Como todas as atividades recreativas ligadas à natureza, o mergulho vem experimentando uma transição muito grande. Após um início lento e conturbado, seguido de uma evolução bastante significativa, o mergulho está atingindo sua maturidade.
Os sinais dessa maturidade são inúmeros, tais como a grande quantidade de mergulhadores existentes no Brasil e a proliferação de escolas e instrutores em todas as grandes cidades do país, mesmo naquelas distantes do mar. Outro indicativo é a desaceleração na evolução da atividade, que vem sendo observada no último ano.
Tal fato poderia ser atribuído à crise econômica brasileira, porém consideremos o seguinte: quando foi a última vez em que o país não esteve em crise ?
Tais fatos, entretanto, nunca impediram o crescimento do mergulho, o que leva a crer que, desta vez, a desaceleração é inerente à própria atividade.
O observador mais atento poderá verificar que, ultimamente, o próprio perfil do mergulhador mudou. Os adolescentes e jovens que frequentavam as embarcações nos primórdios da atividade foram substituídos pelos adultos. Homens e mulheres na faixa dos 25 aos 40 anos são a maioria atualmente. Essa alteração no perfil do mergulhador não poderia deixar de acarretar mudanças na atividade em si.
A procura por equipamentos de qualidade, viagens exóticas e treinamentos avançados aumentou vertiginosamente, reflexo do maior poder aquisitivo da nova safra de mergulhadores. Na verdade, o maior indicativo da maturidade do mergulho talvez seja a disseminação do chamado mergulho técnico. Considerando o novo perfil dos mergulhadores, que mergulham muito e consequentemente estão sempre em busca de novidades, é de se esperar que acabem se interessando pelo mergulho técnico, o que de fato tem acontecido.
O Mergulho Técnico
O mergulho técnico teve início no Brasil em meados dos anos 90. As cavernas da região de Bonito, no Mato Grosso do Sul e as da Chapada Diamantina, na Bahia atraíram mergulhadores de caverna estrangeiros e logo já havia mergulhadores e instrutores brasileiros correndo atrás de treinamento e equipamentos. Rapidamente, a necessidade também trouxe para o país os primeiros cursos de misturas gasosas, que foram logo encampados pelos “naufrageiros”, “caverneiros” e outros aficionados.
O fato é que esta modalidade de mergulho é mesmo fascinante : a oportunidade de mergulhar mais fundo, por mais tempo, em novos naufrágios, belos paredões ou cavernas alagadas, mais cedo ou mais tarde acaba “fisgando” qualquer mergulhador fascinado.
O Perfil do Mergulhador Técnico
Quais são os requisitos que qualificam um mergulhador técnico ? As agências de treinamento dizem que basta ter alguns mergulhos registrados em “Log Book” (entre 50 e 100 mergulhos), um curso avançado ou mesmo Nitrox Básico e muita disposição, que qualquer mergulhador pode se tornar um “Técnico”, mas será que é isso mesmo ?
Para uma análise segura, é necessário que se avaliem alguns aspectos que distinguem o mergulho técnico do mergulho recreacional, e que merecem ser discutidos tais como:
Treinamento
O treinamento necessário ao mergulho técnico é bastante extenso e abrangente. São necessários conhecimentos teóricos e aplicados nos campos de física e fisiologia do mergulho, técnicas de descompressão, resgate e primeiros socorros; funcionamento, manutenção e configuração de equipamentos, entre outros. Além disso, existem treinamentos específicos nas técnicas de cada tipo de mergulho : profundo, descompressivo ou com presença de teto (cavernas e naufrágios com penetração);
Equipamento
O mergulhador técnico tem uma dependência e uma necessidade de equipamentos superior às dos mergulhadores recreacionais. São necessários vários reguladores, colete técnico, cilindros simples e duplos, carretilhas, lanternas, “deco markers”, facas, roupa seca, compressor, filtros, transferidores e analisador de oxigênio (para recargas e misturas em campo), além de caixas e sacolas para guardar a parafernália. Sem contar a pick-up, imprescindível para o transporte do equipamento todo e os cilindros contendo gases como Oxigênio, Hélio ou mesmo Argônio.
Planejamento
O planejamento é talvez o aspecto mais importante do mergulho técnico. Este deve ser extenso e minucioso, englobando detalhes como profundidade e tempo do mergulho e das descompressões, com as devidas contingências, planejamento e preparação das misturas a serem utilizadas, nível de proteção térmica, como entrar e sair da água, condições de mar (tais como temperatura da água, profundidade e visibilidade, correnteza e previsões meteorológicas).
Para lidar com eventuais acidentes, devem ser conhecidas técnicas de resgate e primeiros socorros, proximidade de centros de tratamento hiperbárico, alternativas de remoção rápida de feridos, bem como a logística da operação com embarcações, marinheiros, mergulhadores de apoio, colocação e remoção de “stages”, etc. Tudo deve ser planejado e preparado com antecedência, a começar pela configuração dos equipamentos individuais de cada mergulhador.
.Tudo isso pode parecer exagero, mas é a realidade. Portanto, antes de se enveredar pelo ramo do mergulho técnico, o mergulhador deve ponderar se realmente está disposto a investir os recursos necessários à aquisição de equipamentos, gases para misturas e despesas de viagem e operação, bem como o tempo necessário ao treinamento, planejamento e à própria realização do mergulho. A disposição física e mental são também atributos essenciais.
Feitas as devidas considerações, podemos agora delinear o perfil do mergulhador técnico como uma pessoa dedicada (para enfrentar o extenso treinamento, planejamento e configuração de equipamentos), metódica (para ser capaz de seguir o planejamento à risca, com um mínimo de surpresas), com as condições financeiras para investir em equipamento, viagens, gases e treinamento), com uma atitude positiva (de forma a tomar decisões seguras e rápidas) e finalmente com boa forma física e mental (que são condições indispensáveis à segurança na atividade).
Se o mergulhador não possui todas essas características, talvez seja melhor não prosseguir na atividade. Porém aqueles que se considerarem aptos, devem estar dispostos a uma mudança de postura completa em relação ao mergulho, que não será mais uma atividade recreacional, e sim um estilo de vida.

Ricardo Santos
É diretor de uma multinacional no Brasil e mergulhador desde 1995.
Mergulhador Técnico Trimix e de Caverna, tendo visitado inúmeros países do mundo ao longo dos anos. Durante alguns anos residiu nos Estados Unidos e Europa, o que possibilitou viajar e conhecer inúmeros destinos.
Com fluência em cinco línguas distintas, isso ampliou as possibilidades no conhecimento das diferentes culturas e aspectos dos países que conheceu.



