Compra de cilindro de mergulho usado – Um negócio arriscado

Com certa frequência vemos cilindro de mergulho usado em sites de comércio eletrônico e grupos da internet.

Mas é seguro comprar um cilindro desses ?

Como tudo na vida, todo tipo de equipamento de mergulho usado precisa de uma avaliação, afinal de contas, é a sua vida que está em jogo, e antes de adquirir um equipamento desses, o interessado precisa estar seguro que o produto encontra-se em bom estado e que não oferece riscos.

 

Aspectos importantes antes da compra

Antes de comprar um cilindro usado, o interessado precisa estar atento às condições reais do equipamento e, um dos aspectos mais importantes é o teste hidrostático, pois ele é uma das garantias de que o cilindro está apto a receber e armazenar gás sob pressão.

Normalmente os cilindros possuem uma marcação na parte superior informando o mês e o ano do último teste hidrostático realizado, então a primeira coisa a ser feita, é verificar se o último teste encontra-se dentro do prazo.

No caso dos cilindros de alumínio, o teste hidrostático precisa ser realizado a cada 5 anos, e no caso dos cilindros de aço cromo molibdênio, o prazo pode variar entre 3 e 5 anos, conforme a especificação do fabricante do cilindro. No Brasil, a maioria das empresas responsáveis pelos testes hidrostáticos assumiram o prazo de 5 anos para todos os cilindros de aço.

Além da marcação de data do teste hidrostático, é preciso verificar onde foi realizado esse teste e se a empresa responsável possui competência para tal. Normalmente junto a data, há uma marcação com um logo da empresa que realizou o teste, mas infelizmente já vimos algumas empresas marcando cilindros de mergulho sem possuir estrutura e competência para a realização desse tipo de teste. Como são poucas as empresas no Brasil que realizam esse trabalho, não é difícil realizar essa confirmação.

Sempre que um teste hidrostático é realizado, é emitido um laudo informando os resultados do teste, sendo fundamental receber esse laudo que comprova que o cilindro encontra-se em ordem ou não, para a utilização.

Além do teste hidrostático com laudo, é essencial realizar a inspeção visual do cilindro. Essa inspeção deve ser realizada por um profissional habilitado para verificar se o cilindro possui algum tipo de trinca ou rachadura, além da corrosão nas paredes internas do equipamento.

Alguns profissionais no Brasil possuem o Visual Edge, que é um equipamentos especialmente desenvolvido para esse tipo de análise e que auxilia na inspeção visual para ajudar na detecção de possíveis problemas mais complicados de serem observados a olho nu.

Alguns profissionais chegam a dizer que a inspeção visual feita por um profissional gabaritado é mais importante que o teste hidrostático por ser um “teste” não destrutivo como o teste hidrostático, pois a inspeção permite uma detecção melhor sobre a real condição do cilindro, daí a importância do selo confirmando a realização dessa inspeção.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Cilindro contaminado internamente

Um aspecto importante na inspeção visual interna é a verificação quanto à possibilidade de contaminação interna.

Infelizmente alguns empresários não realizam a manutenção em seus compressores de forma profissional, e não são raros os casos de cilindros contaminados com elementos químicos ,como resíduos de óleo do compressor, colocando a vida do mergulhador sob risco.

 

Cilindros perigosos descontinuados por falha de segurança

Eventualmente surgem cilindros de mergulho condenados pela indústria do mergulho, como é o caso dos cilindros Luxfer com a liga 6351-T6 produzidos até o ano de 1989.

Apesar de não haver uma proibição direta quanto ao uso deles, todos os cilindros fabricados até 1989 desta liga precisam passar por uma requalificação, que é um procedimento feito por empresas com certificação do DOT.

Em tese, não temos no Brasil uma empresa certificada e credenciada pelo DOT atualmente, e diante de tantos requerimentos, a maioria das operadoras (ou talvez todas) preferem não recarregar os cilindros fabricados com esta liga por causa dos acidentes ocorridos em todo o mundo pela desinformação dos usuários.

 

Conclusão

Muitas vezes a aquisição de um equipamento de mergulho usado pode ser tentador, mas é preciso estar atento aos aspectos importantes e que podem deixar o mergulho mais seguro.

Se você pretende comprar um cilindro de mergulho usado, não deixe de verificar todos os aspectos citados acima, e havendo dúvidas, procure um centro de mergulho bem conhecido para obter mais informações.

É melhor prevenir e não passar riscos desnecessários.

Colaboração: Miguel Lopes

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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