Em dezembro de 2024, a queda da ponte Juscelino Kubitschek uniu o Brasil em luto.
O Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo (CBPMESP) respondeu ao chamado de apoio, enviando uma equipe especializada em mergulho técnico para auxiliar nas buscas e recuperação das vítimas no rio Tocantins.
O Chamado que Cruzou Fronteiras
No dia 30 de dezembro, o CBPMESP recebeu um pedido de auxílio do Corpo de Bombeiros Militar do Tocantins, necessitando de apoio especializado para as operações de busca e resgate.
A missão era clara: encontrar e recuperar as vítimas submersas no rio Tocantins, um desafio que exigiria o máximo de expertise e preparo.

Uma Longa Jornada
A equipe do CBPMESP, ciente da urgência e da importância da missão, iniciou os preparativos no dia seguinte. Três viaturas foram carregadas com equipamentos de ponta e partiram do Guarujá-SP, percorrendo 2.300 km até Aguiarnópolis.
A longa jornada, dividida em três dias, refletia a determinação de chegar ao local o mais rápido possível para auxiliar nas buscas.
Encontro com a Realidade e Integração
Ao chegarem ao posto de comando, os Bombeiros Paulistas foram recebidos pelos comandantes locais e rapidamente integrados à operação, liderada pela Marinha do Brasil.
O cenário inicial era desolador, com famílias angustiadas e a complexidade do teatro de operações nas profundezas do rio Tocantins, sendo:
- 17 vítimas submersas, local com muito enrosco
- 10 veículo submersos (04 caminhões, 02 caminhonetes, 01 carro e 03 motos),
- Forte correnteza (a cerca de 500m acima do local do sinistro havia uma barragem da usina hidrelétrica que fechava as comportas as 06h e abria as 18h)
- Profundidade média de 43m
- Visibilidade de cerca de 3m
- Produto químico na água (02 caminhões tanques de ácido sulfúrico e 01 caminhão de defensor agrícola com cerca de 1.100 bombonas de 20L que se espalharam por toda extensão da ponte caída)
- Complexidade essa que exigia técnicas de mergulho avançadas
- Muito planejamento e entrosamento da equipe.

A 1° Equipe de Mergulho Técnico do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo
O CBPMESP enviou uma equipe altamente qualificada, composta por oito Bombeiros, cada um com habilidades específicas e complementares:
- Cap PM Nishihara (Comandante da equipe e Mergulhador Técnico);
- Sub Ten PM Bagnolesi (Mergulhador Técnico);
- Sub Ten PM Valdemir (Mergulhador Técnico);
- 1° Sgt PM Tanke (Piloto de Embarcação, Mecânico e Motorista);
- Cb PM Rodriguez (Mergulhador CMAut);
- Cb PM Brito (Mergulhador Técnico);
- Cb PM Torrente (Mergulhador CMAut);
- Cb PM Inácio (Mergulhador Técnico).
Os mergulhadores técnicos possuem certificações no mínimo de Trimix, que permitiam mergulhos de até 60 metros de profundidade e experiência em diversas áreas do mergulho técnico, PSD, águas contaminadas e comercial.
Os mergulhadores de CMAut são especializados em mergulho de segurança pública (PSD) e são autorizados a mergulharem até 40m de profundidade.

Equipamentos Utilizados
Os mergulhadores técnicos estavam equipados com: Roupa seca; Gorro e luvas; Computador de mergulho; Duplas de cilindros de aço de 18L e 15L; Reguladores de alto desempenho; Colete tipo Asa e plate; Nadadeiras Tec; Deco mark, spool e carretilhas; Faca de mergulho; Máscara semi facial.
Os mergulhos foram realizados com ar nos cilindros das duplas e oxigênio puro (100%) nos cilindros S40 para descompressão aos 6m, recarregados com um Booster.
Os computadores de mergulho foram configurados com um Gradiente Factor (GF) de 50/90.
Mergulhos
A partir do dia 3 de janeiro, os mergulhadores do CBPMESP iniciaram as operações, realizando 02 mergulhos por dia (01 de manhã e outro a tarde), enfrentando profundidades de até 43 metros, correntezas fortes, muito enrosco e a presença de grandes pedras no leito do rio.
Os mergulhos em média duravam cerca de 60 minutos, sendo 30 min de fundo e o restante do tempo era de descompressão, o mergulho da tarde era sempre mais curto.
A cada mergulho, a equipe buscava indícios que pudessem levar à localização das vítimas, sempre com a máxima cautela e profissionalismo.
Em um dos mergulhos, a equipe localizou uma vítima a 33 metros de profundidade, um momento de alívio em meio à tragédia.
A recuperação do corpo permitiu que a família pudesse se despedir e encontrar um mínimo de conforto.

Desafios e Lições Aprendidas
A operação de resgate da ponte JK foi um teste para a equipe do CBPMESP, que precisou lidar com condições extremas e complexas e ainda pressão de encontrar as vítimas o mais rápido possível.
A experiência serviu para aprimorar técnicas, fortalecer o trabalho em equipe e reafirmar o compromisso com a missão escolhida.
Agradecimentos e Reconhecimento
O resultado positivo da operação só foi possível graças ao apoio e colaboração de diversas instituições, incluindo a Polícia Militar do Estado de São Paulo, o Corpo de Bombeiros Militar do Tocantins, Maranhão, Pará, Brasília e a Marinha do Brasil.
A atuação dessas instituições com seus Bombeiros mergulhadores demonstrou um altíssimo profissionalismo, humanidade e compromisso com a sociedade, inspirando a comunidade do mergulho em todo o país. O reconhecimento e a gratidão a todos os envolvidos.


Fernando Nishihara
Capitão do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo – Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar).
- Comandante do Sub Grupamento de Bombeiros Náutico (SGB Náutico) do GBMar de SP;
- Mergulhador Profissional Raso (Dependente) pela Divers Universy;
- Operador de Camara Hiperbárica pela Divers Universy;
- Coordenador e Instrutor do Curso de Mergulho Autônomo (CMAut) do CBPMESP;
- Instrutor IANTD, SDI, NAUI e RAID;
- Especialista em Mergulho de Segurança Pública (PSD);
- Mergulhador Técnico (Trimix Avançado, Full Cave e Rebreather);
- Presidente da Comissão de Mergulho do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo;
- Membro do Comitê Nacional de Mergulho de Busca e Resgate (CONAMER) da Liga dos Bombeiros Militares do Brasil (LIGABOM).



