Numa expedição organizada pelo Projeto Coral Vivo, entre abril e maio deste ano, um grupo de cientistas da Universidade de São Paulo conseguiu visualizar o fundo do Banco Royal Charlotte, uma grande plataforma submarina no sul da Bahia, que é uma das regiões mais desconhecidas da costa brasileira, apesar de estar bem de frente a Porto Seguro e ser adjacente ao maior hotspot de biodiversidade marinha do Atlântico Sul, o Banco dos Abrolhos.
Os dados da expedição estão sendo processados, mas os resultados preliminares indicam haver grandes extensões de ecossistemas recifais, incluindo recifes de corais e bancos de rodolitos, além de outras estruturas geológicas. No ponto batizado de Laje 11, os pesquisadores encontraram um grande canal submerso, podendo ser um leito de rio pré-histórico, havendo paredes revestidas de corais e habitado por uma enorme variedade de peixes, pequenos invertebrados e outras formas de vida marinha.
Um ecossistema encontrado na faixa dos 40m de profundidade, já na zona mesofótica (com baixa incidência de luz solar).
“Acho que é um dos recifes mais saudáveis, profundos, que eu já vi no Brasil. Não esperava encontrar um recife tão complexo e tão saudável como esse, especialmente nessa profundidade”, diz o pesquisador Ronaldo Francini Filho, do Centro de Biologia Marinha (CEBIMAR) da USP, em São Sebastião, que mergulhou no local.
“Me surpreendi muito com os recifes mesofóticos e com a extensão da cobertura de corais. É uma coisa sem precedentes”, comemorou o professor Paulo Sumida, diretor do Instituto Oceanográfico (IO) da USP e coordenador de uma frente de pesquisa sobre o Royal Charlotte junto ao Projeto Coral Vivo, após ver as imagens da expedição.
E esse foi apenas um dos pontos identificados como de interesse pelos cientistas ao longo do banco, que tem cerca de 6 mil Km² (do tamanho do Distrito Federal). Sua borda mais distante fica a cerca de 100 Km da costa, entre os municípios baianos de Belmonte, Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro.
A expedição percorreu cerca de mil quilômetros ao longo de 16 dias navegando sobre as águas do Royal Charlotte, entre o fim de abril e o início de maio. Participaram ao todo 12 pesquisadores, de seis instituições de pesquisa, sendo cinco deles da USP. Foi a segunda expedição científica ao Royal Charlotte organizada pelo Projeto Coral Vivo, após um cruzeiro preliminar realizado em julho de 2020, no início da pandemia de Covid-19.
Além de fazer imagens, os pesquisadores aproveitaram para coletar amostras da geologia e da biodiversidade do banco, que foram trazidas de volta ao continente para serem analisadas mais detalhadamente em laboratório.
De fato, o roteiro da expedição foi em grande parte orientado pelos relatos de pescadores da região, que sabem por experiência onde há mais peixes e lagostas para se pegar debaixo d’água.
A expectativa, a partir de agora, é que o conhecimento científico gerado pelas pesquisas possa subsidiar a proposição de medidas de conservação específicas para o Banco Royal Charlotte, capazes de assegurar tanto a proteção dos ecossistemas marinhos ali presentes quanto a sustentabilidade das atividades pesqueiras na região.
O Projeto Coral Vivo é patrocinado pela Petrobras. Também participaram da expedição pesquisadores das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio Grande do Norte (UFRN), Rio Grande (FURG) e Sul da Bahia (UFSB), além do próprio Coral Vivo.
Texto: Herton Escobar – Jornal USP
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