Naufrágio Araraquara

Data: 15/08/1942

GPS:

Localização: 12 milhas da costa entre Bahia e Pernambuco.

Profundidade (m):

Visibilidade (m):

Motivo: Torpedeado pelo submarino alemão U-507.

Estado:

Carga:

Tipo: Cargueiro

Nacionalidade: Brasil

Dimensões (m): 115.21 / 16.37 / 7.44

Deslocamento (t): 4.872

Armador: Lloyd Brasileiro

Estaleiro: Cantieri Navale Triestino, Monfalcone

Propulsão: 1.008 HP – Motor à diesel

Fabricação: 1927

Notas: Morreram 131 pessoas

 

Relatório da última viagem do navio motor “Araraquara” / Por: Milton Fernandes da Silva

Às 14 horas do dia 11 de Agosto de 1942, zarpou do porto do Rio de Janeiro, com destino ao de Cabedelo e escalas em S. Salvador, Maceió e Recife, o navio-motor “Araraquara” sob o comando do capitão de longo curso, Lauro Augusto Teixeira de Freitas, levando á seu bordo 81 homens de guarnição e 96 passageiros.

No dia 13, quando em viagem Rio-Bahia, às 13h, achando-me de serviço, por ordem do Sr. Comandante, dei alarme para o serviço de salvatagem, o qual foi feito com a máxima presteza e absoluta ordem, não só por parte da guarnição como dos passageiros.

Fundeamos às 2 horas e 5 minutos, no ancoradouro do porto do Salvador no dia 14. Às 7h atracamos em frente do armazém nº 5, iniciando-se, então, as operações de carga e descarga, ficando a saída marcada para o dia seguinte às 11h. Conforme fora marcada no dia anterior, às 11h do dia 15, deu o Sr. Comandante inicio a manobra de desatracação, seguindo-se com destino ao porto de Maceió onde deveríamos chegar ao amanhecer do dia 16. Apesar de fortes ventos, mar e chuvas constantes, a viagem corria normalmente,

Às 21 horas, achando-se o navio quase de través com a cidade de Aracaju, com o clarão da mesma a vista, eu dormia no meu camarote, quando fui despertado por um estampido oco, seguido de estremecimento do navio. Levantei-me incontinenti, ainda com o barulho da explosão e tentei acender a luz, mas já não havia energia elétrica. Compreendi, então, que o navio havia sido torpedeado. Vestia eu a calça do uniforme, por cima do pijama, quando aproximou-se o Comandante perguntando ao oficial do quarto, 2º piloto, Benedito Iunes, o que havia acontecido. Foram estas as suas palavras: – “Que foi isto, Benedito ?”

O referido oficial preso de grande nervosismo nada respondeu, tendo eu dito então:

– Fomos torpedeados, e o navio está adernando consideravelmente. A este tempo a guarnição já se aproximava do passadiço aguardando a ordem do comando, que foi a seguinte:

– Ponham os coletes salva-vidas e corram as baleeiras.

Foi executada imediatamente a ordem do Comandante:

Ao passar pela baleeira n. 1, em caminho da n. 3, da qual me cabia o comando, vi já iniciando o serviço de arriar a embarcação, o Comandante, o 1º. maquinista e outros que faziam perto da guarnição da mesma.

Quando chegava a baleeira n. 3, após ter passado aproximadamente 1 minuto da 1ª. explosão, estando o navio já bastante adernado para boreste, lado do mar, onde bateu o torpedo, novo estampido foi ouvido, seguido logo por outra explosão que incendiou o porão n. 3, e derrubou parte do botequim, tendo a tolda do mesmo arriado sobre a minha baleeira, inutilizando-a completamente. Vendo a impossibilidade de arriá-la, pensei em salvar parte da guarnição, e subi ao teto da última tolda a procura das balsas, as quais, não encontrei, pois, já haviam caído ao mar, dado a grande inclinação do navio.

Voltei a baleeira, não encontrando mais a guarnição, pois, a mesma, vendo a impossibilidade de arriá-la, procurara outros meios de salvação. Ordenei então, aos passageiros que estavam desorientados que fossem para o outro bordo, e procurassem salvar-se da melhor maneira possível, pois, aquela baleeira não seria arriada; dizendo mais, que me acompanhassem. Saí de gatinhas pelo convés, seguido de vários passageiros e desci cuidadosamente pelas balaustradas das toldas até chegar ao costado que já se achava na horizontal, estando, assim, o navio completamente deitado. Corri até a quilha, fazendo-me ao mar, certo de que seria impossível salvar-me. Nadei um pouco auxiliado pelos vagalhões que me afastavam rapidamente do navio. Parei e pude presenciar o mesmo, enterrar, ou melhor, mergulhar a popa, ficando completamente em pé e desaparecendo.

Não houve tempo para ser arriada nenhuma baleeira, tendo sido empregado todos os meios para isso.

Com o vácuo produzido pelo afundamento do navio, fui um pouco ao fundo, tendo bebido bastante água com óleo e levado diversas pancadas com os destroços do mesmo. Quando voltei à superfície, e consegui respirar, agarrei-me a uma caixa que boiava, carga do porão n. 3. Nisto avistei um pedaço da tolda do botequim e nadei para ele, onde subi e pude recolher mais 3 pessoas, sendo: o 3º. maquinista, Eralkildes Bruno de Barros, o moço do convés, Esmerino Slina Siqueira e um oficial do exercito, passageiro do navio. Seguíamos a mercê das ondas, sem encontrar outras pessoas nas proximidades, a quem pudéssemos recorrer.

Fui então apanhando e colocando sobre a tábua tudo que passava a meu alcance, e que julgava ter alguma utilidade. Assim foi que apanhei uma pequena prancha, um cavalete, um saco de farinha de trigo e um balão defensa, do qual aproveitei o chicote do cabo para amarrar sobre as tábuas a pequena prancha e o cavalete, para que o mar não os levasse, pois, os mesmos serviam de lastro, isto é, faziam peso na tábua, afundando-a, evitando que a crista das vagas as arrebentassem.

Durante toda a madrugada avistamos constantes clarões de explosões no local onde afundou o navio, explosões estas, que creio terem sido nas garrafas de ar comprimido e nos tanques de óleo. Continuamos sobre as taboas, notando que o mar nos aproximava cada vez mais para terra, sempre em frente à barra do Aracaju.

Assim passamos o resto da noite de 15, todo o dia 16, quando aproximadamente, às 2 horas do dia 17, o marinheiro começou a dar sinais de perturbação mental, pedindo alimento, dizendo ter ouvido bater a campainha para o café, depois tentou agredir o tenente, o que evitamos; em seguida, desesperado de fome e sede atirou-se ao mar, sendo impossível qualquer salvação. Logo após, o segundo tenente começou a demonstrar o mesmo sintoma, perguntando pelos colegas. Lembrei-me, então de indagar seu nome e ele respondeu ser Oswaldo Costa. Tentei acalmá-lo, foi impossível, atirou-se na água.

Com cuidado para não haver desequilíbrio nas poucas tábuas que nos restavam, agarrei-o pelas botas, conseguindo coloca-lo novamente sobre as mesmas. No entanto, poucos minutos depois, colocando-se numa atitude agressiva, dizendo que eu e meu companheiro estávamos embriagados, que ia para casa, fez-se novamente ao mar, sendo desta vez, impossível salvá-lo.

Restavam agora, na tábua, somente eu e o terceiro maquinista. Assim, continuamos sempre avistando o clarão da cidade de Aracaju, para onde éramos levados.

Ao clarear o dia, quando já avistávamos as casas da referida cidade, a vazante do Rio Cotinguiba e o vento terral nos afastou para fora, fazendo-nos cair na arrebentação dos bancos. Esta acabou de destruir as tábuas e nos atirou nágua. Lutamos com a dita arrebentação nadando sempre em busca da prancha, pois, esta ainda nos oferecia resistência, mas ao aproximarmos, éramos atirados novamente à distância, tornando-se, assim, impossível agarrá-la. Continuamos nesta luta, até aproximadamente às 9 horas, quando avistamos uma coroa, para lá nos dirigimos.

Notei que a maré enchia, e calculando que na preamar, talvez não desse pé na dita coroa, e que estando fracos, pois, a 36 horas não dormíamos, nem nos alimentávamos, convenci ao meu companheiro que não devíamos descansar e sim nadar para terra, da qual já avistávamos o coqueiros.

Assim ficamos somente uns 10 minutos, afim de refazer as forças e fizemo-nos ao mar, nadando em direção da praia de Estância, onde chegamos às 15 horas. Exausto, deitei-me na areia para dormir, julgando ter meu companheiro feito o mesmo, quando fui acordado para beber água de coco verde que ele havia apanhado. Reanimado subi também ao coqueiro, derrubando 4 cocos, dos quais bebemos a água e comemos a polpa. Em seguida puzemo-nos a caminhar, e depois de andarmos 2-½ léguas, encontramos a fazenda da Barra de propriedade de Manoel Sobral, onde o administrador, Sr. Luiz Gonzaga de Oliveira, preparou jantar e nos ofereceu. Terminada a refeição, o dito administrador mandou dois de seus empregados numa canoa nos levar à cidade de São Cristóvão.

Durante a viagem, foi que conseguimos dormir um pouco no fundo da embarcação.

Às 21h chegamos a dita cidade, e fomos recebidos pelo povo, apresentando-se, em seguida, o Sr. Prefeito, que nos encaminhou à sua residência, obrigando-nos a fazer uma pequena refeição, enquanto aguardávamos a condução para prosseguirmos a viagem até Aracaju. Pedi, então, que telegrafassem à minha família, participando que estava salvo.

Quando terminávamos a refeição, mais um sobrevivente do “Araraquara” apareceu; era o passageiro Caetano Moreira Falcão, que havia dado a praia, numa das balsas, e foi recolhido por um pescador. Na referida balça, vinham mais dois passageiros, que morreram lutando com a arrebentação. O Sr. Prefeito, levou-nos no seu automóvel para Aracaju, onde chegamos às 24 horas, encaminhando-nos ao Governador do Estado, com quem conversamos alguns momentos. Depois de deixar-nos em palácio o colete e a boia salva-vidas que trazíamos conosco, retiramo-nos para o hotel Marozzi, onde ficamos hospedados.

No dia seguinte, fomos socorridos e medicados pelo médico do posto assistência Dr. Moysés.

Fiquei 10 dias impossibilitado de me locomover, por ordem do médico e durante este período, outros náufragos foram chegando a Aracaju; disto era informado pelo Sr. Agente, Dr. Carlos Cruz, ao qual pedi que telegrafasse a Companhia, cientificando-a de tudo, assim, como, as famílias que me telegrafavam pedindo notícias dos seus.

Os outros sobreviventes foram os seguintes: José Pedro da Costa, barbeiro, que se salvou em um pedaço de tábua; Francisco José dos Santos, marinheiro, e Maurício Ferreira Vital, taifeiro, que salvaram-se numa das balsas, trazendo consigo a passageira, Dona Eunice Balman; José Rufino dos Santos, marinheiro, José Correia dos Santos, moço, e José Alves de Móla, carvoeiro, que chegaram à terra montados na quilha da baleeira n. 4, que flutuou emborcada depois do navio submerso, e traziam consigo a passageira, Dona Alaide Cavalcante.

Vários cadáveres deram à praia, sendo fotografados pela polícia e, dentre eles, pude identificar dois: o taifeiro, Celso Rosas e o cabo Caldeirinha, Pedro Vieira.

As baleeiras 1 e 2, também deram à praia, mas completamente vazias.

Dia 29, seguimos por ordem da Companhia, para a Bahia, ficando ali hospedados a bordo do navio “Itaquera”, de onde saímos no dia 4 de setembro, viajando por terra, com destino ao Rio de Janeiro, onde chegamos às 23 horas do dia 10.

Consta na cidade de Salvador, que os tripulantes do iate e da barcaça que foram abordados, sendo a última bombardeada, identificaram como de nacionalidade alemã a guarnição do submarino, ficando assim provado e reconhecido os covardes que torpedearam no espaço de 48 horas, 5 navios de passageiros, completamente indefesos.

 

Galeria de Imagens:

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