Era manhã de um domingo ensolarado no Rio de Janeiro ainda na década de 90. A saída da Baía de Guanabara estava linda, com um mar calmo como piscina, além da belíssima vista da praia de Copacabana à direita já enchendo de gente.
Navegamos até a Ilha Comprida, uma das ilhas que compõem o Arquipélago das Cagarras, que estão próximas às praias do Rio. A ilha tem esse nome justamente por ter o maior comprimento, aproximadamente 1.300m de ponta a ponta, sendo o ponto mais abrigado de todo o arquipélago, como uma barreira natural contra as ondulações provenientes do alto-mar.
Éramos 12 mergulhadores que não se conheciam saindo em uma operação normal de uma escola de mergulho da cidade.
Apesar da formação das duplas, fomos orientados a seguir o divemaster. Na hora achei estranho, pois era muita gente para um guia !
A profundidade local não passava dos 13 ou 14m. Até os 6m de profundidade tínhamos 24°C de temperatura com visibilidade em torno dos 10m. No fundo a água estava gelada e com visibilidade entre 1 e 2m com tonalidade marrom.
Chegando ao fundo, fiquei incomodado com as condições da água. Não estava agradável.
Olhei para a moça que virou minha dupla e fiz aquela cara do tipo “é isso mesmo ?”
Começamos a seguir o guia e logo notei que ele se tornara um verdadeiro corredor subaquático, nadando intensamente e sem deixar que os mergulhadores sequer parassem para apreciar algum tipo de vida marinha que surgisse à frente, até porque não tinha como ele visualizar todos em razão da baixa visibilidade.
Incomodado com aquela situação, chamei minha dupla, avise um dos mergulhadires que estávamos subindo e fomos para a cota dos 6 / 7m de profundidade, e assim, mantivemos nessa faixa durante todo o mergulho.
Água quente, muito mais clara, azulada e com muita vida marinha !
Pude mostrar pequenas moreias, tartarugas, pequenos seres, dentre outros. Uma hora de mergulho agradável, calmo, sem estresse e preocupações com correntes e coisas do tipo.
Naquela época saímos para mergulhar sem a neura de limitar os mergulhos em 45 minutos como muitos fazem hoje em dia. O limite era voltar às 17h se não houvesse previsão de virada de mar, então, mergulhávamos o quanto fosse possível.
Ao retornarmos para a embarcação, encontramos os mergulhadores enrolados em toalhas devido ao frio no mergulho, e pior ainda, o semblante de cada um deles ao escutar o relato da minha dupla sobre o que tinha visto no mergulho.
Era notória a cara de decepção dos mergulhadores, porque literalmente eles se tornaram os “carneirinhos” seguindo o divemaster, cujo propósito, era realizar um mergulho sob condições de frio, mais fundo e batendo muito as pernas, para terminar logo o seu dia de trabalho.
Incomodado com a exaltação da minha dupla, o divemaster decidiu bancar o “experiente das galáxias” (pra não dizer outra coisa), vindo até mim para dar uma bronca na frente de todos, afirmando que eu não poderíamos ter saído do grupo, e essa foi única vez em que tive uma discussão, até porque ele não sabia que eu possuía a mesma certificação que ele e, obviamente, conhecia os standards.
No fim das contas, todos foram para o segundo mergulho seguindo a orientação que passamos… manter a profundidade mais baixa.
No final todos mudaram a visão sobre o local e daquele dia de mergulho. Acabei ganhando uma amiga e quase todos chegaram ao cais contentes pelo lindo dia.
Conclusão
Nem sempre ter uma certificação de profissional de mergulho significa que a pessoa é realmente experiente e possui um conhecimento aprofundado.
Se você detém experiência e perceber que pode haver uma postura incorreta de algum profissional durante o mergulho, dependendo do local e das condições, você pode ter seu livre arbítrio para mudar a conduta para tornar o mergulho mais agradável, desde que, não o coloque sob algum tipo de risco.
A história acima é real e senti que não deveria seguir uma pessoa a qual não estava preparada para guiar todos sob aquelas condições de água, até porque, oa objetivos dele eram outros e havia pago para me divertir e apreciar a vida marinha.
Certamente meu objetivo não era ficar somente batendo pernas e olhando para o fundo de areia com água gelada queimando gás à toa.


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



