Conhece a origem do rosto da boneca de RCP ? Certeza que não…

Ninguém sabe qual era o nome dela. Não sabemos sua idade ou formação, como sua vida a trouxe para Paris e a deixou afogada no rio Sena, mas quando seu corpo sem vida foi retirado daquelas águas turvas no final do século 19, a garota conhecida para sempre como “L’Inconnue de la Seine” (a mulher desconhecida do Sena) começou uma nova história surpreendente na morte.

Este estranho segundo capítulo, um pós-escrito surreal que ninguém poderia ter previsto, no final das contas ajudou a salvar milhões de vidas, mesmo depois que a sua própria foi encurtada tão tragicamente.

 

História

A história exata do que aconteceu com L’Inconnue antes e depois de seu afogamento fatídico é um assunto muito discutido, envolvido em uma lenda parisiense desgastada e fantasiosa. Mas o que se segue é a versão mais contada que teve origem em 1880.

L’Inconnue tinha por volta dos 16 anos de idade quando morreu. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu, mas sabe-se que não havia marcas no corpo e muitos concluíram que ela tirou a própria vida.

Após sua remoção do rio Sena, foi transportada para o necrotério de Paris e colocada em exibição pública ao lado dos corpos de outros mortos desconhecidos para fins de identificação. Esse desfile horrível de cadáveres sem nome era uma diversão popular naquela época.

Apesar da multidão, ninguém reconheceu L’Inconnue, ou pelo menos, ninguém se apresentou. Embora ela possa nunca ter sido identificada pela multidão que assistiu seu cadáver, isso não quer dizer que ela passou despercebida.

Mesmo na morte, sua aparência serena chamou a atenção, e um atendente do necrotério teria ficado tão fascinado por ela, que mandou fazer um molde de gesso no rosto da menina já falecida. Em pouco tempo, a máscara hipnotizante da menina falecida e desconhecida, tornou-se um ícone cultural cobiçado, segundo o filósofo e autor Albert Camus como a “Mona Lisa afogada”

Com o tempo, o meio sorriso congelado de L’Inconnue pousou em consoles de lareira e pendurou em salas de estar por todo o continente. Ela foi posicionada em oficinas de artistas e vista como uma modelo muda e imóvel. Mas não foram apenas os desenhistas e pintores que foram cativados. Poetas e romancistas também ficaram extasiados.

Em algum momento, L’Inconnue se tornou uma espécie de meme mórbido para escritores do início do século 20, que inventaram inúmeras histórias dramáticas.

Meio século depois que essa explosão de fama e fascinação foi acesa, L’Inconnue se transformou em outra coisa novamente, com a ajuda de um homem que nasceu décadas depois de sua morte.

 

 

Foto dá época e o rosto em gesso

 

Um incidente transformado em salvação

Seu nome era Asmund Laerdal, e ele era um fabricante de brinquedos da Noruega. Sua empresa começou no início dos anos 1940 imprimindo livros e calendários infantis antes de passar para pequenos brinquedos feitos de madeira. Após a guerra, a Laerdal começou a fazer experiências com um novo tipo de material que acabara de entrar em produção em massa: o plástico.

Usando essa substância macia e maleável, ele fabricou um de seus brinquedos mais famosos: a boneca “Anne”, que na Noruega do pós-guerra, foi aclamada “brinquedo do ano com olhos adormecidos e cabelo natural”. Ela poderia estar dormindo, mas Anne não era L’Inconnue. Pelo menos ainda não.

Um dia, o filho de dois anos de Laerdal, Tore, quase se afogou, mas foi salto por seu pai que conseguiu tirar o menino da água e forçando a água para fora de suas vias respiratórias. Naquele instante Laerdal sentiu na pele o que era passar por aquilo, até que coincidentemente um grupo de anestesiologistas abordou Laerdal dizendo que precisavam de uma boneca para demonstrar uma técnica de ressuscitação recém-desenvolvida. O procedimento conhecido atualmente como Reanimação Cardiopulmonar (RCP), e como ele estava trabalhando com plástico, talvez pudesse fabricar a boneca para isso.

Com esses pesquisadores, incluindo o médico austríaco Peter Safar, que ajudou a criar o método de RCP, Laerdal embarcou em um projeto que fez história: fazer um manequim em tamanho natural para que as pessoas pudessem usar e praticar as técnicas de salvamento. Para um fabricante de brinquedos habituado a fabricar miniaturas de carros e bonecas, foi um desafio fabricar um manequim realista e funcional. Um que pudesse demonstrar com segurança as complexidades físicas da ressuscitação cardiopulmonar.

Durante a fabricação, Laerdal se lembrou de um meio sorriso estranho e enigmático… a máscara serena que ele via pendurada na parede da casa de seus sogros, que obviamente era L’Inconnue. Ele manteve o nome de sua boneca Anne, mas deu ao novo manequim L’Inconnue o rosto, junto com um corpo de grandes dimensões adultas – incluindo um peito dobrável para praticar compressões e lábios abertos para simular a reanimação boca a boca.

Ele acreditou que era importante que o manequim fosse uma mulher, pois acreditava que os homens na década de 1960 relutariam em praticar RCP nos lábios de um boneco. O manequim acabou recebendo o nome de Resusci Anne ou Rescue Anne / CPR Annie na América).

Desde que se tornou disponível na década de 1960, Resusci Anne não foi o único manequim de RCP no mercado, mas ela é considerada o primeiro e mais bem-sucedido “simulador de paciente” de todos os tempos, e por ser a responsável por ajudar centenas de milhões de pessoas a aprender o básico de RCP.

Esse número incrível acumulado ao longo de quase 60 anos de vida dando boca a boca, é o motivo pelo qual Resusci Anne é frequentemente considerada como o rosto mais beijado de todos na história e estima-se que mais dois milhões de vidas foram salvas por RCP.

Ironicamente, a maioria desses resgates foram o resultado final de pessoas se ajoelhando e ficando cara a cara com a réplica de uma garota desconhecida que morreu em Paris.

Colaboração: André Abras

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