
Se você pretende realizar mergulhos repetitivos com a mesma carga de bateria, você deve levar em consideração a queda na potência do scooter nos mergulhos posteriores. O rendimento da bateria será inferior e, consequentemente, obterá uma velocidade menor de deslocamento. Procure ter os chamados “pontos de saída”, que são possíveis pontos para sair da água numa eventual situação emergencial.

O uso do scooter em uma velocidade moderada, reduz o consumo da bateria, ampliando o tempo de uso pelo mergulhador. Usar o scooter sempre na rotação máxima, diminuirá bastante a distância total percorrida.
Monitore sempre o consumo de gás e o consumo da bateria do scooter. Muitos scooters não possuem meios de monitoramento da carga da bateria, criando um aspecto importantíssimo a ser levado em consideração pelo mergulhador. Você nunca deve ir a uma distância em que não consiga retornar batendo apenas as pernas.
Também é recomendável sempre ter um lift bag (bolsa de elevação) para uma eventual falha no scooter e você precisar retornar rebocando-o até o ponto inicial do mergulho. Com o lift bag, você poderá içá-lo com facilidade. Outro equipamento essencial é o deco marker, pois no caso de uma falha no scooter e você precisar abandoná-lo para retornar depois e resgatá-lo, o deco marker permitirá marcar o ponto onde o equipamento foi deixado para que depois você regressar e realizar a recuperação do equipamento com mais facilidade.
Nunca ouvi falar de um scooter ter uma pane e ficar com o motor ligado direto e sem parar, mas o tema é comentado em alguns cursos de mergulho com scooter, e caso isso ocorra, o mergulhador pode tentar parar o motor utilizando uma faca (acho meio surreal, mas…) ou algum galho para travar a hélice até que a bateria se esgote. O grande problema é que isso não é um procedimento fácil de ser feito e certamente, irá causar a queima do motor. Uma possibilidade, é deixar o scooter virado para cima contra o teto da caverna, como é ensinado em alguns cursos de mergulho em caverna, mas imagino que este procedimento deve causar muito mais transtornos “siltando” a água, sendo uma situação complicada de ser resolvida.
Com o uso do scooter, também é preciso ter um bom controle da flutuabilidade. O mergulhador precisa ter uma excelente flutuabilidade para lidar e aproveitar melhor o descolamento subaquático. Isso também serve para o próprio scooter, que deverá ter sua flutuabilidade ajustada conforme o local onde se pretende mergulhar. A densidade da água muda conforme o local e se a água for salgada ou doce. Alguns scooter permitem esse tipo de ajuste com a inserção ou remoção de lastro, deixando-o mais leve ou mais pesado.
Proteja os mecanismos de acionamento do scooter, para que eles não sejam acionados acidentalmente. Isso poderá causar danos à embarcação de mergulho ou em algum mergulhador que esteja próximo.
Ao subir ou descer embaixo d’água, tenha cuidado com a velocidade. É recomendável não utilizar o scooter para subir. Procure utilizar apenas o colete ou asa para uma subida controlada, procurando sempre ter seu dupla no campo visual, para um mergulho mais controlado e evitar uma remota possibilidade de choques entre scooters.
Tome cuidado com a possibilidade de enrosco de algum equipamento / acessório na hélice do scooter. Reguladores com mangueira longa ou cabos de lanternas, por exemplo, podem acabar enroscando na hélice e criar um grande problema para o mergulhador.
Ao navegar, seja cauteloso com a vida aquática frágil, assim como você faria sem um scooter. Procure manter também, as nadadeiras em uma posição mais retas para trás e sem colidir contra a vida subaquática. Quando utilizamos um scooter, as nadadeiras são usadas como um leme, ajudando ao mergulhador a mudar de direção apenas reposicionando as palas das nadadeiras conforme a direção desejada.

Procedimentos antes do uso
Procure recarregar as baterias pelo menos 24h antes da operação de mergulho, verificando se todos os terminais elétricos estão bem conectados e sem sinais de oxidação.
Faça o teste de estanqueidade e verifique se os o-rings estão corretamente posicionados.
Procedimentos após o uso
Após o uso, não descarregue completamente as baterias, deixe-as com pelo menos 20% de carga, e caso você não use seu scooter em um breve período, é recomendável deixar as baterias recarregadas. Em torno de 1.000 cargas aproximadamente, a bateria já começa a apresentar sinais de desgaste, sendo o momento ideal para a substituição.
Evite armazenar as baterias em um local com exposição solar e alta temperatura. Jamais deixe as baterias recarregando sem a supervisão de alguma pessoa. Ao viajar, procure transportá-las descarregadas e desconectadas do circuito elétrico.
Após o mergulho, lave bem o scooter com água doce, deixando-o secando à sombra. Verifique os o-ring’s e lave-os com água doce. O acúmulo de água salgada é altamente prejudicial para a borracha do o-ring.
Procure armazenar o scooter na posição “deitada”. A posição em pé pode danificar os circuitos e placas internas das baterias em razão do peso e tempo guardado. Desconecte os terminais elétricos e deixe as baterias totalmente desconectadas.
Aspectos importantes antes da compra
Em razão dos diferentes modelos disponíveis no mercado, o mergulhador deve se atentar a alguns aspectos antes da compra de seu scooter.
Objetivo
Tenha em mente que você precisa analisar bem o tipo de mergulho que se pretende fazer com o scooter. Se for simplesmente para ver corais e seres marinhos, um scooter mais simples pode ser o modelo ideal. Já se você pretende realizar um mergulho mais técnico, como um mergulho profundo ou em caverna, neste caso o recomendável é um scooter mais técnico.
Transporte
O tamanho também pode fazer uma boa diferença no transporte e, scooter maiores, acabam tendo grandes dimensões em razão da quantidade de baterias.
Lembre-se que é muito complicado viajar de avião transportando scooters. Existe uma legislação rígida quanto ao transporte de baterias de lítio nos voos comerciais, pois normalmente a carga das baterias chegam próximas ao limite permitido ou em alguns casos, chegam a ultrapassá-lo, impossibilitando o transporte nos voos. Por isso uma boa parte dos scooters utilizam baterias de Níquel-Metal Hidreto (NiMh) e não as de lítio, pois as de níquel não possuem proibições. Antes da compra, veja o tipo de bateria que o scooter desejado utiliza e se ela ultrapassa ou não, o limite imposto pelas companhias aéreas.

Flutuabilidade
O aspecto “flutuabilidade”, como mencionei antes, é importante para um melhor desempenho embaixo d’água. Verifique se o modelo desejado possui essa possibilidade de ajuste.
Profundidade Máxima Operacional
Verifique a profundidade máxima que o scooter pode ser utilizado. Scooter mais simples normalmente podem ser usados apenas até os 10 ou 20m de profundidade.
Variação de Velocidade
Scooters técnicos possuem em alguns casos, ajuste nas pás da hélice, permitindo um controle de velocidade e sendo muito útil em ambientes mais restritos, permitindo diminuir a velocidade de deslocamento e passar mais devagar pelas restrições.
O-rings de Vedação
Veja como são e quanto são os o-rings de vedação. Scooter mais técnico muita vezes possuem um motor “blindado”, isto é, o compartimento onde fica o motor é “lacrado” e livre de alagamentos, e no caso de algum problema, o alagamento ocorre somente no compartimento das baterias.
É muito comum alguns scooters virem acompanhados de um kit de verificação de estanqueidade dos compartimentos, permitindo ao mergulhador verificar se os compartimentos do scooter estão estanques e livres de alagamentos, dando muito mais confiança na hora de usá-los.
Garantia
Scooter barato normalmente possui uma qualidade inferior e dura menos. Não se apegue ao custo muito baixo, pois isso poderá ser um problema muito em breve.
A questão garantia é outro ponto importantíssimo e, pior ainda, se você trouxer seu scooter do exterior. Levá-lo de volta para uma eventual manutenção, além de demandar muito tempo, poderá incidir algum custo elevado e possíveis taxas não planejadas.
Acessórios
Scooter técnicos possuem acessórios que permitem a fixação de alguns equipamentos, como computador de mergulho, bússola e até câmera subaquática.
Na hora da compra, não se esqueça desses aspectos e adquira um acessório compatível com seus objetivos.


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



