Se você tem o sonho de ir para Bonaire, divertir-se e mergulhar, talvez seja a hora de parar e repensar suas prioridades em Bonaire para, somente mergulhar.
Visitante regular da ilha desde 2005 e conduzindo grupos há no mínimo 10 anos, acabei de voltar de Bonaire com uma sacola de decepções. Aparentemente a pandemia causou mais estragos do que deveria.
Os mergulhos continuam bons, a sistemática da ilha continua interessante, o Nitrox Free e os mergulhos ilimitados (só que não mais, a rotina de sair com somente dois cilindros prejudica muito alguns planejamentos) ainda fazem sucesso, mas o conjunto da obra mudou muito, infelizmente.
Bonaire hoje vive uma expansão turística sem precedentes. Nos últimos dois anos, período pandemia, o ritmo das construções e a valorização imobiliária da ilha foi assustadora. Hoje temos uma invasão de holandeses que parecem ter “descoberto” a ilha como destino de turismo com muitos navios de cruzeiro aportando e despejando milhares de pessoas por dia. Uma invasão de “Villas” (condomínios), uma especulação imobiliária sem igual, além do aumento da quantidade de pessoas fora do circuito “mergulhistico” detonando a ideia de um paraíso para mergulhadores, começa a mostrar seus resultados, infelizmente danosos para nós mergulhadores que tinham na ilha um reduto especial.
A mão de obra para atender esse povo todo não evoluiu na mesma velocidade. Dive Centers com “vovozinhas” holandesas que exigem (grosseiramente) que os mergulhadores façam o trabalho de Dive Masters, tal como tirar lastros do cinto (um pequeno exemplo) para devolver no Dive Shop, chegam a beira do absurdo invertendo a prioridade da cadeia de serviços do mergulho.
Qual é o problema em um atendente de Dive Shop tirar o lastro ara um cliente ? Ou mesmo se essa for a regra, porque não falar gentilmente ?
Esse é um exemplo dentre vários onde a baixa qualidade do serviço inverte a lógica de deixar o cliente satisfeito.
Enquanto a cadeia de serviços atualmente se esforça em deixar o mergulhador satisfeito, implementando serviços e comodidades, Bonaire segue na contra mão, este é um dentre outros absurdos verificados em nossa última viagem por lá. Até para lavar a roupa no fim dos mergulhos tivemos stress, com direito a bronca e tudo… absurdos e excessos.
Seguindo uma linha já conhecida por nós aqui no Brasil onde nosso governo tenta arrecadar dinheiro de todas as formas, Bonaire agora possui mais uma taxa… Taxa de entrada / turismo de US$ 75 mais a taxa do parque de US$ 45, essa sim justificável.
Com o aumento de turistas, notei uma falta de preparo na receptividade, algo que remete a má vontade em receber turistas pelos locais. A impressão que ficou é que estamos fazendo um favor em estar lá e que temos que nos adaptar ao mau humor nítido nos serviços e atendimento em todos os locais.
Postos de gasolina, lojas em geral e lojas de mergulho realmente não se adequaram a nova demanda e estão atendendo mal o turista, de forma grosseira, cheios de regras estúpidas e que beiram a total falta de educação para com quem quer que seja. Aparentemente o projeto inicial de um paraíso de mergulho foi substituído pelo turismo de baixo ticket de forma geral, tal como San Andrés, outra perda clara para o mundo do mergulho.

Um exemplo claro é a falência moral total de um dos redutos mais conhecidos dos brasileiros na ilha, o restaurante Patagônia, uma casa de carnes de qualidade e que reunia pelo menos uma vez por nas viagens, grupos que iam até o local para um jantar…desta vez fomos obrigados a fazer o pedido assim que sentamos, e se não quiséssemos dessa forma, tínhamos que ir embora… ahhh… e se você estiver querendo pagar a conta de uma mesa com 4 pessoas uma parte em dinheiro e uma parte em cartão de crédito, cuidado, vai escutar muitos desaforos.
Uma pena que até este nosso “reduto” tenha sido contaminado pela mudança de atitude dos locais… ahhhh…. meu Bife de Chorizo veio frio… talvez por ter tentado explicar para a gerente que o cliente é a pessoa mais importante em um restaurante, mas ela foi bem educacional ao me convencer que a pessoa mais importante do restaurante era ela, a dona.
Em minha carreira tive o privilegio de conhecer o mundo todo mergulhando, os 5 continentes, e nunca vi algo assim acontecendo em tão pequeno espaço de tempo. Bonaire agora é turismo e veraneio, o mergulho como indústria deixou de ser o foco, uma pena porque o ticket do mergulho é ecologicamente correto e de valor agregado bem mais alto que o turista de cruzeiro de “Island Day” que aluga um carrinho de golfe, compra uma camiseta só e no máximo, consome uma pizza no almoço.
Enfim, vou voltar a Bonaire sim, mas somente pelo mar, pelos mergulhos, e volto com meu time de mergulho focado apenas e tão somente no que acontece embaixo d’água, porque o que vemos na superfície dá realmente pena, um desperdício jogar um projeto com anos de sucesso de alguns visionários batalhadores no lixo.
Volto sim, mas somente enquanto não encontrar uma opção melhor e deixo na lembrança o tempo em que o mergulhador era tratado com respeito e com educação por profissionais treinados e qualificados.
Torço para o que está acontecendo na ilha seja somente um período de transição e adaptação pós-pandemia, porque se a situação não for tratada com a devida atenção, o mapa do mergulho no Caribe vai mudar rapidamente. Bonaire era um paraíso do mergulho, mas agora virou um desafio aguentar tantos problemas e a falta de educação só para mergulhar.
Ainda vale a pena ir para Bonaire ?

Michel Med
Mergulhador e instrutor recreacional, Tech, Trimix e Full Cave.
Possui mais de 20 anos de mergulho com mergulhos nos 5 continentes.
Proprietário da Dive Water Centro de Mergulho em Brasilia.



