Hiperventilação no mergulho de apneia e os riscos

Foto: Clécio Mayrink

Qual mergulhador não gostaria de permanecer mais tempo embaixo d’água usando apenas o ar nos pulmões e realizar uma longa apneia ?

Isso é possível através de um método conhecido como hiperventilação, que chega a dobrar o tempo de permanência do mergulhador no fundo, mas tal procedimento traz grandes riscos para quem utiliza essa prática, e talvez, seja a maior causa de mortes dos praticantes da caça-submarina.

Como funciona

Para realizar a hiperventilação, realizamos uma sequência rápida de inspirações e expirações, até uma loga inspiração e retenção desse ar. Com isso, ocorre uma diminuição considerável na quantidade de gás carbônico, que anda livre no plasma, enquanto o oxigênio está ligado ao glóbulo vermelho.

Este simples procedimento, permite ao mergulhador realizar uma apneia mais longa.

Curvas paralelas e os riscos

Quando um mergulhador apenas inspira o ar para os pulmões, em dado momento a quantidade de oxigênio irá diminuir e o gás carbônico irá amentar a ponto de nos informar que estamos ficando sem oxigênio. É a sensação de que estamos precisando respirar.

O problema da hiperventilação é que ela faz com que o nosso organismo faça um “alerta tardio” quanto a necessidade de respirar, e aí surge o maior risco de morte, o apagamento.

A taxa de oxigênio e de gás carbônico atuam nas chamadas curvas paralelas, por exemplo, quando o nível de oxigênio se encontra num determinado patamar, o nível do gás carbônico estará no patamar contrário, mas as varições desses níveis são proporcionais, onde, para a cada queima de 4 moléculas de oxigênio, haverá uma produção de outras 4 ou 5 moléculas de gás carbônico.

Quando um mergulhador realiza a hiperventilação, ele inicia a apneia com o nível de gás carbônico muito mais baixo do que quando ele simplesmente inspira e retém o oxigênio nos pulmões, então, antes que a alta taxa de gás carbônico atinja o nível de alerta no centro respiratório, o nível de oxigênio já caiu a um nível incompatível com o mínimo para a consciência humana, e o mergulhador acaba desmaiando.

Por quê o apagamento ocorre quase sempre próximo da superfície ?

Enquanto o mergulhador está no fundo, apesar da redução dos pulmões, a pressão parcial dos gases vai se mantendo, mas ao iniciar a subida, o mergulhador estará com a taxa de oxigênio muito baixa, além da pressão parcial cair drasticamente, piorando ainda mais a situação dele, e o resultado é o apagamento.

Por quê os praticantes de caça-submarina tem grande incidência de apagamento ?

Quando um mergulhador está realizando a apneia e sente a vontade de respirar, ele ainda tem algum tempo para ficar submerso, mas quando usamos o método da hiperventilação, este tempo é muito inferior e a insistência em permanecer no fundo, acarretará no desmaio.

No caso da caça-submarina, muitas vezes uma “briga” com um peixe para removê-lo de sua toca, faz com que o caçador permaneça no fundo além dos seus limites e estando ciente de que precisa respirar, mas muitas vezes, acaba decidindo “brigar um pouco mais” com o peixe, e quando percebe que a a coisa está crítica, larga tudo e sobe para a superfície batendo pernas o mais rápido possível, consumindo ainda mais o restante de oxigênio, e por isso, acaba durante o retorno e sendo encontrado flutuando na superfície ou a meia-água.

Não devo usar a hiperventilação então ?

A resposta é sim e não.

Ela deve ser feita por aqueles que detém o treinamento correto e o ideal, é estar mergulhando com um dupla nas proximidades, para uma rápida remoção da água do mergulhador apagado, caso seja necessário.

Se você não possui treinamento adequado e mergulha sozinho, não recomendo, pois os riscos são reais e altos demais para uma simples diversão.

Revisão e colaboração: Dr. Gabriel Ganme

Gráfico: Dr. Gabriel Ganme
Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983, no autônomo em 1986 e Dive Master em 1990. Hoje é mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior. Também prestou consultoria para a ONU, UNESCO e diversos órgãos públicos no Brasil.