Assim que a caixa estanque Diveroid foi lançada na web, recebemos inúmeras mensagens sobre o assunto, com as pessoas nos avisando sobre o lançamento como se fosse algo inédito no mercado.

A Diveroid é uma caixa estanque para telefone celular lançada na Coréia do Sul, tendo como foco principal, a facilidade do usuário poder levar seu telefone celular para fotografar e filmar, além de poder contar com dados de um computador de mergulho na própria tela do celular.

Até aí, nenhuma grande novidade, com exceção do computador.

Digo isso porque já existem outras caixas estanques para telefone celular, inclusive, com medidor de profundidade e tempo de mergulho.

Lendo a página e assistindo aos vídeos, achei preocupante como a publicidade está sendo veiculada, pois me sentiria enganado se fosse um usuário menos informado, porque olhando todo o conteúdo sobre a Diveroid, alguns aspectos não estão claros, podendo criar decepções aos desavisados.

Pontos não contados

Toda a publicidade em torno da caixa estanque Diveroid, a coloca como sendo um equipamento de primeira linha e que trará benefícios inquestionáveis, sendo um deles, a lente que não embaça.

Normalmente uma lente de caixa estanque tende a embaçar por causa da variação da temperatura externa com a interna presente na caixa, fazendo com que o mergulhador não consiga captar imagens, por não conseguir limpar o interior da lente da caixa estanque estando na água.

Como qualquer telefone celular acaba esquentando muito enquanto ligado,  as chances da lente embaçar existe. Talvez a “malandragem” tenha sido o uso de uma lente de cristal e a inserção de um sensor de temperatura para alertar ao mergulhador que o celular está quente demais, obrigando-o a desligar o equipamento, e consequentemente, evitando que a lente venha entre no estágio de embaçada.

Se o mergulhador utilizar essa caixa com frequência em águas frias, como normalmente é o caso dos mergulhos no sudeste e sul do Brasil, ela poderá embaçar.

Outro problema é a autonomia da bateria do celular. Por ficar ligado o tempo todo, a drenagem da bateria do telefone será grande, e dependendo do modelo, pode acabar não durando o mergulho todo, sendo importante o mergulhador desligar por exemplo, itens como GPS, WiFi e NFC, pois são grandes consumidores de energia. Desligando eles, você ganharia mais tempo de uso durante o mergulho.

Olhando os vídeos apresentados, achei muito entranho alguns aspectos, pois alguns pontos são incompatíveis com imagens geradas por telefone celular, mesmo os mais novos gerando imagens em 4K. Algumas imagens não condizem com o que normalmente vemos, principalmente no que diz respeito ao ângulo de abertura grande demais sem o uso de uma lente grande angular, e tenho dúvidas se todas as imagens exibidas no vídeo demonstrativo são realmente de um telefone celular, como afirmam.

Outro ponto não mencionado, é quanto ao sistema de focagem. Mergulhar e filmar com celular na água é bem diferente que na superfície, e filmar durante o mergulho, dependendo do local, pode ser um transtorno para o mergulhador, pois é muito comum o telefone ficar alterando o foco para conseguir focalizar corretamente um objeto, mas qualquer suspensão causa problemas no processo de focagem, e o resultado final, é um vai e vem danado do foco nas imagens, não sendo tão simples assim como aparece nos vídeos apresentados.

Aliás, eles gravaram em águas extremamente claras, sem suspensão e com baixa profundidade, justamente para gerar a melhor imagem possível.

Aspectos que merecem atenção

Uma das vantagens apresentadas na caixa estanque Diveroid, é a integração de um computador de mergulho ligado ao telefone celular, onde afirmam que o mergulhador terá todos os dados na tela e controle total do mergulho.

A grande questão é: Que tabelas são usadas ?

Simplesmente não explicam absolutamente nada sobre a tabela usada pelo computador, que padrão seguem e etc, e como os mergulhadores poderão descer sem ter uma referência quanto à origem da tabela utilizada, bem como o sistema todo em si. A meu ver, um tiro no escuro, sem contar que telefone celular eventualmente apresenta falhas, sendo necessário reinicializá-lo, e como fazer isso durante o mergulho ?

Não acho uma boa ideia. Talvez se o sistema exibisse apenas os dados de algum computador de mergulho de marcas renomadas na tela seria melhor, mais confiável e redundante, mas informações oriundas de um computador que sabe lá qual é a marca, acho temerário.

Outro aspecto falho é quanto ao sistema de acionamento dos três botões de comando do telefone. A forma utilizada é a mesma usada nas caixas estanques acrílicas, e dependendo do número de mergulhos, em pouco tempo pode apresentar problemas e alagar a caixa. É um sistema simples, contudo, requer manutenção frequente da caixa.

Pra piorar, a maior falha deles no projeto, é não ter um sistema de testes contra alagamentos antes da caixa estanque ir para a água, assim como é feito nas caixas da canadense Kraken, que é voltada para telefone celular e utiliza um sistema de verificação contra alagamentos e que funciona perfeitamente, sendo elemento básico de caixas de qualidade hoje em dia, sendo um sistema de baixo custo e relativamente simples de ser feito.

Agora, você colocaria um telefone de 4 a 8 mil reais em uma caixa estanque sem um sistema de testes desses ?

Mergulharia com uma caixa sem saber se ela pode alagar de uma hora pra outra sem avisar ?

Conclusão

A proposta é boa, mas acho que está ocorrendo um marketing em excesso. O projeto precisa de ajustes para que se tenha uma boa segurança para o usuário.

Nesse caso em especial, não recomendaria a qualquer mergulhador utilizar o computador de mergulho dessa caixa como fonte de informação e controle do mergulho, pois a falta de informação e detalhes podem criar riscos desnecessários.

O projeto da caixa Diveroid está no Kickstarter e este mês já havia arrecadado mais de meio milhão de dólares, com quase 1.500 investidores, e agora é esperar ter acesso ao produto e avaliar se realmente é um produto interessante para o mergulho. Mais informações podem ser obtidas no link https://bit.ly/30XQm64

Caixa Estanque Diveroid

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.