Eventualmente vemos algumas pessoas se formando como instrutores de mergulho e atuando de forma independente, atuando sem vínculo trabalhista com uma uma escola / operadora de mergulho.
Muitos desses instrutores tem como principal forma de obtenção de lucro a atuação em empresas privadas, sem relação com o mercado do mergulho.
Dessa parcela, muitos ministram cursos apenas em dias livres e sem nenhum comprometimento direto com os clientes, diferentemente dos instrutores que vivem do mercado do mergulho.
O ganho de uma “renda extra”, mergulhar sem custos ou apenas a obtenção de status “instrutor”, são em muitos casos, os principais motivos para que essas pessoas se tornem instrutores de mergulho, e isso pode criar alguns problemas com essa “independência”.
Entendendo o aspecto
Justamente pela falta dessa conexão com uma escola de mergulho, a preocupação e cuidado com a execução dos cursos acaba sendo menor, diferentemente quando falamos de um profissional vinculado com uma escola.
Por exemplo, no caso de um eventual problema, um instrutor independente poderá simplesmente desaparecer do cenário, dificultando a imputação da responsabilidade legal por algum ato que venha causar dano ao aluno, e já vimos alguns exemplos acontecerem no mercado.
Um cliente, por exemplo, poderá ter dificuldades na obtenção de seus direitos, caso algo seja realizado fora do padrão ético e dos standards cobrados pelas principais certificadoras pelo mundo.
A falta de experiência na execução dos cursos, também acarreta na má formação de mergulhadores e gerando baixo desempenho, e não é raro presenciar nas operações de mergulho mergulhadores despreparados para a atividade, as vezes, sendo um verdadeiro “show de horrores”, com atitudes e posturas erradas, além de procedimentos incorretos. Isso tudo porque simplesmente não obtiveram um treinamento eficaz repassado por um verdadeiro profissional.
Um instrutor independente pode tirar clientes das escolas de mergulho, além da chance dele comercializar equipamentos diretamente ao consumidor final, sem passar pelos lojistas. As escolas perdem o curso e a venda de equipamentos.
Se o curso e a experiência do aluno forem ruins, teremos “formado” o mergulhador de forma incorreta, chance dele abandonar a atividade, sem contar com o marketing negativo que ele poderá fazer sobre o esporte para os amigos e parentes, e no final quem sai perdendo é o próprio mercado.
A formação de novos instrutores sem uma conexão direta com uma escola de mergulho, pode abrir a possibilidade para a perda de clientes, queda nas vendas e gerar um número maior de mergulhadores despreparados para a atividade, além de aumentar a chance de acidentes.
Lucros x Acidentes
O famoso “mergulhe baratinho”, é sem dúvidas um dos maiores vilões do mercado.
Isso me faz lembrar uma ocasião em que um instrutor independente realizou uma operação de mergulho utilizando uma embarcação inapropriada para mar, deixando um grupo esperando em uma ilha, até que ele retornasse para buscar a segunda parte do grupo.
Por azar, ao retornar acabou tendo a embarcação apreendida pela Marinha por problemas de documentação e os mergulhadores da primeira leva ficaram abandonados por um bom tempo na ilha aguardando e sem saber o que havia ocorrido. (Saiba mais aqui).
Conclusão
A venda de cursos para a formação de instrutores de mergulho é obviamente uma forma de obtenção de lucros para as escolas, mas a comercialização numa escala maior, gera, ao meu ver, alguns aspectos negativos para o mercado.
Infelizmente as opiniões do mercado são divergentes e na maioria das vezes, focam no lucro e não enxergam que isso poderá gerar problemas uma diminuição de lucro com a venda dos demais cursos e vendas de equipamentos.


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



