Mergulho Técnico X Recreacional

Pode parecer bobagem, mas os mergulhadores técnicos são considerados por alguns, pessoas que perturbam a vida dos operadores de mergulho e dos mergulhadores recreacionais.

Para os operadores, a grande quantidade de equipamentos levados nas embarcações, ocupa mais espaço e muitas vezes, atrasa a operação. No caso dos recreacionais, as reclamações se devem ao espaço que o mergulhador técnico necessita para montar seus equipamentos e a demora nos mergulhos.

Mergulho técnico em si, significa o uso de mais equipamentos pelo praticante e mais tempo de tudo. Isso ocorre no embarque, no planejamento da operação, na colocação dos equipamentos e nos mergulhos prolongados.

Eventualmente, o mergulhador recreacional acaba tendo que aguardar a turma do “tec diver” retornar do mergulho, sendo muitas vezes desagradável, face o tempo necessário para o retorno dos mergulhadores técnicos, ou principalmente, devido mudanças repentinas nas condições de mar, que acabam balançando as embarcações com o vai e vem das ondulações, não sendo nem um pouco prazeroso para aqueles que aguardam no barco.

Se o mergulhador técnico sai em uma operação recreacional, ele deve tentar se adequara operação em si, não sendo uma pessoal mal educada e muito menos, egoísta.

Misturar técnicos com recreacionais nem sempre é uma boa ideia. Lembro de uma ocasião em Arraial do Cabo, por exemplo, em que durante um mergulho na Gruta da Camarinha, lá estava com alguns amigos realizando um treinamento e utilizando sistemas de duplas e stages, e durante a imersão, um dos mergulhadores recreacionais ficou ligando e desligando “de brincadeira”, a lanterna HID de um dos integrantes do treinamento.

O resultado disso, foi que a brincadeira de mau gosto deixou um mal estar entre um dos integrantes. O mergulhador que estava em treinamento, achou que sua lanterna estava com problemas e acabou não aproveitando o mergulho como deveria. Aliás, quase abortou o mesmo.

Após o mergulho, soube da brincadeira, e não ficou muito feliz com a mesma.

Parece bobagem, mas a visão daqueles que praticam e treinam o mergulho técnico, é muito diferente dos praticantes do mergulho recreacional. Não é uma questão de “deuses e sabedores profundos do mergulho”, como alguns poucos colocam. Na verdade, são simplesmente mergulhadores que realizaram cursos técnicos e estão sempre treinando para melhorar suas habilidades subaquáticas.

O mergulho técnico é uma forma diferente e mais “técnica” de ver o mergulho avançado como uma forma mais segura de se mergulhar e com objetivos próprios, específicos e especializados.

A brincadeira da HID, poderia ter resultado na queima da lâmpada ou do ballast (sistema de ignição da lâmpada), por desconhecimento do mergulhador que brincava com o outro, pois este tipo de lâmpada, não se pode ficar ligando e desligando a todo momento. Pra quem não sabe, o custo de uma lâmpada HID ou de um ballast, gira em torno dos 100 aos US$150 cada um, e se ocorrer a queima, seria uma brincadeira cara, não ?

O mergulho técnico é encarado por muitos como uma coisa séria, e na minha opinião deve ser mesmo. A preparação, paciência e detalhes na montagem dos equipamentos é um diferencial que trará a segurança ao praticante desse esporte e evitará possíveis transtornos embaixo d’água.

Apesar de difícil, face a realidade brasileira, o ideal seria evitar a junção de mergulhadores recreacionais e técnicos na mesma embarcação. Se não houver jeito, faça uma separação dos grupos, deixando o processo mais seguro a todos, e evitando que pequenos transtornos desagradáveis possam ocorrer entre os mergulhadores.

O mergulho deve ser um prazer que todos devem ter e apreciar, no entanto, quando uma brincadeira ou ato mal de mau gosto é realizado, podem trazer pequenos maus entendimentos deixando a atividade desgostosa, sendo exatamente o contrário ao que desejamos.

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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