Mergulhar em locais remotos como Galápagos, Cocos e Revillagigedo, já não é uma coisa impossível atualmente, e cada vez mais vemos mergulhadores brasileiros indo para esses destinos e outros locais bem afastados no planeta.
Em locais como esses, devemos redobrar a atenção com os equipamentos de segurança, pois ficamos ainda mais vulneráveis as mudanças repentinas das condições meteorológicas.
Outro aspecto importante, é que normalmente os mergulhadores se preocupam com os equipamentos de segurança, e muitas vezes, acabam esquecendo o básico… seguir as regras, o planejamento e controlar melhor o consumo de gás.
Digo isso, pois em virtude desses destinos serem sempre maravilhosos, acabamos muitas vezes chegando mais empolgados ao local e loucos para entrar na água o quanto antes, não sendo difícil vermos um planejamento entre os mergulhadores sendo feito de forma insatisfatória e corrido.
As pessoas acabam entrando na água e apenas seguem o mergulho, deixando a coisa toda fluir e sem se preocupar com o consumo de gás no cilindro, com a possibilidade de correntes e o caminho de volta. Precisamos sempre estar atentos e imaginar que outras variáveis não previstas podem surgir e atrapalhar o planos de um regresso seguro e tranquilo até a embarcação.

Mesmo havendo um divemaster liderando o grupo, ele também é passível de erros, então, devemos ser precavidos e ter uma redundância na segurança do grupo.
Uma experiência negativa
Durante uma visita a ilha de Wolf, em Galápagos, integrava um grupo de estrangeiros que na verdade, não era nada “integrado”.
Eu representando o Brasil, um casal de alemães falando alemão e quase nada do inglês, outro de suíços falando francês, um terceiro de russos falando apenas russo e outros três japoneses falando japonês, e muito mal o inglês. Um grupo confuso onde a comunicação muitas vezes era feita através de sinais.
Fomos para a água em Wolf, sendo o segundo mergulho do liveaboard feito pelo grupo. Água fria, baixa visibilidade e uma leve corrente no local. Aos poucos víamos os tubarões galapenses com 2-3m de comprimento passando meio ariscos entre os mergulhadores, além de algumas arraias.
Lá estava tentando captar o máximo de imagens possíveis sob condições bem ruins de água, e por um descuido meu, no corre corre pra lá e pra cá, acabei tendo um consumo alto do gás e alcancei mais rapidamente o nível de reserva do cilindro, e começou aí meu primeiro problema.
Informei ao divemaster sobre o baixo nível de gás, e recebo um pedido para aguardar um pouco e que iríamos subir todos juntos. Como a visibilidade estava baixa, não era possível visualizar a superfície e muito menos o bote inflável (chamado de panga por lá) que estaria seguindo as bolhas dos mergulhadores.
Deveríamos te subido imediatamente, mas passei a respirar mais lentamente na tentativa de seguir até o fim com o grupo. Em dado momento, manômetro passou a indicar 40 BAR. Aviso novamente e nova resposta para aguardar. Pouco depois 30 BAR e aviso ao divemaster que estou subindo e retorno até a superfície. Nesse momento, o mínimo esperado era a finalização do mergulho de todos, o que não ocorreu.
Como sempre ouvimos nos cursos de mergulho, um acidente de mergulho é como uma bola de neve, uma coisa puxa a outra e a coisa vai piorando, e digo isso, justamente pra você que está lendo esse texto, perceber o quando é importante seguir as regras e se preocupar com o pré-mergulho.

Superfície e nada do bote
Ao chegar à superfície, me dou conta que o panga (bote inflável) que estava seguindo as bolhas dos mergulhadores, se encontrava bem distante de mim e dos demais. Pra piorar, a ilha de Wolf possui um imenso paredão íngreme e sem a possibilidade de subir nas pedras e aguardar. Com isso, aos poucos estava sendo levado por por uma leve corrente em direção a uma ponta da ilha.
Imediatamente desdobrei e levantei uma bandeira de sinalização cedida pelo liveaboard, mas em meio a ondulação de 1-2m de altura, meu corpo era jogado para cima na crista da onda enquanto que o bote era puxado para baixo, e ficávamos subindo e descendo de forma alternada, onde via somente o chapéu do marinheiro do bote, tornando impossível que o marinheiro me avistasse de longe.
Confirmada a dificuldade, passei a acionar um Dive Alert, que chamou a atenção do piloto do bote e passou a me procurar indo nas mais variadas direções, menos a que me encontrava. Pra piorar, o som emitido pelo Dive Alert causava um efeito de eco no paredão da ilha, dando a impressão para o marinheiro que o som estava vindo de direções diferentes a que me encontrava.
Nesse meio tempo o grupo surgiu na superfície e foram resgatados pelo bote, que continuou tentando me avistar, e como aos poucos a corrente ia me levando para uma ponta da ilha, sabia naquele momento que se a corrente me levasse por ela, eles não teriam como me enxergar mais.
Ainda haviam duas formas de tentar sair daquela situação, sendo a primeira delas usar o rádio GPS Nautilus Lifeline, e foi o que fiz. Após uns 10/15min de dificuldades em ser resgatado, abri a tampa do Nautilus e liguei o equipamento para chamar o bote e o liveaboard pelo rádio. Como uma luz divina, nesse exato momento o marinheiro consegue me avistar e começou a vir em minha direção para o resgate.
Se o rádio não funcionasse, minha última alternativa seria tentar nadar até o paredão da ilha e tentar agarrar para esperar o resgate. Como não há forma de subir na ilha facilmente, seria bem complicado ficar agarrado aguardando.
No final, os poucos minutos que passei à deriva, foram uma eternidade, olhando para um fundo com água esverdeada cheia de tubarões passando próximo pela curiosidade e que no mínimo pensavam: olha o trouxa ali sozinho e sem gás.
Conclusão
Aprendemos várias regras nos cursos de mergulho e que nem sempre acabamos seguindo na prática, sendo um grande erro.
No relato acima, poderia ter tido problemas mais sérios, até porque Galápagos querendo ou não, tem um pequeno histórico de desaparecimento de mergulhadores, devido às condições do mergulho em alto-mar e suas fortes correntes.
A experiência pela qual passei poderia ter sido evitada se o sistema de duplas fosse respeitado e o grupo conduzido de forma adequada.
É preciso ter em mente que apesar de todo o planejamento prévio ao mergulho, algo pode dar errado, mas seguindo as regras do mergulho, as chances deste problema ser grande e fora de controle serão bem menores.


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



