As Crianças no Mergulho

Foto: Aqua Lung

Criança e mergulho é um assunto controverso, onde existem diversas preocupações com os pequenos, no que diz respeito a sua estatura, força muscular discernimento das informações e risco de inibição de crescimento ósseo.

É importante ter em mente que crianças não são pequenos adultos, elas se encontram em fase de crescimento, num ritmo acelerado de amadurecendo, evoluindo fisicamente quanto psicologicamente. Elas são predispostas a infecções de ouvido como consequência da forma e função imaturas de suas trompas de Eustáquio, o que também pode aumentar o risco de barotrauma de ouvido médio.

Elas queimam muitas calorias, e o calor resultante fornece uma boa tolerância ao frio. Uma vez que as calorias disponíveis são exauridas, no entanto, sem o isolamento térmico adequado as crianças podem ser mais propensas ao risco de hipotermia, e a sua proporção relativamente elevada entre massa corporal e área superficial leva a uma perda acelerada de calor.

A asma infantil coloca em evidência como a função pulmonar ainda está evoluindo nos jovens, e qualquer risco de aprisionamento de ar será uma grande preocupação ao respirar ar comprimido.

Uma grande preocupação envolve a psicologia e capacidade cognitiva, pois muitas vezes elas não possuem maturidade mental para compreender e gerenciar riscos, podendo se comportar de forma imprevisível em circunstâncias que geram estresse. No que diz respeito ao planejamento do mergulho, isso pode ser um problema para aqueles que se distraem facilmente.

Atualmente o treinamento de mergulho lida com as questões físicas, fisiológicas e psicológicas, havendo alterações das técnicas, limitando as exposições e exigindo uma supervisão rigorosa dos pequenos.

Dados sobre acidentes de mergulho entre crianças são raríssimos, e o pouco que se sabe, é que não há indicativos que causem algum tio de alarme.

A Divers Alert Network (DAN) realizou uma pesquisa com médicos renomados sobre as crianças mergulhando, e recebeu as seguintes respostas:

Quais são os riscos que você considera mais preocupante quando se trata de jovens mergulhadores ?

Simon Mitchell: Geralmente sou tranquilo com relação ao mergulho feito por crianças, desde que as recomendações de treinamento, supervisão e escopo do mergulho promovido pelas principais certificadoras sejam estritamente seguidas. Acredito que os maiores problemas estão relacionados à imaturidade emocional e comportamental das crianças que podem levá-las a tomar decisões erradas ou não prestar atenção ao planejamento. Essa preocupação pode ser mitigada através de uma supervisão apropriada.

David Charash: Em geral, os riscos do mergulho incluem barotrauma, doença descompressiva, embolia arterial gasosa, pânico, afogamento e eventos traumáticos. Os riscos do mergulho não distinguem com base na idade ou experiência. As verdadeiras questões são:

  • Como um mergulhador pode lidar com um determinado problema;
  • O mergulhador é capaz de compreender o nível de risco presente e decidir sobre o grau de risco que ele ou ela está disposto a aceitar ?
  • Uma criança é capaz de perceber o risco, de acordo com o perfil de mergulho ?

Thomas March: De um modo geral a população pediátrica é bastante saudável. Nos preocupamos muito mais com os erros mentais. O lóbulo frontal, que está associado ao julgamento, geralmente não está totalmente desenvolvido até o início da terceira década de vida. Pânico, excesso de confiança e ansiedade são sérias preocupações na pediatria. Eu também temo que muitos mergulhadores em idade pediátrica não tenha a força física e/ou habilidade para ser um dupla de mergulho responsável pela vida de outro mergulhador.

David Wakely: Mergulhadores adultos inexperientes são o maior risco para as crianças que mergulham. Uma criança mergulhadora tem uma mentalidade muito diferente se comparada com um adulto experiente. Adultos que acreditam que a criança com a qual estão mergulhando é capaz de lidar com todas as condições e cenários, e não as supervisionam, são duplas perigosas para uma criança.

Uma criança deve sempre ter como dupla um adulto que tenha experiência em lidar com a atenção e a tendência de distração, além disso, ele deve monitorar constantemente o ar e a profundidade, a aquacidade e a velocidade de subida / descida da criança.

Você acha que limitar a exposição torna o mergulho mais seguro para as crianças ?

Mitchell: Limitar as exposições de profundidade / tempo torna o mergulho mais seguro para adultos e crianças. Essa é uma de muitas maneiras de mitigar a possibilidade de que uma criança seja mais propensa a situações como ficar sem ar e subir muito rapidamente. Isso claramente não afeta o risco de alguns problemas de mergulho como barotraumas.

Charash: Intuitivamente, determinar um limite de exposição de profundidade e tempo provavelmente aumenta a segurança da criança, mas não devemos nos esquecer de que existe risco em qualquer profundidade e tempo de mergulho.

March: Deixar jovens mergulhadores sem supervisão respirando ar comprimido, mesmo em profundidades rasas, pode ser um grande erro. Na minha opinião é mais importante que o instrutor tenha as habilidades necessárias para avaliar a capacidade do jovem mergulhador ser orientado. Muitos mergulhadores jovens são, eventualmente, capazes de compreender os riscos, mas a prontidão pode variar drasticamente e depende muito menos da idade do que da maturidade. Acho que os esforços para credenciar instrutores especializados seriam interessante.

Wakely: Uma resposta gradual à aprendizagem e à liberdade para mergulhar e essencial para a segurança infantil. Gosto de usar a analogia do esqui – é um esporte extremamente perigoso, mas há poucos adultos que argumentam que as crianças não devem esquiar. É amplamente aceito que as crianças devem começar em encostas suaves, usar um capacete e mover-se gradualmente até um terreno mais avançado de acordo com suas habilidades.

O estresse descompressivo seria uma preocupação em relação ao desenvolvimento de ossos das crianças ?

Mitchell: Não existem evidências para isso. As placas epifisárias dos ossos longos não fecham até o final da adolescência, e há um extenso histórico de mergulhos feitos por adolescentes durante décadas. Apesar disso, não tenho conhecimento de um único caso de aparente inibição do crescimento em um membro, como resultado da doença descompressiva em um adolescente.

Charash: Não existem estudos que mostram evidências claras de que o mergulho (estresse descompressivo) pode afetar o desenvolvimento de ossos longos em jovens mergulhadores. O que não é tão claro é o efeito de microbolhas que podem entrar na circulação e possivelmente afetar os vasos sanguíneos nas placas de crescimento (placas epifisárias). Sugiro limitar a exposição das crianças ao nitrogênio, restringindo profundidade e tempo de mergulho, além de aumentar o tempo de intervalo superfície.

March: Sabemos que a perfusão tecidual nas placas de crescimento é significativamente diferente do que na maioria dos outros compartimentos corporais. Isso é claro, porque encontramos pacientes pediátricos muito mais suscetíveis a infecções sanguíneas nessas áreas. Os modelos descompressivos são provavelmente inadequados para mergulhos rotineiros, e uma confirmação experimental não é nem ética nem prática. O consenso geral de aplicar uma margem de segurança parece ser prudente.

Wakely: Não há nenhuma evidência de que o ambiente hiperbárico tenha qualquer efeito nocivo sobre ossos em crescimento. A The Undersea and Hyperbaric Medical Society (UHMS) enumera 14 condições médicas que são conhecidas por se beneficiar da terapia com oxigênio hiperbárico (OHB). Para duas destas condições, osteomielite (infecção óssea de longo prazo) e osteorradionecrose (dano ósseo causado por terapia de radiação), a OHB trata o problema subjacente (infecção e osso morto), estimula a formação de novos vasos sanguíneos no osso e permite que o osso se regenere. OHB não tem efeito negativo conhecido sobre ossos saudáveis de qualquer idade.

Você acha que jovens de 10 anos de idade têm a maturidade mental para compreender e gerir os riscos invisíveis envolvidos no mergulho ?

Mitchell: A questão requer contexto. No âmbito de um programa de treinamento de mergulho e das diretrizes de prática projetadas especificamente para essa faixa etária, a minha resposta seria “sim, na maioria dos casos.” Dito de outra forma, se a supervisão e a profundidade / tempo recomendadas para mergulho forem cumpridas, crianças de 10 anos motivadas devem ficar bem. Mas, se a questão é se uma criança de 10 anos deve ser considerada um mergulhador de águas abertas independente, então a minha resposta seria não.

Charash: Para responder a esta pergunta, é importante entender o crescimento e desenvolvimento em uma infância normal. Como há uma variação significativa na maturidade e no desenvolvimento, não é possível prever quem vai ter a capacidade de entender e também gerenciar os riscos. Com relação à questão, seria um desafio esperar que uma criança de 10 anos de idade entenda um “risco invisível.”

March: Muitas crianças de 10 anos podem ser capazes, mas um número maior pode não o ser. Infelizmente, muitas vezes há incentivos para que instrutores, pais e até mesmo operações de mergulho, treinem pessoas que não estão preparadas. Adultos que possuem as habilidades para avaliar a aptidão de mergulhadores em idade pediátrica podem proporcionar experiências aquáticas positivas e seguras para crianças com qualquer nível de habilidades.

Priorizar experiências positivas para os estudantes em idade pediátrica permite um melhor avanço de todos os níveis de habilidade e evita a dicotomia do tudo ou nada de programas com foco em certificação. Isso também evita um sentimento de fracasso nos alunos que não conseguiram concluir a certificação e pode aliviar um pouco da pressão dos pais sobre os instrutores para certificar os alunos.

Wakely: Cada criança é diferente, mas entre as idades de 7 e 11 anos as habilidades cognitivas das crianças mudam de duas formas. Em primeiro lugar, o pensamento concreto se desenvolve. Esta é a capacidade de resolver problemas lógicos que se aplicam a objetos ou eventos reais. Em segundo lugar, as crianças tornam-se menos egocêntricas e desenvolvem a capacidade de ver as coisas na perspectiva dos outros. Assim, uma criança normal de 10 anos de idade deve ter a maturidade mental para entender o conceito de risco e ser capaz de resolver os problemas concretos relacionados ao equipamento. No entanto, o estágio operacional formal do pensamento – usar o pensamento abstrato e aplicá-lo aos problemas que ainda nem aconteceram – não se manifesta na maioria das crianças até uma idade de 11 a 15 anos. As principais agências de programas de treinamento de mergulho para jovens fazem um bom trabalho nesses estágios do desenvolvimento cognitivo.

Que características você considera necessárias para uma criança ser um bom candidato para o mergulho ?

Mitchell: A coisa mais importante é que a criança queira mergulhar. Também é importante que os pais deem suporte e estejam totalmente envolvidos na decisão de permitir o mergulho, atuando como receptores informados sobre os riscos em nome da criança. A criança deve apresentar um nível de maturidade emocional, intelectual e físico compatível com o escopo de mergulho prescrito para sua faixa etária. Note-se que essas características não podem ser adequadamente avaliadas em uma entrevista em um escritório. Assim, a avaliação da aptidão de uma criança para o mergulho é em grande parte, responsabilidade do instrutor de mergulho que observa a criança realizar tarefas na água, e não do médico.

Charash: Há cinco componentes que sugerem que uma determinada criança seja um bom candidato ao mergulho: aptidão médica (ausência de qualquer condição médica que possa afetar a segurança), aptidão psicológica (motivação adequada para o mergulho e cumprimento de metas de desenvolvimento relevantes), aptidão física (capacidade de gerenciar equipamentos e nadar contra a correnteza), conhecimento (saber como responder a situações de forma adequada) e competências (capacidade de limpar uma máscara, compartilhar ar, etc.).

March: Demonstrar habilidades de superfície, como respirar através de um snorkel sem ansiedade, são requisitos mínimos para seguir com a instrução. Atenção deficiente, excesso de confiança e ansiedade parecem ser critérios de exclusão. Os pacientes pediátricos vão bem com uma gradativa e crescente responsabilidade. Infelizmente idade por si só não é um bom indicador das capacidades de desenvolvimento e adaptação. Um avanço baseado na aptidão do indivíduo requer habilidades por parte do instrutor e dos mentores. Ao considerarmos os riscos e os danos potenciais que podem ser perpetrados, também temos de ponderar as oportunidades para enriquecer a apreciação do mundo subaquático e o desenvolvimento da confiança e de habilidades em nossas futuras gerações de mergulhadores.

Wakely: Vários fatores devem ser considerados quando se avalia um aluno mergulhador criança.

A maturidade psicológica: Os candidatos devem ser calmos e racionais, não propensos a explosões emocionais extremas e não propensos à ansiedade em situações desconhecidas. Eles precisam entender risco e prevenção de risco.

Maturidade educacional: A criança deve ser capaz de aprender de forma independente. Aprender teoria do mergulho é uma grande empreitada, e os alunos devem ser capazes de se concentrar no material e saber quando perguntar. Eles devem ser capazes de compreender o que estão lendo de forma a aplicar os princípios descritos a situações que vivenciam em sua vida diária.

Maturidade física: A criança deve ser capaz de nadar e deve estar muito confortável na água. Atualmente equipamentos de mergulho para crianças muito pequenas são difíceis de encontrar, por isso, a criança deve ser grande o suficiente para usar o equipamento disponível corretamente e com segurança.

Desejo de mergulhar: O desejo de mergulhar deve vir da criança, e não do pai. Um pai pedindo a um instrutor para ensinar seu filho é muito diferente de uma criança que quer aprender a mergulhar como o seu pai.

Clinicamente apto: asma, TDAH e obesidade mórbida são predominantes hoje, e estas três condições comumente desqualificam as crianças para o mergulho. Se você está pensando em organizar para que seu filho aprenda a mergulhar, discuta os seus planos com um médico familiarizado com a medicina de mergulho.

Qual foi o seu maior desafio na formação de jovens mergulhadores ?

Margo Peyton: Meu maior trabalho é educar os pais. Os pais frequentemente não divulgam informações importantes nos formulários médicos, pois eles têm medo de que seu filho seja impedido de mergulhar. A divulgação completa de todas as condições médicas é fundamental – não só para maximizar a segurança da criança, mas também para que o operador de mergulho possa acomodar quaisquer necessidades especiais que a criança possa ter.

Por exemplo, tivemos uma vez uma criança com autismo em nosso programa e não estávamos cientes de sua condição até que ele entrou em pânico durante o seu primeiro mergulho em águas abertas. Ela ficou muito agitada e agressiva. Felizmente ninguém ficou ferido, mas a criança teve que ser removida do programa, o que foi humilhante para ela. Se soubéssemos de seu autismo teríamos colocado um instrutor particular com experiência no ensino de crianças com autismo.

Os pais devem estar cientes, no entanto, de que nem todos os operadores de mergulho têm experiência com crianças. Supervisão adequada não deve ser dada como certa. Eu recomendo que os pais perguntem aos operadores de mergulho as seguintes questões antes de seus filhos irem mergulhar:

  • Existe um kit de primeiros socorros e unidade de oxigênio a bordo ou nas proximidades ?
  • Um rádio ou telefone celular está disponível ?
  • Será que todos os profissionais da equipe (divemasters e instrutores) estão ativos e renovados ? (Não hesite em pedir para ver as suas credenciais).
  • Quais são as profundidades e condições dos mergulhos ? (Certifique-se de que a criança não irá mergulhar mais profundo do que o que é recomendado para sua idade).
  • Algum dos instrutores tem formação ou experiência de trabalho com crianças ?
  • Será que o barco tem um cilindro de segurança, cabos de superfície e bandeira de mergulho a bordo ?

Os pais devem solicitar um curso de reciclagem para as crianças que não mergulharam nos últimos 12 meses, e eles não devem hesitar em pedir que um divemaster os acompanhe se eles não estão confortáveis mergulhando sozinhos com seus filhos.

Conheça os Especialistas

David Charash, D.O., CWS, FACEP, UHM, é diretor médico de cuidados de feridas e medicina hiperbárica do Hospital de Danbury, em Connecticut. Ele é um examinador certificado de medicina do mergulho, bem como um médico de referência da DAN, e Instrutor DAN. Dr. Charash ministra palestras sobre segurança do mergulho e sobre medicina de mergulho.

Thomas March, M.D., um pediatra com mais de 30 anos de prática e tem interesse especial em pacientes pediátricos com desafios de comportamento e desenvolvimento. Mergulhador há mais de 35 anos, ele tem uma formação especial e interesse em medicina administrativa e em avaliações de aptidão física para o mergulho.

Simon Mitchell, MB, ChB, Ph.D., FUHM, FANZCA, é médico com muitas publicações em suas áreas de especialização, anestesia e medicina do mergulho. Chefe do departamento de anestesia da Universidade de Auckland, ele é um mergulhador técnico ávido, um companheiro do Explorers Club e o ganhador do 2015 DAN/Rolex Diver of the Year.

Margo Peyton, MSDT, é uma educadora de mergulho, membro da Woman Divers Hall of Fame e fundadora e diretora do Kids Sea Camp, através do qual mais de 5.900 jovens já aprenderam a mergulhar. A cada ano cerca de 1200 a 1600 estudantes mergulham com o Kids Sea Camp, que tem um histórico de segurança imaculado.

David Wakely, FRCEM, FRCS, MBBS, BSc, Dip IMC, EDTC-II, é um consultor em medicina de emergência, bem como cuidados de feridas e medicina hiperbárica no King Edward VII Memorial Hospital em Bermuda. Ele também é um consultor de medicina de mergulho para a polícia e governo de Bermuda e um instrutor de mergulho que trabalha extensivamente com crianças.

Fonte de Pesquisa

  • Divers Alert Network (DAN)
  • The Undersea and Hyperbaric Medical Society (UHMS)
Por:
Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983, no autônomo em 1986 e Dive Master em 1990. Hoje é mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior. Também prestou consultoria para a ONU, UNESCO e diversos órgãos públicos no Brasil.