Mergulho em ambiente com teto – Uma questão de opinião e prudência

Quantas vezes vemos e-mails rolando nas listas de discussão sobre mergulhos no interior do naufrágio Pinguino e na caverna da Camarinha em Arraial do Cabo.

Realmente são dois excelentes pontos de mergulho na costa do Rio de Janeiro, e que devem sem dúvida nenhuma, ser visitados por todos os mergulhadores.

Mas a pergunta que eu faço e que alguns não gostam de ouvir:

 

Você está realmente preparado para este mergulho ?

Normalmente quando toco nesse assunto, algumas pessoas não compreendem e/ou acham que há um exagero de minha parte, quando menciono que estes mergulhos só deveriam ser realizados por aqueles que tenham concluído pelo menos um curso de Overhead ou Intro to Cave por exemplo. No caso de naufrágios, fazer simplesmente uma especialidade, não estará lhe certificando, para entrar em um naufrágio.

E sempre escuto essa pergunta: Mas precisa disso tudo ?

Antes de mais nada, treinamento nunca é demais, ainda mais quando falamos sobre um local que impõe mais atenção e alguns novos procedimentos ao mergulhador.

 

Alguns exemplos

Vejamos o mergulho no naufrágio Pinguino… um naufrágio antigo, já em avançado estado de desmantelamento, e apesar disso, centenas de mergulhadores se aventuram em seu interior, sem fazer ideia do risco que correm.

Nos deparamos com objetos cortantes, visibilidade reduzida, possibilidade de queda de chapas sobre o mergulhador, e apesar de ser este um naufrágio pequeno, não podemos deixar de lado, a possibilidade de se perderem em alguns poucos cantos que ainda lhe restam, o que já ocorreu algumas vezes e acabamos tomando ciência através de terceiros. Além do falecimento de dois mergulhadores em seu interior no passado.

Uma análise quanto ao estado do casco ou tipo e forma de uma caverna, ninguém faz… carretilhas, pior ainda, pois a maioria nem tem ideia como se utiliza de forma adequada.

Outro exemplo, o mergulho na caverna da Camarinha em Arraial do Cabo, outro ponto frequentado pelos mergulhadores “avançadinhos”. Caverna profunda, com razoável extensão, grande fluxo em seu interior, sem entrada de luz natural, e possibilidade de queda de visibilidade repentina.

O que você faria nessas situações:

  • Queda repentina de visibilidade;
  • Garantir um retorno seguro do interior;
  • Se houver perda de seu dupla;
  • Como calcular o consumo de gás para o mergulho.

São perguntas básicas e simples, mas a grande maioria do mergulhadores recreacionais não sabem responder de forma segura e conveniente.

Raramente escuta-se falar em pane em equipamento de mergulho recreacional, devido ao avanço e anos de tecnologia desenvolvida e empregada neste esporte, contudo, não podemos esquecer que os equipamentos podem falhar, assim como nós.

O mergulho deve ser levado como um dos esportes mais seguros do mundo, contudo, se for executando dentro de uma margem de segurança, que neste caso, um bom treinamento conta e muito !

Se tratando de ambientes com teto e/ou fechados, é racional e prudente saber seu limite e não realizar um mergulho acima de suas qualificações.

Recentemente dois instrutores de mergulho resolveram entrar em uma caverna sem treinamento, sem lanternas back-up e sem carretilha, e o resultado disso, foi quase a morte de um deles, simplesmente por ter dificuldades para encontrar a saída do salão que o levaria ao conduto por onde entrara. Um detalhe importante… os dois desceram utilizando cilindros de 15 litros e apenas 1 regulador e em dado momento, os dois se distanciaram sem um contato visual e sem redundância quanto a fonte de ar.

Outro caso, Cavernas da Siriba em Abrolhos, já houveram mortes, e mesmo assim, mergulhadores frequentam o local sem os devidos cuidados. No passado, outros dois mergulhadores adentraram nessas pequenas cavernas, siltaram o ambiente (grande suspensão), e tiveram dificuldades para sair da mesma.

Por incrível que pareça, um deles conseguiu achar a saída se separando de seu dupla. O dupla que ficou sozinho tentando encontrar a saída, ao perceber que seu ar estava terminando, conseguiu abrir ainda mais um buraco em uma das paredes calcáreas, e passou pelo mesmo sem cilindro, BC e etc, chegando à superfície na apneia e no desespero.

Ouvindo isso, chega à ser um tanto ridículo, com tanto treinamento e equipamento adequado para este tipo de mergulho, e mergulhadores imprudentes ainda procedem desta forma.

No caso acima, felizmente os dois sobreviveram, mais são um exemplo de que um erro, o levará à uma situação com diversos problemas e stress.

Essas histórias, fazem parte de uma lista de histórias normalmente ouvidas pelos bastidores do mergulho.

Comprovado pelas estatísticas, 78% dos mergulhadores recreacionais foram as maiores vítimas de mergulhos em ambientes com teto.

Com exceção aos naufrágios artificiais que são devidamente preparados para os mergulhadores recreacionais, mergulhar em ambiente com teto, é para mergulhadores devidamente treinados. Não se deixe levar pelos amigos ou até mesmo algum profissional do mergulho que venha dizer algo do tipo: Fique ao meu lado que não tem problema.

Fazendo uma comparação, podemos dizer que todos nós sabemos que para pular de paraquedas, basta puxar a corda. A diferença para uma pessoa treinada, é que ela saberá como e quando puxá-la.

Não arrisque sua vida. Ela vale muito mais que um dia de mergulho.

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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