Quando vamos mergulhar, não é raro acabar vendo algum mergulhador com dificuldades pra descer, e isso pode ter relação com equipamento mal ajustado, dor de cabeça, enjoo, falta de treinamento e o mais comum deles… dificuldade em compensar os ouvidos.
Mas apesar dos aspectos acima, ainda existe um que merece atenção especial: O Medo.
Inúmeras vezes presenciei pessoas prontas para mergulhar e na hora H, surge algo do “além” e a pessoa acaba apresentando dificuldades, receios e medos. Em situações como essa, é preciso identificar a causa do problema e analisar se de fato, é viável ou não a pessoa mergulhar.
Tentar obter a solução para o problema, muitas vezes vai além do nosso conhecimento e capacidade durante uma operação embarcada, pois a pessoa precisa expor o problema para que possamos tentar determinar a causa e ajudar de alguma forma, e resolver isso em um barco de mergulho, nem sempre é possível.
Quem aqui nunca teve algum mau pressentimento antes de realizar uma tarefa, ação ou mergulho ?
Quando uma pessoa não está se sentindo bem sem um motivo aparente e está na dúvida se mergulha ou não, a minha resposta sempre será: não vá !
O mergulho é uma atividade de lazer e a pessoa precisa estar bem consigo mesma. O esporte tem que lhe fornecer, paz e tranquilidade, porque é isso o que buscamos no mergulho, e não sendo dessa forma, a minha recomendação é abortar o mergulho até identificar os motivos desse medo, para que o problema seja sanado de forma mais conveniente e segura.
Mergulhos mais avançados do que a experiência adquirida
Também não é raro encontrar uma pessoa realizando um mergulho avançado e que requer muito mais experiência do que ela possui, e em muitos casos, quando essa pessoa percebe que as condições desse tipo de mergulho exige muito mais habilidades, o mergulhador dá uma “travada”.
Encontrar mergulhadores se segurando no cabo da âncora da embarcação de mergulho durante alguns bons minutos na sulerfície, pode ser um indicativo desse tipo de situação. O sujeito entra na água e na hora de descer, o medo altera o psicológico e o mergulhador trava na superfície e não desce, chegando em alguns casos, a dizer que está com dor no ouvido.
Ele está pensando 10x antes de descer se realmente deve mergulhar ou não, sendo muito importante nessa hora, o divemaster perceber a situação e realizar a condução do mergulhador de forma adequada para o mergulho ou para o retorno até um local seguro na embarcação.
Devemos sempre lembrar, que nosso organismo não foi preparado para viver embaixo d’água, sendo natural que algumas pessoas não se sintam tão bem em alguns momentos antes de iniciar o mergulho.
Se está difícil, então pare !
Uma das piores posturas que um mergulhador pode ter é tentar enfrentar uma condição a qual ele se sente muito medo. O medo é uma pré-condição de alerta para algo que em tese, nosso corpo não está preparado pra fazer ou onde se obtém a percepção de que algo está colocando-o sob risco. Logo, se a sensação de medo por uma situação for muito grande, renuncie o mergulho.
Não fique preocupado com o que os demais irão pensar e coisas do tipo. Chame o divemaster e avise que você não está se sentindo bem, para que ele possa prover o suporte necessário.
A pior postura que um mergulhador pode ter é querer enfrentar uma situação para a qual ele não está capacitado e tendo ele plena convicção disso, mais ainda assim, ele continua seguindo em frente só para demonstrar que não tem medo e não “passar vergonha” para os demais amigos.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



