Procurar naufrágios não é pra qualquer um. É preciso ter disciplina, conseguir tempo e passar longas horas pesquisando em bibliotecas por aqui e em sites no exterior, e fazia sempre isso quando ainda residia no Rio de Janeiro e, em muitas ocasiões, nas horas de almoço me dirigia até a Biblioteca Nacional para solicitar as bobinas de slides e passar um bom tempo olhando eles, passando página por página à procura de informações que trouxessem mais detalhes sobre antigos naufrágios ocorridos em nossa costa.
Atualmente isso já não é necessário, pois com a disponibilização de muitos jornais antigos no próprio site da Biblioteca Nacional, é possível realizar uma busca por palavras, acelerando muito as buscas, e as chances de encontrar as informações tão desejadas, ficaram bem mais fáceis. A tecnologia OCR chegou e facilitou muito, pois ela identifica os caracteres em páginas escaneadas, e permite a realização de buscas por palavras em um grande banco de dados.
No passado a troca de informações era imprescindível, mas infelizmente o número de pessoas que realizavam essas pesquisas era bem reduzido, e pra piorar, uma boa parte delas não trocava informações, e muitas vezes, preferiam esconder os dados. Algumas por puro ego, outras, por interesse financeiro.
Um dos motivos que me levaram a criar o Brasil Mergulho foi de fato, tentar reunir o máximo de informações sobre naufrágios e disponibilizá-los de forma gratuita em um site, para que alguma forma, a informação sobre eles fosse preservada e repassada de mergulhador para mergulhador, mas o simples fato de divulgar a localização dos naufrágios chegou a criar alguns transtornos, pois aqueles que preferiam não divulga-los ficaram bem incomodados, afinal de contas, com o surgimento do GPS, muitas vezes os mergulhadores não dependiam mais dessas pessoas para serem guiadas até os navios afundados.
É claro que buscar por informações e efetivamente sair pelo mar navegando sem destino e ficar realizando varreduras é coisa para poucos, pois além do tempo, é trabalhoso e caro. Já perdi as contas da quantidade de vezes que sai para o mar com amigos em busca de naufrágios, mas apesar das dificuldades, as buscas renderam bons achados, como o Rio Anil, o Uruguay, Imperial Marinheiro e o famoso CT Paraíba. Todos eles tiveram suas marcas divulgadas aos mergulhadores para que todos também pudessem ter o prazer de visitá-los.

Egos inflados
Um lado parte negativo quando o assunto são os naufrágios, é o aspecto “ego”. Alguns poucos guardam as marcas de GPS como se fosse “ouro” e tratam o assunto como um “segredo do século”, onde ninguém, além deles, pode saber onde o navio está. Já vi instrutor de mergulho publicando marcas incorretas para que ninguém fosse até o local. Em alguns casos, o naufrágio estaria em cima de uma montanha !
Há também aqueles que dizem ter achado um naufrágio, mas nunca leva ninguém até o local.
Hoje com o Google Earth e a marcação GPS em mãos, rapidamente é possível ter uma ideia do local onde o naufrágio estaria, mas no passado a coisa era complicada, e já vi muita gente indo nas marcas de GPS e não encontrando nada, pois simplesmente a marca errada era divulgada como correta, enganando muitos mergulhadores.
Obviamente existe um interesse financeiro na visitação de naufrágios, seja porque a pessoa é efetivamente um pirata e busca obter os objetos afundados de forma ilegal. A subtração de objetos dos naufrágios é considerada um crime militar ou federal, dependendo que o naufrágio se encontra no local, e infelizmente sabemos de alguns casos de gente não divulgando a localização real por segundas intenções, o que é uma pena.
Algum tempo atrás um grupo de mergulhadores encontrou um naufrágio por indicação de pescadores e até hoje a marca correta não foi informada, pois circula a informação de que quando podem, vão até o local fazer saques do que restou do acidente.
Aos mergulhadores do bem, procurem adotar o meu lema:
Aliás, quem me conhece bem sabe do meu lema: “Naufrágio encontrado é naufrágio com marca divulgada”.
Assim, que o encontrou terá os méritos e certamente irá agradar toda a comunidade de mergulho.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



