Antigos cilindros fabricados no Brasil e a possibilidade de acidentes

Anos atrás quando o mergulho técnico começou a dar os primeiros passos no Brasil, havia uma carência de cilindros de aço no mercado, pois como sabemos, os cilindros normalmente encontrados nas escolas e operadoras de mergulho no país, são fabricados em alumínio e importados dos Estados Unidos.

Diante dessa necessidade, a Cilbras (Empresa Brasileira de Cilindros LTDA – Já extinta) que fabricava cilindros de aço, passou a fabricar cilindros de aço cromo-molibdênio para o mergulho.

A fabricação deste cilindro no país facilitou muito, pois não havia a necessidade de importação e facilmente podiam adquiridos pelos mergulhadores, pois a fábrica estava localizada no Estado do Rio de Janeiro.

Até o ano de 2003, os cilindros eram pintados num tom verde claro metálico ou não possuíam pintura. A partir de 2004 o cilindro foi relançado na cor amarela, recebendo um acabamento melhor e passou por grandes mudanças em sua construção, além de melhorias no controle de qualidade. Na época, o fabricante detectou alguns problemas no processo de fabricação e mudou sua linha de produção.

Os cilindros foram vendidos para todas as partes do Brasil e ao longo dos anos, infelizmente houve três acidentes com mergulhadores (Rio de Janeiro, Ilhabela e Fernando de Noronha). Nos três episódios, a torneira se soltou do cilindro de forma repentina, causando graves ferimentos nos mergulhadores que se encontravam próximos.

Análise e Testes

No ano de 2007, um engenheiro instrutor de mergulho da cidade de Campinas-SP, entregou dois cilindros da Cilbras para uma renomada empresa de análises e testes, a fim de verificar se os mesmos poderiam oferecer algum tipo de risco.

Como estes cilindros foram fabricados antes de 2004, havia uma grande possibilidade deles possuírem algum tipo de problema de fabricação.

A empresa que recebeu os cilindros realizou os seguintes procedimentos:

  • Inspeção visual externa (Face, assento do o-ring, coroa, corpo e fundo);
  • Inspeção visual interna (Roscas, coroa, parede e fundo);
  • Avaliação métrica das roscas dos cilindros com calibre Tampão PNP;
  • Avaliação métrica das válvulas com calibre Anel PNP, em conformidade com a NBR 12.274.

Segundo o laudo emitido, os resultados das análises e testes causaram um alerta, pois foram constatados graves problemas nas roscas dos cilindros, como folgas excessivas, que permitiam inclusive, que o calibrador entrasse por completo no cilindro.

Foi constatada a não conformidade com o padrão de rosca, pois ela não seguia as características da padronização americana (NPSM). Quando o calibrador de testes foi encaixado, comprovou-se que a rosca estava forçava o calibrador para os lados, saindo do eixo correto e demonstrando ser uma rosca “torta”.

Diante dos resultados obtidos e considerados como sendo graves, os responsáveis pela empresa de teste resolveram enviar seus equipamentos para o Departamento de Confiabilidade Metrológica da UNICAMP a fim de verificar se havia alguma imprecisão nos instrumentos de medição, sendo retornados posteriormente com a confirmação de que esses instrumentos estavam projetando os resultados corretos, precisos e dentro dos padrões de aferição esperados.

Posteriormente a empresa de testes emitiu um laudo condenando os cilindros, por estarem fora das normas de fabricação, alertando o fabricante sobre o problema.

Algum tempo depois estes cilindros deixaram de ser fabricados, e anos depois a empresa encerrou suas atividades.

Cilindros Cilbras – Foto: Clécio Mayrink

Riscos

Sabemos que ainda há vários cilindros desses fabricados até 2004 no mercado, e como são fabricados em moldes, existe uma grande possibilidade desses antigos cilindros possuírem os mesmos problemas detectados nos testes mencionados acima, colocando os mergulhadores sob risco.

Diante dessa possibilidade, é primordial que os proprietários desses cilindros de mergulho fabricados antes de 2004, levem os cilindros até um centro especializado para efetuar uma análise profunda para ter a certeza de que ele tenha sido fabricado dentro dos padrões de segurança adotados.

Colaboração: Miguel Lopes

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount IANTD, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho, fotografia e vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, sendo o idealizador do portal Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP).

Atuou na produção de diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência para a mídia, órgãos públicos no país e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO, quando o assunto é mergulho em naufrágio.

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