O mergulho recreativo é considerado uma das atividades mais seguras do mundo, e falhas em equipamentos de mergulho são raras.
Na maioria das vezes quando ocorre algo, o problema está relacionado com o regulador e/ou infladores dos coletes equilibradores. Recentemente um relatório publicado por uma importante instituição americana voltada para o mergulho recreativo, divulgou algumas informações dados que chamaram a atenção dos pesquisadores.
Apesar dos mergulhadores envolvidos nos incidentes reportados darem bastante atenção na manutenção de seus equipamentos de mergulho, surgiram situações em que o cilindro de mergulho se encontrava boa quantidade de gás, e apesar disso, o fluxo de gás fornecido ao mergulhador foi diminuindo até cessar por completo em algumas circunstâncias.
Uma análise do equipamento levou até uma descoberta que chamou ainda mais a atenção: A presença de grande quantidade de material amarelado e cristalizado, bloqueando o interior da entrada do segundo estágio do regulador. Apesar das mangueiras do tipo “flex” (conhecidas por serem mais finas) não apresentarem qualquer sinal de desgaste e estarem dentro do prazo de validade dos cinco anos, repentinamente surgiu um material no interior delas e sem aviso prévio.
O fato chamou muito a atenção dos pesquisadores e enquanto o problema estava sendo analisado, percebeu-se que não eram casos isolados. Vários técnicos em manutenção de equipamentos passaram a relatar o mesmo problema em várias partes do mundo.
A situação foi levada aos principais fabricantes desse tipo de mangueira, que na sequência, responderam com a informação de que tais mangueiras deveriam ser substituídas em um prazo inferior aos cinco anos, pois seriam menos resistentes que as tradicionais mangueiras de borracha encontradas no mercado. Pra piorar, algumas mangueiras comercializadas no mercado internacional, seriam na verdade, cópias de mangueiras flex de fabricantes de primeira linha.
Poliéster-TPU X Poliéter-TPU
Nas mangueiras do tipo flex encontradas no mercado, são utilizados um dos dois tipos de material plástico, o Poliéter-TPU ou Poliéster-TPU, sendo o primeiro, sendo o melhor material para mangueiras de mergulho. Os nomes são muito parecidos, mas os materiais são diferentes.
Vejamos abaixo as características de cada um deles:
Poliéster TPU
Boas propriedades de tração, propriedades de flexão, resistência à abrasão, resistência a solventes e resistência a altas temperaturas. No entanto, não é resistente à hidrólise, um tipo de reação química quanto um determinado material acaba tendo contato com a água.
Após certo período de uso, suas substâncias internas se dissolverão em água, ficarão amareladas e serão mais rígidas que o poliéter, não sendo adequado para produtos que tenham contato com água.
Poliéter TPU
De valor superior, o material é inodoro e ambientalmente amigável, sendo resistente à hidrólise, possuindo alta resiliência, alta resistência material de revestimento, se à abrasão, boa resistência ao rasgo, resistência à tração e resistência à casca.
Além disso, possui alta estanqueidade, forte dureza, dificilmente fica amarelado, é ambientalmente seguro e não tóxico.
É durável, resistente ao frio, à prova de intempéries e mantém uma boa flexibilidade até 35ºC. É adequado para uso em produtos que tenham contato com água.

Primeiros Testes
Um mergulhador que é engenheiro e especialista de um fabricante americano se ofereceu para realizar uma baterias de testes para o Divers Alert Network (DAN).
Os testes foram realizados nas mangueiras flex de baixa pressão, submetendo ao teste de “envelhecimento acelerado”, e a constatação preliminar foi que as mangueiras com poliéster-poliuretano termoplástico (poliéster-TPU), utilizado como material de revestimento, se deteriorou rapidamente, seguindo os mesmos moldes como os relatos dos mergulhadores que tiveram o fechamento de gás em seus reguladores.
Já as mangueiras flex fabricadas em poliéter-poliuretano termoplástico, não apresentaram problemas.
Um conhecido fabricante europeu de mangueiras flex e que sempre utilizou como matéria prima, o poliéter-TPU desde 2008, exigiu de seu fornecedor de materiais, uma certificação quanto aos revestimentos de mangueira de poliéter-TPU utilizados na fabricação desses produtos, para garantir que no processo de fabricação, estivessem utilizando o material correto.
Qual causa da deterioração dos revestimentos das mangueiras flex ?
Como mencionei mais acima, a deterioração tem como origem a hidrólise, o contato de um material inadequado com a água. Além disso, a temperatura pode acelerar a degradação do material ou da própria hidrólise. O aquecimento e resfriamento cíclico repetido do revestimento da mangueira flex, acaba facilitando a formação de cristalização.
O sol aquece a mangueira e ao mesmo tempo, o fluxo de gás respiratório ao passar pela mangueira, acaba esfriando a superfície interna novamente. Esse processo se repete a cada mergulho, e os “cristais” vão sendo acumulados ao longo do tempo, e com isso, podem se tornar suficientes a ponto de diminuir o fluxo de gás ou até serem levados para o interior do segundo estágio do regulador resultando na falha do principal equipamento de respiração do mergulhador.
É difícil prever o tempo necessário para que um revestimento de poliéster-TPU se deteriore, mas as informações atualmente disponíveis sugerem que a 30°C e alta umidade, esse tipo de mangueira, quando exposta, irá se deteriorar mais rapidamente.
Os fabricantes das mangueiras flex foram informados sobre o fenômeno e investigaram cuidadosamente seus fornecedores existentes, implementando meios aprimorados de verificação e qualidade dos materiais empregados na fabricação dessas mangueiras.
A recomendação de segurança padrão em relação às mangueiras do regulador, é que elas sejam inspecionadas regularmente, e principalmente, se houver sinais de deterioração externa. Havendo desintegração ou abrasão do exterior, o revestimento de borracha eventualmente predispõe as mangueiras à ruptura durante a pressurização ou durante a utilização.
Mangueiras de borracha também são propensas a esta condição, razão pela qual, as mangueiras flex de polímero foram desenvolvidas, mas o principal problema, é que a parte externa dessas mangueiras trançadas, é que elas podem ter uma aparência de normalidade, quando na verdade, estão escondendo uma superfície interna completamente deteriorada, prejudicando uma inspeção externa pelo técnico e com riscos não visíveis.
Recomendações
A recomendação é que as mangueiras de reguladores sejam trocadas a cada cinco anos, contudo, mangueiras flex acabam tendo uma vida útil inferior, independentemente da aparência, uso e proteção.
Ao comprar uma mangueira, é importante determinar a composição do revestimento usado na fabricação, se foi fabricada em Poliéter-TPU, e não em Poliester-TPU. Em caso de dúvida, a recomendação é não comprar mangueira.
Adquira mangueiras de marcas conhecidas e que indiquem claramente o tipo de material de revestimento utilizado na fabricação. Qualquer indicação de restrição de fluxo de gás, principalmente ao usar uma mangueira mais nova, o mergulhador deve parar imediatamente de usar o regulador e realizar uma inspeção cuidadosa do equipamento por completo.
Examine fisicamente as mangueiras apertando-as a cada centímetro para avaliar se elas possuem o mesmo grau de flexibilidade. Qualquer alteração nessa resistência ao pressionar ao longo da mangueira, poderá ser um indicativo da existência de um possível problema.
Este teste é muito mais fácil de realizar com mangueiras trançadas do que com mangueiras comuns, por serem mais rígidas.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



