Naufrágio Guarany

Data: 02/10/1913 às 2:30h

GPS

Localização: Sul da Ponta do Boi – Ilhabela

Profundidade (m):

Visibilidade (m):

Motivo: Choque com o vapor “Borborema”

Estado: Desmantelado

Carga

Tipo: Rebocador de alto mar

Nacionalidade: Brasil

Dimensões (m): 39 / 8 / 4.5

Deslocamento (t): 344

Armador: Marinha do Brasil

Estaleiro: Arsenal da Marinha – RJ

PropulsãoExpansão tripla com 850 HP

FabricaçãoBarrow in Furness – França – 1910

Notas: Texto abaixo retirado da Revista Marítima Brasileira, 10/1913

A obtenção do navio fez parte de um programa de reaparelhamento da Marinha, que incluiu a aquisição dos Encouraçados São Paulo e Minas Gerais, dos Cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul e de diversos navios menores, inclusive outro rebocador com as mesmas características, o Laurindo Pita, hoje navio museu, em atividade no Espaço Cultural da Marinha, Rio de Janeiro.

O navio naufragou  às 3:10h da madrugada do dia 3 de outubro de 1913, na altura da Ponta do Boi, São Sebastião, Litoral de São Paulo, após ser abalroado pelo Navio Mercante do Loyd Brasileiro Borborema.

“Conforme se sabe, devia ferir-se em águas da Ilha de São Sebastião, um combate naval simulado capitaneado …pelo Encouraçado Minas Gerais (comando do Capitão-de Mar-e-Guerra Ramos Fontes, defendendo a ilha do ataque da outra divisão capitaneada pelo Encouraçado São Paulo (comando do Contra-Almirante Altino Correa).

De madrugada o Almirante Baptista Franco, Chefe do Estado Maior  da Armada e comandante da Esquadra em evoluções, mandou participar à Divisão atacante que podia entrar em ação. O tenente Eleutério do Canto , ajudante de ordens do Chefe do Estado Maior da Armada, foi incumbido de avisar a Divisão atacante das ordens  que acabavam de ser expedidas

O Rebocador Guarani manobrava pelas proximidades dos navios da divisão de defesa, com guardas-marinha a postos ativos, à espera… O tenente Eleuterio do Canto passou-se para o Guarani e comunicou ao Tenente Falcão as ordens que recebera . Imediatamente o Guarani deixou o canal e pôs-se ao largo, ao encontro da divisão do Contra-Almirante Altino Correa.

Ao chegar  ao lado oposto do canal da Ilha de São Sebastião, a 10 milhas do farol da Ponta do Boi, o Guarani começou a espreitar,  a ver se conseguia aproximar-se da capitania da Divisão Altino. Havia cerração e o mar estava um tanto bravio. O tenente Falcão não queria prosseguir. Pelo que o seu colega Canto ponderou que as horas passavam e havia necessidade de transmitir a ordem que recebera de seu chefe.

O Guarani prosseguiu em sua rota.

Avistou dois vultos de navio, que se avistaram e que se julgam terem sido contratorpedeiros. Do Guarani falou-se aos navios, mas sem resposta. O rebocador prosseguiu. Eram mais de duas horas da madrugada. Poucos minutos depois, junto ao Guarani , aparecia terceiro vulto.

Perguntaram quem era e não obtiveram resposta. Depois de muita insistência, houve resposta de ser um navio mercante.

O Guarani parou então as máquinas, depois de desviar-se do vulto, que era o paquete  do Lloyd, o Borborema. Este segundo dizem, descreveu um semicírculo, e foi tão infeliz que se chocou violentamente com o Guarani a meia nau, e de tal maneira que ainda prendeu, por alguns segundos,o rebocador em sua proa. …Nessa ocasião, dois marinheiros  da guarnição do rebocador conseguiram passar-se para o paquete.

Fez-se pânico a bordo do rebocador.

O Tenente Aurelio Falcão, comandante da turma, embora o perigo fosse enorme, não perdeu a calma, ordenando que todos se atirassem n’ água.

O guarda-marinha Francisco Augusto Martinelli, reputado como um dos mais calmos e corajosos da turma, mantinha-se firme, contemplando aquela triste  e rápida cena. Era um excelente nadador.

O tenente Falcão, que foi o último a atirar-se n’água, ainda teve tempo de bater no ombro do guarda-marinha Martinelli e dizer-lhe: “Atira-te na água para salvar-te”. Martinelli estava com o raciocínio perturbado e a sua calma habitual havia desaparecido. Rapidamente, atirando-se n’água , deu um único mergulho sem vir a tona.

Dentro de dois minutos , tempo em que as águas tragaram o Guarani, começou a luta dos náufragos com os vagalhões do mar alto. Os pedaços de madeira que sobrenadavam agarraram-se alguns, que procuravam  auxiliar-se mutuamente cedendo a extremidade  de uma tábua, a que se agarraram os companheiros  de infortúnio. E nessa situação horrível lutaram uns 50min, quando chegaram os socorros.

O tenente Falcão conseguiu amparar dois náufragos que em seguida se agarraram a uma tábua.

Dos 49 homens que se achavam a bordo do Guarani, os navios da Esquadra puderam colher apenas 19.

O Almirante Alexandrino de Alencar, Ministro da Marinha , determinou que pela Capitania do Porto desta Capital fosse aberto inquérito para apurar o caso, e desse inquérito, procedido com todo o critério e dedicação pelo Capitão-de-Corveta  Otávio Teixeira, ajudante da Capitania do Porto do Rio de Janeiro, resultou a casualidade do fato, dada as condições em que navegavam as duas embarcações em questão, não se podendo atribuir o grande desastre à imperícia de qualquer dos comandantes dos dois navios abalroados… Foram ouvidas 25 pessoas entre as quais os comandantes do Borborema e do Guarani e os guardas-marinha sobreviventes.

Como se sabe, o Borborema navegava rumo sul e o Guarani para o norte. Este era portador de uma ordem  do Chefe do Estado-Maior da Armada ao comandante da 2ª Divisão Naval, que navegava fora do canal da Ilha de São Sebastião. Os dois navios aproximaram-se  a 10 milhas do farol da Ponta do Boi , a bombordo. O Guarani quis chegar à fala do Borborema e deste nada perceberam do que se tratava. Ambos se afastaram, em sentidos opostos, como se depreende. A guarnição do Guarani julgou tratar-se de um vaso de guerra da 2ª Divisão, e por isso foram dados repetidos apitos para que o Borborema parasse, e o rebocador fez a volta por bombordo, para dele aproximar-se. Em virtude dos repetidos apitos  do Guarani, do Borborema julgaram que estivessem pedindo socorro do mesmo rebocador, e nestas condições o seu comandante resolveu retroceder e ir ao encontro do Guarani.

O Borborema fez a curva por bombordo, isto é, no mesmo sentido que fizera o Guarani. Nessas condições as duas embarcações se chocaram, embora houvesse de parte  a parte  o máximo esforço no sentido de evitar o abalroamento, tendo sido desenvolvidas as manobras que o momento indicava…”

O Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca achava-se a bordo do transporte de guerra Carlos Gomes, em companhia do Ministro da Marinha , Almirante Alexandrino de Alencar quando teve notícia do acidente.

O navio estava fundeado no porto de São Sebastião, quando ás 10:30 horas da manhã a ele atracou um escaler do Encouraçado Minas Gerais, conduzindo o comandante do Borborema, que foi apresentado ao  Presidente da República  e ao Ministro da Marinha por ordem do Almirante Baptista Franco, que foi o primeiro a saber da ocorrência.

Ciente  do que se passara, o Ministro da Marinha , de acordo com ordens do sr. Presidente, radiografou para bordo dos Cruzadores Rio Grande do Sul e Bahia, determinando  aos respectivos comandantes, bem como aos  quatro contratorpedeiros, que fizessem  sair imediatamente aqueles navios, com destino ao local do sinistro , afim  de ver se podiam prestar algum auxílio aos náufragos , ou então recolher os corpos das vítimas .

Por sua vez, foi ordenado ao comandante do Borborema que saísse com seu vapor  para o local  do acidente, afim de auxiliar os navios da esquadra em suas pesquisas.

Nesse interim, o Presidente da República determinou igualmente que fossem trazidos  para o Carlos Gomes os náufragos que se achavam a bordo do Borborema.

Ato contínuo foi essa ordem executada, e pouco depois davam entrada no Carlos Gomes os sobreviventes. O Chefe da Nação e o ministro da Marinha receberam-nos no portaló do transporte de guerra com grande carinho e consternação.

À tarde, regressaram  a São Sebastião os dois cruzadores e os quatro contratorpedeiros , que durante algumas horas haviam percorrido o local do sinistro, ora se aproximando o mais possível  de terra, ora  se fazendo ao largo.

Todas as pesquisas resultaram infrutíferas, pois nada conseguiram ver.

A vista disso, o Sr. Presidente da República resolveu regressar na madrugada do dia seguinte a esta capital.

Antes,  porém o ex. acordou com o Ministro da Marinha que a Divisão de que é capitania o Encouraçado São Paulo, para cujo bordo passou o Almirante Alexandrino de Alencar, se conservasse no local do sinistro até o dia 7 do corrente, fazendo  o cruzeiro e efetuando desembarque nas costas da ilha em busca dos cadáveres.

Na madrugada de 8 do corrente, o São Paulo e a sua Divisão seguiram então para Santos, onde foram celebradas exéquias, desembarcando ali toda a guarnição daqueles navios para assistir a cerimonia.

Após as exéquias, o Almirante Alexandrino de Alencar recebeu, sem a menor solenidade festiva, a bandeira e a baixela destinadas ao Encouraçado São Paulo, depois do que regressou a esta capital.”

O Boletim do Almirantado do dia 11 de outubro de 1913, publicou uma relação com 31 tripulantes que vieram a falecer, e outros 20 que sobrevieram ao naufrágio.

 

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