Naufrágios – Aprofundando no Assunto – Parte 1

Sempre digo que mergulhar em um naufrágio natural é se aprofundar em um fato histórico. É um misto de curiosidade e algo meio sinistro algumas vezes. Atualmente também temos muitos afundamentos propositais, cujo objetivo é a criação recifes artificiais, mas a grande maioria dos naufrágios em nossos mares ocorreram por algum problema que acarretou em acidente.

Eventualmente vejo algum mergulhador comentar que não curte mergulho em naufrágio, chegando a dizer, que “naufrágios são um amontoado de ferro retorcido”, e coisas do tipo. Em geral, mergulhar em um naufrágio é presenciar uma parte da história marítima, seja no Brasil ou em qualquer outro país.

Uma das vantagens dos amantes da história marítima é a possibilidade de ver de perto o naufrágio através do mergulho, e para isso, o estudo sobre as técnicas de mergulho em naufrágios e o conhecimento sobre os próprios naufrágios, são de extrema importância, pois além de ampliar os conhecimentos técnicos, tornará o mergulho muito mais seguro e com melhor aproveitamento, pois o mergulhador terá um controle melhor dos mergulhos e saberá reconhecer as áreas do naufrágio, até porque sabemos que tudo que afunda, acaba sofrendo alterações provocadas pelo meio ambiente, e tais alterações muitas vezes dificultam a compreensão das partes de um naufrágio.

 

Aspectos importantes

Ao longo dos mais de 30 anos de mergulho, tive a oportunidade de conhecer diversos naufrágios no Brasil e no exterior, o que me trouxe mais conhecimento sobre o assunto.

Alguns anos atrás fui colaborador do Manual de Mergulho em Naufrágios da PDIC e fui integrante do grupo Wreckfinder, no Rio de Janeiro, cujo propósito era tentar encontrar alguns naufrágios ao longo da costa, sendo o principal alvo o submarino U-199. Ao longo das buscas, nossas saídas resultaram no encontro do famoso contratorpedeiro CT Paraíba, que se não for o maior naufrágio atualmente localizado e identificado no país, certamente está entre os três. Além deste, alguns outros como o LCT Rio Anil e o cargueiro Uruguay, foram alguns dos achados dentre os quais fui integrante da equipe.

Logicamente participei de muitas buscas e mergulhos que não tiveram êxito, e tirando um pouco dessas experiências, tentarei passar um pouco do dessa experiência em forma de artigos, abrangendo os temas abaixo:

  • Um naufrágio e uma história
  • Tipos de Naufrágios
  • Análises de Acidentes
  • Buscando por informações sobre naufrágios
  • Equipamentos para busca
  • Encontrando naufrágios
  • Partes e estruturas dos naufrágios
  • Avaliação estrutural e acomodação dos destroços
  • Mapeando e Marcando Naufrágios
  • Identificação de um naufrágio
  • Treinamento – Configuração de Equipamentos e Riscos
  • Importância na divulgação da marca
  • Legislação
  • Remoção de objetos dos naufrágios

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Um naufrágio e uma história

Todo naufrágio tem uma história, seja ele artificial ou não. Alguns deles com histórias simples e sem muitos detalhes, mas outros, com fatos importantes, mistérios, caos, situações empolgantes, tristes ou curiosas.

Em geral, quando o navio afunda propositalmente, a história envolvida reflete o passado da embarcação, a sua atuação durante o período em uso e os motivos que o levaram ao afundamento. Isso ocorre principalmente com os navios de guerra afundados para a criação de recifes artificiais, sendo muito comum nos Estados Unidos. Aliás, acredito que os americanos tenham o maior número de embarcações de guerra afundadas propositalmente, sendo que muitas delas chegaram a participar da Segunda Guerra Mundial.

Ao mergulhar nesses naufrágios temos a chance de conhecer e imaginar tudo aquilo que a embarcação passou, inclusive nos momentos difíceis da guerra. A curiosidade do tipo “o que será que aconteceu aqui ?”, sempre surge em nossas mentes.

Já os naufrágios ocorridos por acidente, a situação muda, porque você está mergulhando em um ambiente não preparado para o turismo de mergulho, havendo mais riscos e obrigando o mergulhador a estar bem mais atento para alguns aspectos que normalmente não encontramos nos naufrágios artificiais, que são preparados para a visitação dos mergulhadores e permitindo a penetração nos compartimentos e sair com tranquilidade. Nos naufrágios artificiais sempre são adotadas saídas de escape, para serem usadas em uma eventual situação de emergência, permitindo o mergulhador alcançar a superfície com facilidade.

Já os naufrágios por acidente envolvem muitas vezes situações catastróficas, elevando muitas vezes a adrenalina do mergulhador, porque ele não sabe o que pode acabar encontrando, aspecto comum em naufrágios de grande porte e estando em grandes profundidades. Nesses naufrágios a imaginação do mergulhador vai longe, fazendo com que ele reflita como foram os últimos momentos antes do afundamento e coisas do tipo.

Alguns naufrágios podem revelar aspectos importantes com fatos até então não solucionados. Lembro bem sobre um fato relacionado ao naufrágio Wakama, naufragado nas proximidades da cidade de Rio das Ostras, no Estado do Rio de Janeiro, e que acarretou numa invasão de militares ao edifício do Deutsche Bank (Banco alemão) no Rio de Janeiro, e ninguém tinha ideia dos motivos daquela ação. Outro fato, por exemplo, sobre o navio Santa Catharina em Abrolhos, estar levando grande quantidade de munição envida pelos americanos ao Brasil, anos antes do Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial… e por aí vai.

Há casos em que pequenos vilarejos receberam os nomes de naufrágios que ocorreram nas proximidades, e com o passar do tempo, o vilarejo se tornou uma cidade e mantendo o nome do naufrágio.

Aliás, houve um caso envolvendo um naufrágio que poderia alterar a história do descobrimento Brasil, e por um grande medo (literalmente) dos governos, o assunto foi abandonado e abafado.

Enfim, são histórias, mistérios e fatos que surgem quando um naufrágio é encontrado, e quando mergulhamos neles e estudamos mais profundamente o assunto, um aspecto puxa outro, e criam para aqueles que curtem histórias, um grande vício, afinal de contas, são fatos históricos e que poucas pessoas normalmente sabem.

Quando nos aprofundamos nos fatos envolvendo naufrágios, passamos a conhecer mais sobre o estilo de vida de nossos antepassados e aspectos que nem imaginávamos.

Em breve, estarei publicando a parte II e começando a abordar o assunto mais tecnicamente.

Continuação – Parte 2 >

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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