Investigadores acreditam ter encontrado o naufrágio de um navio do tesouro português capturado por piratas em 1721, ao largo de Madagáscar.
Um estudo agora publicado pelo Center for Historic Shipwreck Preservation, dos Estados Unidos, apresenta dados arqueológicos que sugerem estar associados à embarcação Nossa Senhora do Cabo, que há 300 anos partiu da Índia rumo a Portugal.
O estudo apresenta evidências arqueológicas que sustentam a identificação de um naufrágio único do século XVIII na ilha Madame, costa da Ilha Sainte-Marie, atual Nosy Boraha, em Madagáscar”, no Oceano Índico.
Conhecido por Nossa Senhora do Cabo, este navio pertencia à frota do tesouro português e foi capturado pelos piratas Olivier Levasseur (La Buse) e John Taylor em 1721, explica a investigação.
Escavação do naufrágio vem mostrando a estrutura do casco inferior, revelando molduras de madeira do casco de Nossa Senhora do Cabo entre as pedras de lastro.
De acordo com Brandon Clifford, a identificação do navio como Nossa Senhora do Cabo é sustentada por várias peças-chave, entre as quais, provas arqueológicas, além de bens religiosos e objetos que teriam sido produzidos em Goa, uma das colônias portuguesas na costa oeste da Índia e seguiam para Lisboa.
Os mergulhadores localizaram os restos do navio no fundo do mar e recuperaram mais de 3.300 artefatos dos destroços, que corresponde a um ponto estratégico das rotas marítimas comerciais entre a Índia e a Europa, no século XVIII.
Entre os materiais resgatados do naufrágio, estão figuras de culto religioso e objetos feitos de madeira e marfim, incluindo um que retrata a mãe de Jesus, Maria.
Encontraram ainda um fragmento de crucifixo e uma placa de marfim inscrita com letras de ouro com o indicativo “INRI”, que de acordo com os evangelhos cristãos, essas letras foram inscritas pelos romanos por cima de Jesus crucificado e representavam “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”,em latim.
Na carga de Nossa Senhora do Cabo, seguia um tesouro em lingotes de ouro e baús cheios de pérolas, de acordo com o investigador Denis Piat. Assim, a abundância de porcelana, artefatos religiosos católicos e moedas de comércio de ouro reflete um navio profundamente enraizado nas redes de câmbio indo-atlânticas, sustentam os arqueólogos.
Das escavações realizadas em 2010 e 2015, foram encontradas “vigas cruzadas e juntas de madeira, que dão indicações da construção robusta que corresponderia a um casco oceânico”, descreve o estudo.

“A identificação de quatros vigas cruzadas sugere um navio de grande capacidade, possivelmente modificado ou reforçado para viagens de longa distância e carga pesada. Em conjunto, estas características são consistentes com as convenções de arquitetura portuguesas da Índia Oriental”, argumenta a investigação.
Esta interpretação é sustentada pelo perfil sísmico do naufrágio, “que se estende por mais de 30 metros. As dimensões de um galeão português do século XVIII, em média, gira emtorno dos 30 metros de comprimento, por 10 metros de largura, reforçando ainda mais a identificação do local como sendo consistente com a da Nossa Senhora do Cabo”.
Os investigadores também observaram os tipos de árvores que forneceram a matéria prima para a construção.
Numa investigação preliminar foi apontada uma mistura de madeiras, entre elas, a “teca, carvalho ou outras espécies duráveis frequentemente utilizadas na construção naval portuguesa em Goa. Os materiais de construção adicionais incluem pregos de liga de cobre com cabeças redondas e eixos quadrados, um tipo de fixação comum na construção naval europeia durante este período”.
Os arqueólogos também aplicaram métodos geofísicos, isto é, com recurso a equipamento de sonar de varredura percorreram o fundo marinho, o que indicou “um conjunto denso de anomalias nas proximidades. Isso sugere que vários naufrágios podem se sobrepor dentro de uma área portuária confinada”, explicaram.
Nas várias linhas de investigação, a equipe procurou também dados nas fontes escritas que no caso adensaram a história deste naufrágio. Além dos bens, os registos referentes à Nossa Senhora do Cabo descrevem que na embarcação transportava o vice-rei cessante da colônia portuguesa, o Arcebispo de Goa e cerca de 200 escravos de Moçambique.
Seria um navio fortemente armado e que foi danificado por uma tempestade, procurando refúgio perto da Ilha da Reunião. De acordo com relatos da época, “os piratas encontraram um grande navio de carga português deitado, e que tinha perdido todos os mastros e dois terços de seus canhões”.
O grupo de navios piratas, liderados por Olivier Levasseur (La Buse) e John Taylor, não perdeu a oportunidade e atacou e capturou o navio indefeso no dia 8 de abril de 1721, perto de Reunião.
Mais tarde e depois de restaurado, o Nossa Senhora do Cabo ficou sob o comando de La Buse, que rebatizou o navio para Victorieux (Vitorioso). Após um período, a embarcação terá sido incendiada e naufragada junto à pequena ilha Madame, em frente a Sainte-Marie.
O cruzamento dos dados arqueológicos com as fontes escritas permitem agora traçar correspondências e acrescentar o conhecimento sobre o destino do Nossa Senhora do Cabo. Este estudo arqueológico dedicado ao navio português apresenta assim, novas percepções sobre a pirataria, o comércio global e o poder colonial no oeste do Oceano Índico, há 300 anos.
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