Conversor de CCR Backmount em Sidemount

Foto: André Domingues

Sei que muitos leitores podem não estar familiarizados com as terminologias empregadas no mergulho técnico e, menos ainda, no que diz respeito aos rebreathers, portanto segue adiante algumas definições para a melhor compreensão do texto.

CCR é uma sigla de origem inglesa que significa Closed Circuit Rebreather que é simplesmente o sinônimo de Rebreather. Backmount (BM) é uma configuração de mergulho na qual o aparelho de respiração está preso às costas do mergulhador. Sidemount (SM) é a configuração na qual os aparelhos estão presos ao lado do mergulhador.

Quando se usa apenas um cilindro ao lado, uma versão recreativa do sidemount costuma ser chamado de monkey dive, e existe ainda o no-mount, que é uma técnica especializada na qual o mergulhador retira o cilindro, coloca a sua frente para poder passar por restrições.

O mergulho técnico de sidemount, pelas vantagens que proporciona, vem apresentando uma crescente demanda na atualidade. Os pesados cilindros duplos nas costas vem aos poucos sendo substituídos por esta configuração que parece nova, mas que vem sendo usado há quase 70 anos.

Os primeiros relatos são dos anos 1960 no Reino Unido com os exploradores de samps (sistemas com áreas secas e submersas) usavam cilindros soltos (circuito aberto – OC open circuit) entre as pernas para a penetração em locais com restrições. Na época esta configuração era conhecida como “sistema inglês”.

Na década de 1970 o sistema inglês foi adotado e aperfeiçoado pelos mergulhadores de caverna da Flórida, que confeccionavam seus próprios rigs, mudando a posição dos cilindros para a lateral e abaixo dos braços, acrescentado dispositivo de flutuabilidade, etc. Em meados dos anos 1990 foi lançado comercialmente o primeiro dispositivo de sidemount pela Dive Rite. Desde então, devido às vantagens de maior flexibilidade, melhor acessibilidade à torneira e regulador, perfil baixo, segurança, conforto e redundância de gases, entre outros, o sidemount vem atingindo uma trajetória crescente, sendo o sistema mais usado pelos mergulhadores da Flórida na atualidade.

Os rebreathers obtiveram popularidade a partir dos anos 2000, da mesma forma que os sistemas autônomos de circuito aberto, foram originalmente lançados na versão BM. A partir da década de 2010, houve a criação das primeiras unidades SM.

Sei da existência dos CCRs desde os dez anos de idade, quando assistia aos episódios de Aventuras Submarinas (Sea Hunt). Lembro-me, como se fosse hoje, de Mike Nelson, interpretado por Lloyd Bridges, usando o que o dublador chamava de “oxigenador” – um rebreather de oxigênio – e durante o episódio, ele fazia uma pequena descrição do equipamento.

László no Cabo Artemidi em 1984 a 12 m com O2 com CCRO2 ARO 57 da Cressi.

Nos primórdios dos anos 1980, meu tutor no mergulho, Luiz Fausto – um aficionado pelo mergulho, como eu, talvez até mais – me deu um ARO 57. Um amigo trouxera para ele, da Itália, no início dos anos 1960, o exemplar fabricado pela Cressi.

Vinte anos depois, ele me presenteou com o equipamento. O aparelho estava relativamente bem conservado, uma boa limpeza e alguns remendos o deixaram pronto para uso.

Acompanhando este CCR veio um manual de bolso com não mais que 15 páginas, escritas em italiano. Decifra-lo na época foi uma odisseia, mas nada iria me impedir de mergulhar com o meu mais novo brinquedo.

Profundímetro da SOS marcando o limite máximo para uso de oxigênio na década de 80.

Obter cal sodada foi um pouco difícil, mas consegui uma lata da original SodaSorb Wilson em uma loja de artigos médicos. Não lembro se paguei caro ou se, pelo fato de ser estudante, nada era barato.

Fiz vários mergulhos, cheguei a descer 12m com O2 puro e, em um dos mergulhos, a cal molhou e eu me intoxiquei com CO2.

Tive uma dor de cabeça que durou dois dias. Naquela época, o limite máximo para o uso de O2 puro era de 17.5m e, para indicar isso, muitos profundímetros, sobretudo, os italianos, marcavam em vermelho esse limite.

Por que fazer um CCR sidemount ?

Vendo o meu ARO 57, que já era bem velhinho se acabar e o infindável desejo de continuar mergulhando com este fascinante aparelho, certamente foi a semente inicial que germinou em minha mente despertando o desejo de querer construir e desenvolver CCRs. Pelo visto este desejo não é recente, vem amadurecendo ao longo destes quase 30 anos nos quais idealizei alguns projetos, construí e testei protótipos, mas nunca havia chegado as vias de fato de construir uma unidade que realmente pudesse usar e confiar.

Outro motivo que me levou a este projeto foi o elevado peso das unidades no mercado. Diferente do mergulho de OC no qual o mergulhador quando viaja não necessita levar os cilindros, com os CCRs os mergulhadores não apenas precisam levar o aparelho como também, peças de reposição, pois a maioria dos locais não dispõe de CCRs para alugar e muito menos, peças e ferramentas para fazer reparos de última hora. Muitos dos CCRs da atualidade são relativamente pesados para viajar, ainda mais hoje em dia com as companhias aéreas reduzindo as cotas de bagagem.

CCR SM com canister flexível e cabeça do Megalodon. Teste no mar a 32m – Foto : Bruno Fagundes

Outro motivador foi observar o meu amigo Carlos Janovitch usar sidemounts relativamente pequenos e simples, conseguindo fazer mergulhos em cavernas com muito mais fluidez e agilidade do que eu usando um complexo BM. Finalmente, apesar de ver no mercado, CCRs SM simples, relativamente leves, com preços convidativos, mas que tinham elevado WOB (Work of Breath – trabalho respiratório), precária armadilha de água, entre outros problemas, foi que motivou a projetar um modelo de SM que incorporasse melhorias que suprisse estas deficiências do mercado.

Obstinado pela questão desenvolvi três versões de SM. O primeiro deles foi em 2013, fiz canister flexível de vinil e adaptei a cabeça de um Megalodon. A configuração não ficou muito boa, pois o WOB ficou muito elevado oferecendo desconforto respiratório considerável.

Em 2015, fiz uma adaptação para usar o Megalodon como um todo de SM que acabou não ficando muito boa, pois era muito complexa, havia muitos fios e mangueiras. Acabei desistindo.

mCCR SM à semelhança do Sidekick – Foto: Marcelo Rosário.

Vendo novamente meu professor de caverna Carlos Janovitch usando um Kiss Sidekick com muita facilidade, resolvi em 2017 fazer uma versão modificada do Sidekick. Ficou bem legal e seguro, fiz alguns mergulhos com a unidade apesar das peças ainda não terem o acabamento que merecesse.

Estudando muitos CCRs SM e conversando com usuários, percebi que a maioria deles havia um WOB elevado. Fiz uma temporada de mergulhos em cavernas na Flórida com um tipo de SM comercializado que não foi muito confortável. A maioria dos SM proporciona conforto respiratório apenas se o mergulhador estiver no trim, caso contrario é muito desconfortável. Como são muitas as situações, durante o mergulho, que o mergulhador não pode ficar no trim, percebi que este desenho de rebreather necessitava de melhorias.

Para poder reduzir o WOB, os contra pulmões devem estar próximo do centroide que é o ponto médio da caixa torácica. Os tipos de contra pulmões que proporcionam melhor performance são os OTS (over the shoulders – sobre os ombros) e os TOS (top of the shoulders – topo dos ombros). Portanto foram estes que eu escolhi para usar no meu novo projeto.

Outro atributo que escolhi para este meu CCR é fosse bem simples, ou melhor, que não tivesse controlador primário, nem secundário, nem solenoide, apenas um computador confiável que entre outras funções que lesse os sensores. Diferente da maioria dos CCR que tem dois ou três computadores que medem a PO2 do circuito, controlador de backup que assume caso o principal falhar.

Com tamanha simplicidade devo assumir, que se houver algum problema na eletrônica, vou para o(s) cilindro(s) de resgate (bailout) exceto se a profundidade me permitir fazer um voo cego dentro do circuito com segurança. Isto não quer dizer que sou contra CCRs complexos e com redundâncias de eletrônica, acho apenas eles são mais úteis nos mergulhos profundos e extremos.

Portanto, este meu projeto contempla uma versão manual com apenas um computador. O controlador é o cérebro do próprio mergulhador e a alimentação de oxigênio do circuito se faz por meio de uma válvula orificial de fluxo de massa constante (CMF – Constant Mass Flow) e pela adição manual. Falando assim parece difícil mergulhar com um CCR manual (mCCR), mas não, é bem simples quase tanto quanto com um eletrônico (eCCR). Na realidade sou adepto do minimalismo e da filosofia KISS (Keep It Simple, Stupid – Mantenha isto simples, estúpido) que foi adotada pelo Gordon Smith, fundador da Jetsam Technologies fabricantes dos rebreathers KISS.

Fiz um protótipo de tubo de PVC e Durepóxi para ver se o desenho era funcional. Fiz testes de piscina e no mar com sucesso. No mar fiz um mergulho de 3 horas. Postei um vídeo deste mergulho e o Clécio Mayrink, editor do Brasil Mergulho, me mandou uma mensagem perguntando se realmente estava mergulhando com um rebreather feito de tubos Tigre. Eu disse que sim e que era feito inclusive de tubos de esgoto. Ele deve ter ficado de cabelos em pé !

mCCR SM – Protótipo feito de tubos de PVC. Teste de mar a 12 m e 3 horas de duração – Foto: Peter Tofte

Levei este projeto para o engenheiro Sandoval Gama que é um perfeccionista, conhecido no meio industrial por resolver qualquer problema. A reação inicial dele foi de espanto. Construir um aparelho de respiração subaquática é algo inusitado, mas como ele é movido por desafios topou a empreitada. Fizemos um protótipo que ficou muito bem acabado. Testei na piscina como de praxe e depois no mar.

No dia do teste de mar convidei o Sandoval para vir comigo. A reação dele novamente foi de espanto. Momentos antes de eu cair na água ele me perguntou: “o senhor vai mesmo mergulhar com este aparelho ?”  Eu disse – Claro que sim, pois você não confia no aparelho que fez ?  Ele disse: confio !

Imediatamente antes de cair na água eu disse: minha mulher tem o seu telefone para o caso de eu não voltar… dei uma risadinha e caí na água.  Acredito ter sido uma hora de aflição para o meu amigo Sandoval. Quando cheguei à superfície concluí que havíamos chegado ao estado da arte com este novo CCR.

Após isto fiz vários mergulhos para aperfeiçoar a configuração e testar o desempenho. Fiz teste a 50m durante 3 horas intercalados por períodos de natação intensa para ver como se comportava sob estas condições e o resultado foi bom. Foi um mergulho bem confortável.

Recentemente fiz uma série de sete mergulhos em cavernas em Ginnie Springs, na Flórida totalizando aproximadamente 24h, sob natação intensa e em profundidades que alcançavam os 30m, e se comportou bem. Um dos mergulhos foi de 4:30h e ainda havia cal sobrando para pelo menos mais 1h de mergulho.

Kit do MOCSARI CCR Sidemount Conversor

O que é o Kit do MOCSARI CCR Sidemount Conversor?

Como o nome diz é um kit de permite converter muitos CCRs BM em uma versão simples e leve de SM, e que permite ao mergulhador passar com facilidade em locais com restrições, sendo ao mesmo tempo leve adequado para a maioria das viagens de mergulho, sem perder a longa autonomia que é própria e inerente aos CCRs.

Vantagens do MOCSARI CCR Sidemount Conversor

  • Redução de custos. O mergulhador que já possui um CCR BM não necessitaria comprar outro rebreather, apenas este acessório.
  • Facilidade no aprendizado e uso. Devido ao fato de aproveitar o circuito do CCR BM, que o mergulhador já possui, não será necessário reaprender a manusear a máquina. Seria algo mais fácil que voar manualmente, pois os períodos de injeção manual são atenuados pelo fluxo de massa constante de O2. Apenas ajustes no rig, asa e na configuração são requeridos.
  • Baixo WOB. A grande maioria dos CCRs SM tem os contra pulmões agregado ao canister, isto obriga o mergulhador a ficar no trim o tempo todo, para que possa ter conforto respiratório. Sabemos que há muitas situações na qual o mergulhador não pode ou não consegue ficar no trim, aumentando excessivamente o WOB e tornando a respiração desconfortável e até perigosa. Este acessório permite usar contra pulmões OTS, TOS ou BM, proporcionando um WOB bem menor.
  • Leveza. O canister com a cabeça (sem cal sodada) pesa 3 kg (6,6 lbs).
  • Resistência a impacto e abrasão. A cabeça e a base são peças únicas feitas em poliacetal preto. O canister é feito de PVC.
  • Tem a capacidade para 2,25 kg (5,0 lbs) de cal sodada, semelhante à maioria dos rebreathers.
Unidade completa
  • O MOCSÁRI CCR se acopla a várias marcas de rebreathers. Inspiration / Evolution, O2ptima, Magalodon, XCCR, Liberty, Prism 2, Hammerhead, etc.
  • Poucas peças. É composto de apenas 12 peças que proporciona simplicidade. Algumas peças são fixas umas as outras com o intuito de dificultar as perdas de peças.
  • Rapidez na montagem e desmontagem. Devido ao fato de ter poucas peças é relativamente fácil e rápido tanto para montar quanto para se desmontar e lavar.
  • Canister transparente. Há uma versão cujo canister é de PVC transparente, que possibilita a visualização da mudança de cor da cal sodada durante o mergulho pelo dupla, assim como perceber a presença de água no interior do canister e até mesmo ver a cal sodada molhada.
  • Monitoramento intuitivo da cal sodada. Devido ao contato direto da cal sodada com a parede do canister é possível palpar a zona de aquecimento e se ter uma noção de quanto ainda resta, sem, contudo ter a necessidade de sistemas complexos de temperatura.
  • Facilidade em remover a água. A água acumulada pela condensação ou na entrada inadvertida poderá ser removida virando o Mocsári CCR de cabeça para baixo. Esta manobra direciona a água para o contra pulmão expiratório que por sua vez pode ser eliminada pela OPV.
  • Excelente aquacidade. Proporciona um excelente trim, liberdade de movimentos, baixo arrasto hidrodinâmico melhorando o desempenho do nado do mergulhador. Devido ao pequeno volume e ergonomia ele se assemelha ao mergulho de sidemount com circuito aberto.
  • Excelente para viajar. Devido à leveza e ao seu tamanho reduzido ele cabe em uma mala de mão padrão. Por sua robustez pode ser despachado na bagagem de porão sem a necessidade de cuidados especiais.
  • Permite a instalação do computador da sua preferencia. Poderá vir com cabo com conexão Fisher fêmea que acopla aos computadores da Shearwater (Petrel 2 e NERD 1 e 2), com cabo para o Divesoft ou AV1.

Desvantagens

  • Limite máximo de profundidade 80 metros Apesar de ter dito, linhas acima que havia atingido o “estado da arte” na realidade vem passando por evolução constantemente. Esta versão de mCCR tem a limitação de profundidade de 80 metros, mas no momento estou trabalhando em outra versão que poderá ir mais fundo seja pela colocação de uma válvula de agulha proporcionando um fluxo de massa variável ou pela inserção de um controlador e uma solenoide transformando-o em um eCCR.
  • Usa apenas um computador que analisa os sensores. Sob encomenda poderá vir com um cabo adicional para a instalação de outro computador ou HUD (head up display).
  • Não dispõe de HUD. Apesar da versão padrão não vir com saída para HUD poderá ser instalado um NERD, que engloba de maneira muito simples o computador e o HUD em um monitor apenas que fica ao nível dos olhos do mergulhador, o que torna o mergulho muito confortável.

O sidemount na atualidade é uma tendência do mercado, muitos adeptos tem migrado para esta configuração de mergulho, apesar do backmount seja ele no circuito aberto ou fechado ainda ter uma presença muito marcante na atualidade.

A verdade é que não há uma configuração ideal, cada tipo de mergulho pede uma configuração diferente e cada mergulhador tem a sua personalizada que está em constante evolução. O mergulhador consciente é aquele que acaba o mergulho pensando nas modificações, melhorias, ajustes ou consertos que fará no seu equipamento para o próximo mergulho.

Mergulhe com segurança !

Galeria de Imagens – Clique na imagem abaixo:

Conversor de CCR Backmount em Sidemount / Google Photos

Por:

László Mocsári

Médico Anestesiologista e Intensivista, com formação em Medicina Hiperbárica, autor dos livros Rebreather Simplificando a técnica e Rebreather Mergulhando Fundo na Técnica.