O tesouro milionário que o navio San José carregava quando naufragou, há mais de 300 anos, poderá retornar para a superfície muito em breve.
Esta semana, o governo da Colômbia anunciou que vai realizar em breve, uma operação de alto nível e com tecnologia inovadora em águas profundas do mar do Caribe. O objetivo é pesquisar e resgatar partes do galeão perdido e sendo um dos mais procurados do mundo.
O galeão San José era um navio espanhol de 40 metros de comprimento que naufragou na Batalha de Barú, em 1708, nas proximidades das Ilhas Rosário, um arquipélago próximo à cidade de Cartagena, na Colômbia. Estima-se que 600 pessoas morreram no naufrágio.
Com base em documentos históricos, presume-se que o galeão transportava toneladas de mercadorias, ouro, prata e pedras preciosas.
O galeão havia passado pelo porto de Portobelo, no Panamá, onde ocorriam as trocas de mercadorias vindas do Vice-Reino do Peru e do Caribe.
“Sabemos que parte do tesouro tinha sido arrecadado nos vice-reinados. Outras linhas de pesquisa apontam que o comércio ilegal também participava deste carregamento, com contrabando e outras coisas”, explica Alhena Caicedo, diretora do Instituto Colombiano de Antropologia e História (ICANH).
O galeão foi declarado em 2020 como um bem de interesse cultural da Colômbia, razão pela qual o governo defende que o seu valor não deve e não pode ser contabilizado em termos monetários.
“Entendo que para boa parte das sociedades ocidentais o valor foi equiparado ao preço. Mas há questões, como a que hoje nos une (o galeão), a meu ver, têm um valor imenso que não tem preço”, disse o ministro da Cultura, Juan David Correa, na última sexta-feira, em Cartagena.
Em todo caso, uma empresa americana que realiza pesquisas e buscas a tesouros perdidos no mar, afirma possuir parte do galeão. A companhia afirma que o espólio do navio poderia ser avaliado em cerca de US$ 20 milhões.
Em 2022, a Marinha Nacional e a Direção Marítima Nacional da Colômbia realizaram a primeira exploração não intrusiva do galeão. As imagens da expedição mostram vários canhões, algumas moedas e talheres chineses.
“O que conseguimos identificar são potes, vasilhas, seringas, copos, porcelanas, algumas moedas, esses tipos de materiais que falam de como era vida a bordo”, explica Caicedo.
Um dos objetivos do novo projeto de pesquisa é ter mais certeza e detalhes sobre o que existe no galeão a 600 metros de profundidade.
Tecnologia
Segundo o ministro da Cultura, Juan David Correa, a operação vai acontecer entre os meses de abril e maio de 2024. Um ROV desenvolvido na Suécia e fabricado na Inglaterra, vai até o naufrágio para recuperar algumas peças que estão mais visíveis. O objetivo é observar como essas peças reagem ao sair da água, segundo os pesquisadores.
As peças serão estudadas em um laboratório em Cartagena e, a médio prazo, está prevista a construção de um museu. Por enquanto, as autoridades colombianas descartam a retirada de grandes quantidades de ouro e prata do galeão.
O robô submarino será operado a partir do ARC Caribe, navio que o governo comprou de um estaleiro chinês em 2017 por US$ 13 milhões.
A operação vai ser um esforço coordenado do Ministério da Cultura, do Instituto Colombiano de Antropologia e História, da Marinha Nacional (ICANH) e da Direção Marítima Nacional, todas instituições públicas. Isso representa uma mudança em relação aos planos iniciais que o Estado colombiano tinha durante o governo de Juan Manuel Santos.
Inicialmente, foi divulgado que o projeto seria uma parceria público-privada que contemplaria dividir o tesouro do galeão e pagar à empresa de exploração em espécie, ou seja, com parte do tesouro.
A primeira fase da pesquisa, que será realizada em 2024, custará ao Estado cerca de U$ 4.5 milhões.
Além de detalhar a informação sobre as peças que estão no galeão e extrair da água os primeiros objetos, a exploração procura ser um pontapé inicial para definir um plano de gestão arqueológica de longo prazo. A ideia dos pesquisadores é declarar a área como uma reserva arqueológica, e desde que os destroços foram encontrados, as coordenadas do galeão são consideradas um segredo do Estado na Colômbia.
Com base nas novas informações que se conhecem sobre o que existe no fundo do mar, “a Colômbia espera obter respostas a múltiplas questões de pesquisa científica sobre a história submersa do comércio marítimo entre a América e a Europa no início do século 18”, diz o Ministério da Cultura, em comunicado.

Disputas
Ao mesmo tempo que o governo anunciou esta ambiciosa pesquisa científica em águas profundas, o Tribunal Permanente de Arbitragem de Haia iniciou formalmente um litígio internacional entre a Colômbia e a Sea Search Armada, uma empresa norte-americana. O assunto é justamente o galeão.
A Sea Search Armada afirma ter encontrado os destroços antes da Colômbia e exige U$ 10 milhões de indenização, metade do valor estimado do tesouro do galeão.
O diretor da Agência Nacional de Defesa Legal do Estado, instituição que deve assumir a defesa da Colômbia no caso, qualificou esta afirmação de “grotesca” e “frívola” e afirmou que “as coordenadas fornecidas pelo demandante não “são as coordenadas onde está o galeão”.
As leis colombianas dizem que o navio é “inalienável, imprescritível e não pode ser apreendido”. Mas isso não evitou disputas sobre quem é o proprietário desde a sua descoberta.
Em 2015, o Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol disse que “a Espanha não desistirá do galeão porque é um navio estatal”. No entanto, ambos os governos mantiveram a intenção de alcançar uma resolução amigável e diplomática do litígio.
No dia 23 de fevereiro, o embaixador espanhol na Colômbia disse ter instruções do governo do seu país para oferecer à Colômbia “a possibilidade de trabalhar num acordo bilateral para criar um novo paradigma em termos de proteção do patrimônio submerso”.
Embora reitere que o galeão pertence à Colômbia, Alhena Caicedo, diretora do Instituto Colombiano de Antropologia e História, afirma que “o patrimônio tem outras dimensões que também devem ser consideradas, como a dimensão simbólica”.
“Reconhecemos e queremos reconhecer que partilhamos a história com muitos outros, partilhamos essa história do galeão especificamente com Espanha, com a Bolívia, com pessoas do que foi o antigo Novo Reino de Granada, com muitos atores sociais que queremos reconhecer”, explica.
A comunidade indígena boliviana Qhara Qhara também reivindica parte do galeão, alegando que o ouro e a prata transportados foram obtidos nas minas de Potosí por meio da violência e da exploração.
“Este é um patrimônio que todos temos de olhar com curiosidade. Todos estão convidados”, concluiu o ministro Juan David Correa.
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