Em exposição e livro, Candisani conta a história das mergulhadoras da Ilha de Jeju – senhoras de 65 a 92 anos de idade que buscam alimentos no fundo do mar, mantendo uma tradição de quatro séculos. Bate-papo e lançamento estão na programação do FOTOMIS

O fotógrafo brasileiro Luciano Candisani já percorreu todos os oceanos para documentar as populações tradicionais ligadas ao mar e acaba de concluir seu maior projeto no tema. Ele passou 35 dias imerso na secular cultura das haenyeo, as mulheres do mar da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul. São senhoras, de 65 a 92 anos de idade, que mergulham só com o ar dos pulmões a até 10 metros de profundidade, onde permanecem por dois minutos em busca de polvos, peixes, conchas e outros frutos do mar.

“Haenyeo é um marco na longa carreira de Luciano. Trata-se de um ensaio no qual ele conjuga a essência da fotografia documental à estética de uma fotografia artística. Tudo isso em um acervo contundente, seja em quantidade, seja em qualidade”, diz a editora Monica Schalka, da Vento Leste, responsável pela exposição e pelo livro.

Mais do que extrativistas, as haenyeo mantêm vivos costumes surgidos na Ilha de Jeju há quatro séculos, quando uma conjuntura sociopolítica provocou o êxodo dos homens e levou as mulheres a se lançarem ao fundo do mar pela sobrevivência. Elas foram em busca do sustento de suas famílias sem suspeitar que fundariam uma tradição cultural coesa, hoje incluída na lista da Unesco de patrimônios culturais intangíveis da humanidade e celebrada em todo o mundo pelos valores universais que carrega: sustentabilidade, pertencimento e força da mulher.

“Essa é uma história sobre a força peculiar das mulheres e vem carregada de lições importantes sobre temas universais como a passagem do tempo, o pertencimento e a ligação com o ambiente do qual nossa sobrevivência depende”, destaca Candisani.

O projeto

Agora o emocionante conjunto das imagens, captadas depois de duas viagens à ilha, aparecem juntas pela primeira vez em exposição e livro, ambos produzidos pela Editora Vento Leste. A primeira mostra será no MIS, instituição da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, a partir do dia 31 de agosto, dentro da programação do FOTOMIS – evento anual dedicado à fotografia. Em 2017, o trabalho do fotógrafo em Jeju foi tema do longa-metragem Haenyeo: a Força do Mar, dirigido por Lygia Barbosa (TruLab) e veiculado pelo canal National Geographic. A segunda foi em 2019, para finalizar o projeto.

As coletas acontecem durante o ano todo, inclusive no inverno, mas o recurso explorado muda a cada estação. Na viagem mais recente, em maio passado, Candisani teve a oportunidade rara de acompanhar a atividade mais difícil no calendário das haenyeo, a coleta de algas. É um período em que elas passam cinco horas na água com temperatura de 15 graus e saem do mar com seus sacos de coleta repletos com mais de 120 de Miyeok, uma alga conhecida pelas super propriedades farmacológicas e nutricionais.

“Passei incontáveis horas no mar ao lado de mergulhadoras como Song keum yeon, 75, e Kim bok sil, 89. Elas parecem frágeis demais diante da energia das ondas e da dureza das suas tarefas, mas desempenham tudo com maestria. Percebi que a força delas não está na juventude ou nos músculos, está na sabedoria”, conclui Candisani.

Exposição e livro

Com r, Mulheres do Mar Luciano Candisani surpreende pela forma como transita naturalmente entre arte e documento. A narrativa encanta tanto quanto informa e tem a rara capacidade de nos transportar para conceitos que vão muito além das cenas diante das lentes. Chegar nesse resultado envolveu enormes desafios técnicos como fotografar dentro da água fria e apenas com o ar dos pulmões. “Se usasse cilindro de mergulho, não conseguiria acompanhar de perto o movimento ágil das haenyeo no fundo do mar e nem acompanhar seu sobe e desce frequente, não conseguiria captar a emoção da história”, explica o fotógrafo. Além disso, Candisani escolheu abrir mão das cores: “Queria chegar na essência da relação das mergulhadoras com o mar, por isso decidi eliminar a distração que o belo colorido do fundo do mar pode proporcionar e optei por fazer todo o ensaio em preto e branco”, explica. O ensaio do brasileiro é uma das principais peças jamais feitas sobre essa que pode ser a última geração de mulheres do mar.

Para a produção do livro Haenyeo: Mulheres do Mar, a seleção de imagens e escolhas página a página foram feitas a muitas mãos. Heloisa Vasconcellos assina a coordenação editorial, Ciro Girard, o projeto gráfico, e Mônica Schalka, a edição final. Além de participar de todo o processo, Luciano Candisani é o autor de todos os textos que costuram a narrativa. “A ideia é trazer as personagens para o protagonismo natural do projeto. Para isso, escolhemos incluir textos que acompanham as fotografias e levam o leitor para o convívio que experimentei”, conta ele. O respeito pela tradição e a vontade de impactar ainda mais pessoas foi também o motivo para a edição trilíngue (português, inglês, coreano).

Luciano Candisani

Sobre Luciano Candisani

Destaque na fotografia contemporânea, Luciano Candisani interpreta culturas tradicionais e ecossistemas ao redor do mundo há mais de duas décadas.  Já recebeu alguns dos principais prêmios da fotografia internacional e foi por duas vezes jurado do prestigioso world press photo, na Holanda. Suas fotografias aparecem em exposições, galerias de arte e museus no Brasil e exterior. Faz parte do seleto grupo de fotógrafos da edição principal de National Geographic e de coletivos importantes como ILCP e The Photo Society.

Sua produção conta ainda com sete livros, inúmeras matérias, workshops e palestras no Brasil e exterior. Começou sua carreira em 1995, ao documentar a vida abaixo da superfície congelada do mar, na Antártida. Desde então, seus projetos já o levaram a trabalhar em todos os oceanos e continentes. Viajante incansável, passou um ano em um veleiro para completar uma de suas pautas. Mas independente das distâncias e do tempo envolvidos nos trabalhos, sempre volta para a sua casa, entre a floresta e o mar de Ilhabela, no litoral de São Paulo.

Haenyeo, Mulheres do Mar
De Luciano Candisani

Exposição e livro: Editora Vento Leste

Abertura da exposição: Dia 31 de agosto, sábado
Local: MIS – Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158 | Jd. Europa | São Paulo)

Dentro da programação do FOTOMIS:
Dia 31 de agosto
12h: abertura das exposições
13h: bate-papo com João Farkas e convidados | Auditório térreo
15h: lançamento do livro Caretas de Maragojipe, de João Farkas | Hall de entrada
15h: visita guiada na exposição Moventes, com a curadora Valquíria Prates | Foyer térreo
16h: bate-papo sobre Pierre Verger com Alex Baradel e convidados | Auditório térreo
18h: lançamento do livro Todos Iguais todos diferentes | Hall de entrada

Entrada Gratuita

Sobre a Vento Leste

Editora de Mônica Schalka, é uma casa publicadora de fotografia, poesia, literatura e arte, que nasceu em 2015 para compartilhar histórias e imagens que falem à alma; retratar vidas, revelar pessoas e lugares. Lançou no último ano MAGNA, de Cristiano Xavier, vencedor do Prêmio Fernando Pini; A Marcha do Sal, de Érico Hiller e O Livro dos Monólogos – Recuperação para Ouvir Objetos, de Diógenes Moura.

Informações para a Imprensa

Juliana Gola | 11 9 9595-2341 | jugola@gmail.com

Por:

Redação

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