O mergulho livre é um esporte onde usamos poucos equipamentos, sendo muito mais simples quando comparamos com o mergulho autônomo, mas possui uma possibilidade de risco: o apagão.
O apagão de mergulhadores livres ou apagões hipóxicos, é um aspecto que pode ocorrer com qualquer pessoa, sendo importante compreender a causa e como se prevenir.
Um apagão em água rasa é uma perda de consciência (desmaio) dentro da d’água, e isso é causado pela falta de oxigênio no cérebro durante a execução da apneia (enquanto se prende a respiração).
Apesar do nome, esse apagão pode ocorrer em qualquer profundidade, mas normalmente esse problema ocorre em águas mais rasas, menos de 10m de profundidade.
Quando um apneísta inspira e segura a respiração, seu corpo “registra” a quantidade de oxigênio e dióxido de carbono (CO2) em seu sangue. Quando o CO2 no sangue atinge o limite em que se encontrava o oxigênio, você passa a sentir uma vontade de respirar.
Quando o apneísta realiza a chamada Hiperventilação, que é um procedimento respiratório que aumenta exponencialmente o tempo de imersão, esse procedimento diminui muito mais a quantidade de CO2 no sangue e eleva o oxigênio nos pulmões, colocando os indicadores em patamares mais altos e baixos do que simplesmente inspirar e reter o ar.
A questão, é que esse procedimento faz com que nosso organismo nos informe muito tardiamente que as reservas de oxigênio estão baixas, isto é, quando você sente a vontade de respirar, o nível de CO2 está no patamar em que se encontrava o oxigênio e vice e versa, com isso, você tem muito menos tempo para emergir.
Avisando tarde, a quantidade de oxigênio chega ao limite perigoso muito rapidamente, e atingindo o nível máximo, desmaiamos, para que o pouco que sobra seja utilizado pelo cérebro e coração. Ocorrendo o desmaio embaixo d’água e sem ter alguém para socorrer imediatamente, o apneísta vai acabar falecendo. O chamado apagão.
Esse problema pode ocorrer mais com competidores e que vão ao limite para quebrar recordes, mas no passado, era muito comum pescadores acabarem apagando embaixo d’ água, muito pela desinformação ou abuso.
A melhor forma de se prevenir, é compreender os aspectos e ter em mente que a apneia tem seus riscos, mas principalmente, que a apneia com hiperventilação, obtém-se a vantagem quanto ao aumento do tempo de imersão, por outro lado, há uma cobrança maior do mergulhador para retornar de imediato a superfície, sendo muito importante a conscientização desse risco.
Não podemos esquecer, que ao realizar a hiperventilação, os espaços entre as imersões devem ser maiores, dando mais tempo para que o organismo se recupere de cada mergulho.
Outro cuidado que o apneísta deve ter, é com o excesso de lastro, pois isso pode sobrecarregá-lo desnecessariamente, dificultando o regresso até a superfície.
Qualquer pessoa envolvida em esportes aquáticos corre o risco de apagões em águas rasas, e independe de idade, gênero e de condicionamento físico. A maneira mais importante de prevenir este problema, é tendo o conhecimento da técnica e evitar a hiperventilação em mergulhos longos e repetitivos.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



