Descompressão à deriva – Uma escolha pessoal

Descompressão à deriva é o procedimento realizado pelo mergulhador técnico, visando à realização das paradas descompressivas sem o contato direto com o cabo de amarração da embarcação.

Neste procedimento, utiliza-se um Lift-bag ou Deco Marker como base de apoio, enquanto a descompressão é realizada.

Em que situação um mergulhador realiza este procedimento ?

 

Deco

 

Este procedimento é realizado quando o cabo da embarcação não é encontrado pelo mergulhador durante o seu retorno, ou principalmente, quando não é possível ancorar a embarcação no local onde será realizado o mergulho, situação muito comum em mergulhos em naufrágios onde se tenha grande profundidade.

Outro exemplo de situação imprevisível, quando há a necessidade de um reposicionamento da embarcação em relação ao seu fundeio, deixando muitas vezes de ser uma referência para o mergulhador. Vale lembrar que em hipótese alguma amarra-se o cabo da carretilha no cabo do barco.

De fato, quem é mergulhador técnico e realiza seus mergulhos descompressivos com frequência no mar, provavelmente já cogitou na possibilidade de não encontrar o cabo da embarcação durante o seu retorno e acabar precisando realizar a descompressão à deriva.

Alguns mergulhadores acreditam que este procedimento é tranquilo de ser realizado, outros, acreditam que esta opção é indesejável e este procedimento só deve ser realizado como sendo uma opção secundária para um retorno seguro até a embarcação.

Pessoalmente tento evitá-la, deixando sempre como segunda opção…   nunca como primeira…

 

Por que não deixá-la como segunda opção ?

  1. O mergulhador pode cair em uma correnteza durante a ascensão;
  2. O mergulhador poderá chegar à superfície e estar distante da embarcação;
  3. A equipe de apoio poderá ter problemas para localizá-lo na superfície e não avistá-lo;
  4. Será imprescindível um barco de apoio, pois é comum que duplas de mergulhadores se afastem durante o mergulho.

Imagine retornar de um excelente mergulho em naufrágio e ao chegar à superfície, perceber que saíra distante da embarcação…

Pior, que as condições do mar se alteraram durante um parada descompressiva de 40min, 1 hora, e a equipe de apoio está com dificuldades em visualizar seu Lift-bag / Deco Marker fora d’água…

São situações desagradáveis e imprevisíveis.

Em mergulho mais complexos, devemos minimizar as possibilidades de algo dar errado e sempre planejar o mergulho com antecedência, prevendo que algo possa acontecer. Nestas situações, devemos facilitar o trabalho da equipe de apoio para um trabalho / resgate ágil e que saia dentro do planejado.

Vejo o mergulho como uma atividade que permite ao mergulhador escolher os procedimentos e configurações dentre as quais mais lhe agrada, contudo, se alguém me perguntasse o que penso sobre deco à deriva, diria: Evite !

Tenha sempre em mente que não dominamos o mar e quando ele decide virar trazendo suas fortes correntes acompanhadas de mau tempo, o jeito é proceder da forma mais simples para facilitar a vida de todos.

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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