No ano passado, minha amiga querida e cliente do Dewi Nusantara, barco em que trabalho, me perguntou se eu poderia ir com ela até o Timor Leste, pois já havia trabalhado lá em 2013 como instrutora de mergulho.

Sim, é claro !   Não pensei duas vezes, e a viagem foi organizada para agosto de 2019, exatamente um ano depois. O tempo voa e aqui estamos no Timor Leste !

Desde 2013 visitei o Timor Leste duas vezes, em 2014 e 2016 para visitar amigos e, é claro, mergulhar. É como voltar pra casa, mas desta vez está sendo um pouco diferente. Já se passaram seis anos desde que eu deixei o Timor e meus olhos miram para o recife e vida marinha de uma maneira completamente diferente. Durante todos esses anos, meus olhos foram lapidados trabalhando na companhia de guias de mergulho e clientes extremamente experientes – naturalistas, fotógrafos, biólogos marinhos e pesquisadores. Não tenho como explicar a sorte que tive!

Dia 1

Em nosso primeiro dia de mergulho, Dive Timor Lorosae nos levou de barco para a ilha de Atauro, que fica umas 20 milhas náuticas de Dili, a capital do Timor Leste. No caminho à Atauro, como de costume, fomos recebidos por uma aglomeração de baleias orcas-pigméia. Que ótima maneira de começar a viagem.

Chegando a Atauro, colocamos o equipamento, caímos na água e finalmente entrei em águas timorenses novamente, e logo de cara já tive uma surpresa… O Lyre Tail Hogfish, um peixe nada comum para mim. Lá estava nadando junto com alguns peixes-cabra.

Certamente foi um dia de grandes surpresas. Não havia notado anteriormente, pois em 2013 ainda não possuía a mesma experiência que tenho hoje, mas o Timor Leste possui uma grande variedade de peixes do gênero Anthias. A Square Spot Anthias, Scalefin Anthias e Threadfin Anthias estão por toda parte. Princess Anthias, Purple Anthias e Stocky Anthias são avistadas em vários lugares.

São as Anthias que dão cor e movimento ao recife. Talvez você nunca tenha notado por conta de seu tamanho, pois são pequeninas, mas certamente existe uma sensação de um mergulho cheio de cores quando elas estão presentes em grandes quantidades.

Outra surpresa do dia: quando estava próximo do final do mergulho em Table Top, por volta de 10m de profundidade, em uma área rochosa, avistei alguns Flasherwrasses machos perseguindo uma fêmea. Yellowfin e outra espécie que não tenho certeza, mas possivelmente era o Paine’s. Isso foi o suficiente para prender minha atenção e esquecer do tempo de mergulho. Quem nunca ficou hipnotizado pelos Flaserwrasses ?

Junto com os Flaserwrasses, tinha uma Fairy-Wrasse que me chamou a atenção com sua cor roxa e a parte de cima do corpo amarela, da cabeça ao rabo. Nunca tinha visto antes.

De volta ao centro de mergulho, olhei nos livros e pude identificar a Purple Fairy-Wrasse. Outra Fairy-Wrasse muito bonita que estava lá, a Lubbock’s Fairy-Wrasse, com seu vestido roxo brilhante e amarelo nas costas, e por último, mas não menos importante, o Pink Eye Hovering Goby, que é sempre um ótimo peixe para fotografia marinha, com seu olhos cor de rosa bem brilhantes.

Foto: Katsuko Hosoya

Dia 2

No dia seguinte, decidimos fazer um mergulho local, apenas a 5 minutos de carro do centro de mergulho. Dili Rock East e Tasi Tolu eram os pontos de mergulho que eu fazia de 4 a 5 mergulhos por semana ou mais, em 2013. Geralmente nos meus dias de folga, pegava uns cilindros e passava o dia lá, procurando criaturas.

Milke, o guia de mergulho local, nos levou lá. Dili Rock East começa em um plano arenoso com uma inclinação suave. Se continuar com seu ombro esquerdo no lado do recife, vai seguir em um barranco de rochas com algumas formações de cheias de corais Glassfish. Seguindo em frente, encontramos uma enorme formação de corais que vai dos 15 aos 25m de profundidade, contendo corais moles e duros, Black Corals, Sea Fans, Cardinal Fish e cardumes de Big Eye e Golden-Lined Snappers. Passaria o mergulho inteiro lá facilmente.

Durante o intervalo de superfície, pegamos o carro e fomos ao próximo ponto de mergulho, Tasi Tolu, e eu resolvi voar o drone. O drone levantou voo da praia e foi direto em direção ao mar, mas não respondia aos meus controles e não subia mais que 5m. De repente, o controle remoto soou um alarme e apareceu uma mensagem “pouso forçado em 10 segundos” Não!  No mar não, por favor! Consegui trazer o drone de volta à praia e pousar com segurança. Essa foi por pouco, mas mereci, quem mandou tentar voar o drone perto de um aeroporto.

Drone seguro dentro da mala, hora de voltar para a água. Tasi Tolu é um ponto de fundo de areia branca com algumas ervas marinhas (Dugongs gostam de vir e se alimentar aqui), seapen, e esponjas. Do ponto de entrada, seguindo com o ombro esquerdo, a aproximadamente 17m, há um recife, como um oásis no meio do deserto. É coberto com corais moles e esponjas, onde nudibrânquios, camarões, frogfish, peixe leão e flatworms vivem e se escodem de predadores.

Vimos cavalos marinhos, Leaf Scorpionfish, Orangutan Crabs, Cowries, Cockatoo Waspfish, muitos camarões e nudibrânquios.

Dia 3

Em nosso terceiro dia de mergulho, saímos de barco para o Cristo Rei de Dili, que fica a apenas 20 minutos da área central de Dili, onde o barco fica ancorado. Cristo Rei de Dili é a estátua ícone da cidade, situada na extremidade da península de Fatucama. Hoje em dia, é uma das principais atrações turísticas da cidade.

Realizamos um mergulho na praia dos fundos e outro na praia da frente. Em 2013, só fazíamos esses mergulhos da praia, chegando de carro. Agora existem saídas de barco, tornando tudo mais fácil.

A topografia é muito similar nas duas praias. Na parte rasa, há um plano coberto por um belo jardim de corais. Uma inclinação suave começa por volta de 5m e continua até perder de vista. O jardim de corais predomina entre 5 e 12m. Na parte mais funda há uma predominância de fundo de areia com alguns seafan e esponjas bem grandes.

Vimos moreias gigantes, Pictus Coralblenny, Cometfish, cardume de Striped Catfish e muitos nudibrânquios, como Goniobranchus Kunei,  Thecacera Picta, Phyllodesmium Briareum (por todo lado na praia da frente) e uma Miamira Sinuata colocando ovos.

Foto: Katsuko Hosoya

Dia 4

No dia seguinte saímos de barco novamente, mas desta vez em direção ao leste em busca de pontos de mergulhos que não são acessíveis da praia e de carro. Após 1h de barco, chegamos a um ponto de mergulho chamado Mangrove (manguezal em português).

O Timor Leste é bem conhecido pelos crocodilos de água salgada que habitam os manguezais. Achei o nome bem assustador para um ponto de mergulho. Apesar do nome, os mergulhos foram ótimos.

A visibilidade estava ótima e o jardim de corais é impressionantes. O ponto de mergulho é um plano imenso de aproximadamente 5 a 6m de profundidade com uma leve inclinação, chegando até uns 20m de profundidade. Na parte rasa, o jardim de corais é formado por corais moles, com algumas colônias enormes de corais duros. Um pouco mais fundo, por volta dos 17m de profundidade, existem grandes formações de corais duros, como Montipora e Acropora.

Há muitos peixes nesta área, cardumes de Slender Unicornfish, Twospot, Big Eye e Golden-Lined Snappers. Yellowfin Flasher-Wrasses e Lubbock’s Fairy-Wrasse machos perseguindo fêmeas e exibindo suas nadadeiras com cores brilhantes. Foi neste dia que vimos nossos primeiros tubarões na viagem. Tubarão-galha-preta e galha-branca vivem nesta área.

Existem inúmeros Mushroom Corals neste ponto de mergulho e se olhar bem de perto, sempre vai achar esses camarões de Mushroom Coral vivendo neles.

O Mangrove foi o único ponto de mergulho do Timor Leste onde não encontramos uma grande variedade de nudibrânquios. Somente algumas poucas Phyllidias. O lado bom disso é que minha amiga Katsuko, que é uma excelente fotógrafa e geralmente passa a maior parte do tempo fotografando nudibrânquios e Tunicates, começou a tirar fotos de peixes, para meu deleite.

A Katsuko tirou essa foto maravilhosa de um Signalfin Sandgoby rodeado por pequenas flores. Essa foto demonstra claramente o estilo fotográfico de Katsuko.

Ponto de mergulho conhecido pelo nome K41 – Foto: Simone Tomazela

Dia 5

No quinto dia da viagem, fomos novamente na direção leste, saindo de Dili, mas desta vez de carro. Em comparação com 2013, a estrada está muito melhor agora e ainda estão fazendo melhorias, portanto acredito que vai ficar muito melhor num futuro próximo.

Após 1h de carro, à 41km da capital Dili, chegamos ao ponto de mergulho chamado K41, um nome que dispensa explicações. K41 é um dos meus pontos de mergulho favoritos no Timor Leste e certamente foi nosso melhor dia. Tivemos as condições perfeitas para este ponto. Céu azul, mar calmo, visibilidade clara e pouca correnteza. E para completar, somente nós duas e nosso guia de mergulho, o Melki. Fizemos mergulhos bem longos, do jeito que a gente gosta.

K41 fica em uma baía protegida e é de fácil acesso na maré alta ou baixa, não importa. Começamos nosso mergulho numa inclinação suave de fundo na areia branca e continuamos com o recife faceando nosso ombro direito. Contornamos uma mini parede rochosa com um cardume de Indo-Pacific Sergeant protegendo seus ovos. De repente nos pegamos em meio a uma bagunça enorme de peixes Wrasse e Burtterfly se alimentando dos ovos e os Sergeant tentando protegê-los.

Aos 10m de profundidade, haviam diversas anêmonas Zebra e não conseguimos encontrar, mas tenho certeza absoluta que o camarão de anêmona Zebra estava muito bem camuflado lá.

Continuando com o recife do lado direito, o cardume de Glassfish te dá uma pista. Certamente, os Leaf Scorpionfish estão lá e sem procurar muito, encontramos dois pretos e um branco, mas tenho certeza que há muito mais.

O recife segue com uma inclinação acentuada coberta de corais, sendo um habitat de nudibrânquios e camarões. Se for um pouco mais fundo, por volta de 22m no fundo de areia, vai encontrar alguns tubarões-galha-branco residindo no local. Claro que fui mais fundo para vê-los de perto e um deles era muito curioso, se aproximando de mim várias vezes. Talvez tenha me reconhecido !

Do ponto de entrada, indo no sentido oeste, o recife tem uma inclinação acentuada de fundo de areia branca com arbustos de corais negros cheios de ovos de Lula.

Foto: Katsuko Hosoya

Dia 6

Chegamos ao nosso último dia de mergulho no Timor Leste. O centro de mergulho Dive Timor Lorosae nos levou a pontos de mergulho bem próximos, Dili Rock East e La Casa, que é um recife artificial, projeto iniciado pelo centro de mergulho em 2016.

O recife artificial é bem interessante, com estruturas metálicas, cilindros de mergulho e vários objetos que lembram uma casa (daí vem o nome). Já possui muita vida marinha que encontrou uma casa lá, como peixe-morcego, peixe leão, sépias, polvos e muitos nudibrânquios e Sea Slugs.

E para fechar nossa viagem com chave de ouro, no final do último mergulho encontrei um nudibrânquio imenso, o raro Janolus Savinkini, sentado num vaso sanitário !

Fomos abençoadas a viagem toda com condições perfeitas para mergulho, céu azul e mar calmo. A temperatura da água estava entre 25 e 26°C e realizamos todos os mergulhos usando Nitrox 32% fornecido pelo centro de mergulho Dive Timor Lorosae.

O pessoal do centro de mergulho Dive Timor Lorosae foram ótimos organizando nossa agenda e nos ajudando nos mergulhos. A Katsuko possui uma câmera subaquática enorme e já passou por duas cirurgias de prótese de quadril, o que faz com que mergulhos da praia sejam difíceis para nós, mas ao contrário do esperado, tivemos toda a ajuda da equipe e dos guias de mergulho, e tudo ficou extremamente fácil.

Queremos deixar aqui nosso agradecimento ao Milke, que nos acompanhou nos mergulhos da praia, ao Rob e a Abi, que nos acompanharam nas saídas de barco.

Parabéns aos centros de mergulho Dive Timor Lorosae e Dreamers Dive Academy por formarem guias locais. Não existem muitos guias locais no Timor Leste. Em 2013 existia apenas um guia local, o Juvi, que trabalhou comigo e foi formado pelo centro de mergulho Dive Timor Lorosae. Desta vez, tivemos a oportunidade de mergulhar com Melki e Jake, ambos fazendo o curso de Dive Master.

Voando com Drone no Timor Leste

Não é necessária nenhuma autorização especial para voar drone recreacionais no Timor Leste, mas atenção às áreas próximas ao aeroporto, onde é totalmente proibido.

Não é permitido sobrevoar prédios do governo, embaixadas ou áreas militares, que estão por toda parte em Dili.

É possível voar o drone no Cristo Rei de Dili, mas há uma limitação de altitude de 90m.

Fora da cidade de Dili não existem restrições.

Antes de voar o drone de uma embarcação, certifique-se que já tenha certa experiência voando em terra firme. No mar, não existe segunda chance.

Galeria de Imagens – Clique na imagem abaixo:

Timor Leste – Fotos: Simone Tomazela e Katsuko Hosoya / Google Photos

Vídeo da viagem abaixo:

Por:

Simone Tomazela

Nascida em São Paulo e desde sempre apaixonada pelo mar, deixou sua vida de Engenheira Civil no Brasil para viver como mergulhadora no Triângulo de Coral, localizado no Sudeste Asiático.

Desde 2011, vem viajando e trabalhando pelos mares da Indonésia, Tailândia, Malásia e Timor Leste.

Atualmente é Diretora de Cruzeiro do Dewi Nusantara, um luxuoso liveaboard de mergulho na Indonésia.