Mergulho solo é o mergulho realizado sozinho, ou seja, sem a presença de outros mergulhadores por perto.
Na primeira aula do curso de mergulho básico, normalmente escutamos que devemos mergulhar sempre acompanhado, tendo um “dupla” de mergulho; porque a presença de um ou mais mergulhadores torna a atividade mais segura em vários aspectos.
Se o mergulhador passar mal, tiver algum problema com seu equipamento ou coisas do tipo, em tese, ele terá o apoio de quem estiver por perto. De qualquer forma, qualquer mergulho é realizado em um “ambiente hostil” ao qual os humanos não estão adaptados, respirando a partir de um sistema de suporte de vida portátil. Nessas condições, a fatalidade é sempre um resultado possível, pois até mesmo equipamentos simples ou problemas de procedimentos podem ser tratados incorretamente.
Ao lidar com esta realidade, há uma série de preocupações importantes sobre falhas potencialmente inerentes ou impactos negativos que podem surgir dentro do sistema de duplas.
Mas de alguns tempos pra cá várias pessoas passaram a mergulhar sozinhas, realizando o chamado “solo dive” ou mergulho solo, em português. Com a demanda crescente, algumas certificadoras passaram a realizar cursos e treinamentos voltados para esse tipo de atividade, com a pretensão de deixar o mergulhador autossuficiente e preparado para se desvencilhar de situações críticas e complicadas, e existem motivos para este tipo de mergulho.
Foto e vídeo subaquático
Alguns fotógrafos e cinegrafistas subaquáticos acabam mergulhando sozinhos em várias ocasiões, e isso permite obter uma concentração melhor na produção dos trabalhos e elimina a possibilidade de algum tipo de interferência junto aos animais, que muitas vezes, podem acabar fugindo do local em razão da presença de mais mergulhadores e do ruído provocado pela exalação das bolhas.
A captação de imagens como a macro fotografia, por exemplo, requer muita atenção do fotógrafo, e pra quem fica próximo e acompanhando a produção, a atividade pode se tornar entediante, pois o dupla perde alguns bons minutos esperando o fotógrafo realizar seus registros, tornando esse mergulho não muito agradável.
Risco jurídico
Normalmente mergulhamos com pessoas em que confiamos e que não traga transtornos ou riscos para a atividade. Se você mergulha com um “dupla perigoso” e algo sério ocorrer, em alguns países como os Estados Unidos, por exemplo, você corre o risco de se tornar um réu em uma ação judicial e ter que indenizar, e esse risco tem sido a principal motivação para que muitos mergulhadores desçam sozinhos.
As vezes acredito naquele dilema: antes só que mal acompanhado.
Já passei por uma ocasião por causa de um dupla que desceu comigo para mergulhar em um naufrágio, e que afirmava ser experiente. Durante o mergulho ele “panicou” dentro de um corredor do naufrágio, chegando a arrebentar o cabo guia que nos levaria para fora, me fazendo arrancá-lo do naufrágio e praticamente jogá-lo para fora do naufrágio.
Preferência
Alguns mergulhadores preferem mergulhar sozinho mesmo. Por exemplo, é muito comum ver mergulhadores chegando às cavernas da Flórida em seus carros após um dia de trabalho, se equipando e entrando na caverna usando scooter. Muitos retornam 1 ou 2h depois. Muitas vezes até mais tempo quando utilizam rebreathers.
Mergulho em caverna em si, é um tipo de especialidade com vários aspectos que requerem a autossuficiência do mergulhador, até mesmo quando ele mergulha em grupo (um time).
Mas o quanto isso é seguro ?
Obviamente o mergulho solo tem seus riscos assim como toda e qualquer outra atividade. Quem se propõe a realizar esse tipo de mergulho, deve ser disciplinado, não estar confiante demais e ter um cuidado especial com o ego.
Independente de quantas vezes já realizou um determinado tipo de mergulho, é preciso ser precavido, ter equipamentos de alta qualidade e com a manutenção em dia. Obter um treinamento avançado, experiência e, principalmente ter a humildade em reconhecer os limites e jamais quebrar regras.
A familiaridade com o ambiente também faz diferença.
A redundância de equipamentos é fundamental, assim como um planejamento do que se pretende fazer.
A falta de gás embaixo d’água, falha de algum equipamento, descompressão e limites pessoais, podem ter os riscos reduzidos com aplicação correta de conhecimentos, habilidades, aptidão e equipamentos. Quando um único ponto de falha provavelmente comprometer seriamente a segurança, equipamentos redundantes podem ser carregados e as habilidades aprendidas executadas para usar o equipamento com eficácia.
Estatísticas
Estudos mostram que em incidentes fatais de mergulho com dupla, 57% das mortes aconteceram depois que a dupla se separou durante uma emergência. Novamente, esses casos podem ser atribuídos à falha do sistema de dupla em vez da falha de qualquer sistema de mergulho solo / autossuficiente.
Um aspecto adicional em tais estatísticas é que certas práticas de mergulhos mais técnicos, como o mergulho em caverna, por exemplo, são frequentemente realizados sozinhos. Portanto, é questionável se uma morte nessas circunstâncias deve ser atribuída ao mergulho solo ou ao mergulho em caverna.
Em quase todas as circunstâncias, dois mergulhadores altamente competentes e totalmente autossuficientes mergulhando em dupla correm um risco menor do que os mesmos mergulhando separadamente, mas isso levanta a questão:
“Com que frequência os mergulhadores em dupla se encaixam nessa descrição ?”
Ao considerar os riscos no mergulho solo, os riscos alternativos encontrados predominantemente no mergulho em dupla também precisam ser considerados. O maior perigo para os mergulhadores esportivos é a inexperiência.
Em 60% de todas as fatalidades em mergulhos envolvem mergulhadores com menos de 20 mergulhos concluídos. O sistema de dupla em si também pode ser uma fonte de risco. Uma pesquisa do ano de 2006 mostrou que 52% dos mergulhadores formando dupla, foram em algum momento ameaçados pelo comportamento ou ações de um integrante.
No mergulho técnico onde a redundância de equipamentos críticos é uma política padrão, a autossuficiência é enfatizada e ensinada de forma mais abrangente do que no mergulho recreativo. Essa filosofia também deve ser seguida por mergulhadores solo. Um mergulhador solo operando além da faixa de risco aceitável para uma subida de emergência controlada precisa carregar uma segunda fonte independente de gás adequado.

Treinamento
O objetivo principal do treinamento para ser um mergulhador solo é se tornar o mais autossuficiente possível, ser capaz de lidar com quaisquer problemas razoavelmente previsíveis sem assistência e ter a competência, aptidão, disciplina, habilidades e equipamentos para alcançar esse resultado.
Isso requer competência na avaliação de riscos e a capacidade de planejar mergulhos, além da seleção de equipamentos que limitem os riscos.
Mergulhadores solo são treinados para estender sua experiência gradualmente e para garantir que permaneçam dentro de sua zona de conforto pessoal sempre que possível. Isso reduz o risco de carga excessiva de tarefas e possível reação de pânico a uma contingência administrável de outra forma. Isso não é exclusivo do treinamento de mergulhador solo, é uma prática comum de treinamento para qualquer atividade perigosa.
Se alguém me perguntar o que acho sobre mergulho solo, diria que algumas vezes é melhor estar sozinho de fato.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



