Naufrágio Príncipe de Astúrias e os gritos durante o mergulho

Foto: Clécio Mayrink

Quando mergulhamos em um naufrágio, muitas vezes presenciamos algumas cenas um tanto “fantasmagóricas”, com todo aquele amontoado de ferros retorcidos embaixo d’água, e o Astúrias não é diferente.

Mergulhar nele não chega a ser tão fácil, pois ele se encontra na parte de fora da Ilhabela, sendo um local com fortes correntes e baixa visibilidade, normalmente girando em torno de 1 a 3m no máximo.

O dia do mergulho

Após alguns cancelamentos devido às condições de mar, finalmente estávamos lá, um grupo de mergulhadores técnicos com toda a tranqueira necessária para um mergulho profundo, longo e descompressivo naquele naufrágio.

O mergulho foi planejado para a profundidade máxima, algo em torno dos 52m, logo, levávamos cilindros duplos com mistura Trimix e dois stages, sendo um deles de O2 e o outro com EAN 50 para a descompressão.

Embarcação poitada, iniciei o mergulho com meu dupla descendo bem devagar e tomando todo o cuidado para não bater com a cabeça em alguma ponta de ferro do naufrágio, coisa fácil de acontecer por lá. À medida em que descíamos a visibilidade começou a diminuir cada vez mais, até que num determinado ponto ela chegou à zero. Mal conseguia enxergar meu próprio computador praticamente colado na minha máscara de mergulho.

Devido ao imprevisto, resolvemos sair dos 25 e retornamos para a faixa dos 18m de profundidade, onde havia em torno de 1m de visibilidade.

Além de querer conhecer o naufrágio, descemos também com intuito de tentar encontrar algum objeto. Começamos então a procurar por algo, gastando Trimix nos incríveis 18m de profundidade. Um absurdo total.

Enquanto estava lá olhando um objeto, me ocorreu um fato estranho, aliás, surreal. Repentinamente me veio na cabeça um grito estridente de uma mulher. Imediatamente parei por alguns instantes o que estava fazendo e pensei: escutei algo ?  Haaa, não foi nada.

Voltei a observar o objeto e pouco tempo depois ouço novamente aquele grito estridente inesquecível, e gelei na mesma hora !

Era tão real e tão próximo de mim !   Era um grito de uma mulher em desespero !

Tenho como religião o catolicismo, mas com um lado espírita, e estando aos 18m com Trimix, sabia que não havia a menor possibilidade de estar narcosado. Aliás, nem se estivesse usando ar comprimido, então tinha a certeza de que havia escutado algo e que havia me incomodado bastante.

Logo em seguida nadei uns 2m para frente e parei ao lado do meu dupla, que me olhou achando estranho e perguntou se estava tudo ok. Pouco tempo depois, escutei pela terceira vez aquele grito de desespero !

Bati no braço do meu dupla e perguntei se estava escutando algo, ele disse que não, e naquele instante tive plena certeza de que algo estava acontecendo, e pra mim, o mergulho já tinha sido dado como encerrado.

Posteriormente realizamos a descompressão e finalizamos o mergulho. Meu dupla que é médico e não acredita em nada do tipo “sobrenatural”, obviamente não acreditou no que relatei e ainda tive que escutar as brincadeiras.

Outros relatos

Retornei para a minha cidade e dias depois conversando com uma amiga bem relacionada no mercado do mergulho, acabei relatando o fato pelo qual havia passado, foi quando ela acabou contando outros relatos de mergulhadores que também tiveram experiências desse tipo.

Gritos, visões esbranquiçadas, cutucadas e puxões, foram relatados por vários mergulhadores experientes e que estiveram no Astúrias, mas que não relatam abertamente aos demais, pois sabem que grande parte irá levar esses relatos na brincadeira e gozação.

O retorno

O Príncipe de Astúrias é um local onde morreram muitas pessoas.

Oficialmente seriam aproximadamente 432 pessoas registradas, mas alguns documentos afirmam que haviam aproximadamente 1.000 passageiros, sendo a maior partes clandestinos fugindo da guerra e que morreram por afogamento, pois se encontravam nos porões inferiores do navio no momento da colisão contra a Ilhabela, sendo as primeiras vítimas das áreas alagadas pelo rombo no casco. Uma fato triste e terrível.

Após a primeira experiência nesse naufrágio, tinha colocado pra mim que não retornaria mais lá, mas quase 10 anos depois, um amigo do mergulho me perturbou bastante pra voltar com um grupo de mergulhadores técnicos. Ele falou tanto na minha cabeça e acabei topando.

Estava tudo programado e organizado para um mergulho num sábado, até que um dia antes, os cilindros duplos que alugaria de um centro de mergulho apresentou um defeito no manifold, deixando escapar todo o Trimix. A pick-up que nos levaria quebrou, meu dupla foi parar no hospital com um trauma no braço e o terceiro mergulhador teve um problema de saúde familiar.

E você acha que acabou ? Não… o barco também quebrou e outros mergulhadores tiveram alguns problemas pessoais.

Depois desse dia, tomei pra mim que voltar ao Astúrias é uma coisa que irá acontecer mais.

Energia ruim e seus mistérios

Anos depois, um amigo instrutor que tem como religião o espiritismo e sendo um profissional bem conhecido do mercado de mergulho, também esteve no local com uma turma de mergulhadores técnicos de outra capital. Ele desceu para fazer a amarração da embarcação e, segundo ele, a energia do local seria tão negativa e pesada, que acabou retornando para o barco e não mergulhou mais.

Tempos depois, um conhecido documentarista brasileiro foi contratado para realizar uma filmagem para uma TV espanhola, onde as imagens seriam usadas em um documentário para lembrar os 100 anos da tragédia do Príncipe de Astúrias.

Ele só conseguiu mergulhar na terceira tentativa e quando entrou na água juntamente com os demais, não acreditavam no que viam. Uma visibilidade de uns 12m, mar parado e um dia mais que perfeito de mergulho. Era como se o naufrágio soubesse que a filmagem seria para lembrar da tragédia e permitisse que tudo fosse registrado em vídeo.

Nem os mergulhadores da operadora acreditavam no que viam, pois jamais haviam pego um mergulho naquele local com tais condições.

Já mergulhei em inúmeros naufrágios, sendo que num deles há nove mortos em seu interior, e jamais tive problemas com isso. Dizer quer mergulhei sugestionado ou coisas do tipo, seria um engano e posso garantir que não foi o caso, mas pelo menos pra mim, uma coisa é certa… sei bem o que passei e que aquele local é diferente e merece respeito.

E você, toparia ir lá ?

Por:
Anônimo

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