Comunidades tradicionais abeiradas a corpos d’água, de maneira geral, tendem a desenvolver formas de comunicação que precisam ser interpretadas para além do idioma. Perceber as regras e formalidades não escritas de interlocução com esses grupos é um desafio, considerando-se as convicções que atuam como filtros, para estabelecer uma relação de confiança com interlocutores algures.

O Professor Robert Grenier, da Parks Canadá, proferiu uma palestra sobre a investigação subaquática realizada em Labrador, no nordeste do Canadá, às margens do Estreito de Belle Isle, onde os arqueólogos haviam descoberto em Red Bay um naufrágio de um navio Basco do século 16.

Grenier descreve elementos interessantes que decorreram a partir da chegada da equipe do Parks Canadá na pequena localidade. Como seria de se esperar, reiterou Granier, a presença dos cientistas causou retração popular, movida pela “desconfiança” em conexão com a intenção dos chegantes. Os arqueólogos subaquáticos conhecem bem esse tipo de reação de timidez e precaução em relação aos “verdadeiros” objetivos das pesquisas em navios submersos, pois o mergulho suscita mistério e quando essa atividade tem a finalidade de naufrágios então a imaginação das pessoas é potencializada.

A estação baleeira Basca em Red Bay, Labrador – Canadá, constitui um conjunto totalmente inteligível de elementos arqueológicos que ilustram um processo proto-industrial de produção em larga escala de óleo de baleia, durante o século 1 – Foto: Dani3315

A comunidade de Red Bay retraiu-se e, por mais que as técnicas para “quebrar o gelo” estivessem sendo empregadas, a insegurança continuava a intermediar as relações dia após dia. Reuniões com lideranças e explanações sobre os propósitos da investigação foram realizadas com a comunidade, mas sem reação alguma, sem o mínimo sinal de resposta positiva ou negativa – uma incógnita. Não esboçavam nenhuma simpatia. Estavam todos simplesmente mudos até que em uma das apresentações de Grenier um jovem rompeu o silêncio e perguntou: “professor, o senhor tem um cachorro ?” Segundo Grenier esse foi o questionamento mais bizarro que ele já ouvira em todas as oficinas de sociabilização que realizara em sua vida.

Foi sem dúvida a mais surpreendente forma de abertura de diálogo, após todos aqueles esforços visando estabelecer uma via de comunicação. Robert Grenier respondeu de forma afirmativa: “sim, de fato eu tenho um cão”. Então outro jovem perguntou: “qual o nome do seu cachorro ?” E, a seguir, na medida em que Robert respondia, uma enxurrada de novas perguntas com foco canino foram proferidas, buscando perceber como era o relacionamento do professor com o seu cão.

Foi por meio dessa enquete bisonha que afinal a confiança foi estabelecida. Para aquele grupo tradicional, a forma como uma pessoa se relaciona com seu cão revela quem você é. Ou seja, o canal de comunicação foi obtido empregando uma linguagem imprevisível: o cão. A partir desse código deu-se a conexão que a equipe do Parks Canadá buscava para iniciar a investigação arqueológica.

A UNESCO inscreveu a Estação Baleeira Basca de Red Bay como Patrimônio Mundial de Valor Universal Excepcional por “ser um sítio arqueológico que provê o mais antigo, completo e bem preservado testemunho da tradição baleeira Europeia”.

As instalações remanescentes em Red Bay incluem elementos terrestres e submarinos que ilustram as principais fases do processo de caça às baleias. Embora a autenticidade da estação seja inquestionável, para os visitantes, a percepção é limitada, uma vez que vários elementos voltaram a ser enterrados, com vista à preservação. A gestão do sítio arqueológico consiste em monitorar a conservação e desenvolver métodos de recepcionar visitantes para que possam interpretar o conjunto.

A constatação de ser o naufrágio, em Red Bay, um navio de construção basca do século 16 promoveu uma conexão improvável entre aquela comunidade isolada nas áreas geladas do Labrador, com o país Basco na Europa. Para a população de Red Bay foi uma grande surpresa conhecer suas origens ibéricas e, para o povo basco foi um brinde às emoções conflitantes com o reino de Espanha, ao tomar ciência de que seus antepassados haviam participado com métodos próprios de construção naval e operação de navios baleeiros tão importantes para o comércio e qualidade de vida das populações europeias seiscentistas.

Quando as estruturas no substrato se apresentam diferentes das naturais, ocorre um fenômeno interpretativo que imediatamente conecta o “achado submerso” com um tecido sociocultural. As pessoas que no presente lá estão a espreitar, agregam valor as pessoas que no passado lá deixaram vestígios, envolvendo as pessoas que no futuro lá irão visitar.

A partir das “emergências alentadoras” descortinadas em Red Bay por meio da Arqueologia Subaquática, envolveu todos em um sentimento de pertença transcendente que se consagra pela integração com a cultura.

Título da obra: A arqueologia subaquática de Red Bay (2007); Robert Grenier; Marc-André Bernier; Willis Stevens (Editores).

Para saber mais sobre a pesquisa arqueológica em Red Bay o leitor poderá recorrer a uma publicação (capa na foto acima) que relata mais de 25 anos de pesquisas realizadas por arqueólogos subaquáticos, profissionais associados e membros do Serviço de Arqueologia Subaquática da Parks Canada.

O material está dividido em cinco volumes e cobre muito mais do que a arqueologia subaquática praticada em Red Bay, incluindo detalhes da construção de navios bascos do século 16, métodos de caça à baleia e as experiências culturais das equipes.

Reconhecimento

Quando um mergulhador declara corretamente ao órgão competente um “achado submerso” ele precisa ser imediatamente reconhecido e identificado (individualmente). Isso é diferente de consagrar o achador como parte de uma equipa, grupo ou dupla, no momento da fortuna. O “desejo” de achar e o “reconhecimento” por “encontrar” são aspectos subjetivos que impulsionam pessoas a participar de mergulhos. A Arqueologia Subaquática precisa estar pronta a gerir o processo de reconhecimento.

Os indivíduos, de maneira geral, saboreiam a liberdade de “achar” e sentem-se compelidos a exercer o direito de “contribuir”, pois isso melhora a autoestima. Mergulhadores precisam cumprir etapas técnicas para descer ao fundo com segurança e “descobrir” as maravilhas que o mundo subaquático pode descortinar. Aliás, “mistérios submarinos” têm sido usado como incentivo pelas certificadoras, operadoras e resorts, para atrair, captar e cativar clientes, para que se sintam pertencendo ao conjunto.

Por:

Randal Fonseca

Foi fundador da operadora AquaRio em Arraial do Cabo e sócio da Águas Claras em Fernando de Noronha. Formou muitos mergulhadores, além de realizar inúmeros projetos que contribuíram no crescimento do mergulho no país.

Considerado um dos pioneiros do mergulho brasileiro, especialista em Arqueologia Subaquática, sendo responsável pela pesquisa arqueológica subaquática da nau capitania de 1503, descrito por Américo Vespúcio, cujo relato revelou e deu o nome ao Novo Mundo.

É palestrante e desenvolvedor de sistemas com tecnologia da informação para gestão de resiliência a desastres em empresas e comunidades. Autor de livros, artigos e material didático no âmbito da Segurança, Saúde e Resposta a Emergências.