O segredo do tesouro submerso

Foto: Joaquim Jamanta - Arquivo Pessoal

Publicação original: Revista O Cruzeiro – (1975)

Por volta de 1850, numa noite marcada por relâmpagos e trovões, um galeão inglês foi a pique envolto no mar de chamas há uns 100m da costa da Ilha Grande, na Baía de Angra dos Reis a noite era tão tenebrosa que toda a população local trancou-se em suas casas, apavorada, julgando estar próximo o “fim do mundo”.

Um jovem pescador, entretanto, preferiu ficar na praia, em frente ao seu casebre, testemunhando aquela obra de Deus. E guardou para sempre a visão daquele colosso de madeira balançando sobre as águas como se fosse de brinquedo, as grandes velas se rasgando como papel, os marinheiros gritando desesperadamente e se atirando ao mar, as explosões sucessivas, o casco sendo engolido rapidamente.

Joaquim Jamanta se preparando para o mergulho no Califórnia – Arquivo Pessoal

Muitos anos depois, os netos desse pescador ouviram dele a fantástica história da noite em que o galeão afundou. E até hoje costumam contá-la a quem ainda se interessa por histórias de piratas e fabulosos tesouros submersos. Joaquim Camargo Costa, advogado que abandonou a cidade e se tornou pescador em Angra dos Reis, foi uma dessas pessoas.

Fascinado por pesquisas Submarinas, Joaquim conhece quase todas as embarcações afundadas do litoral de Cabo Frio ao de Angra ficou empolgado quando, em janeiro último, numa conversa com pescadores da região, sob do galeão, cuja existência não consta dos anais da Capitania dos Portos, reconhecidamente completos. No dia seguinte, pegou sua lancha e iniciou sozinho à caça ao que, passado mais de um século, não seria mais do que escombros de madeira carcomida e envolvida por uma grossa camada de calcário marinho. Após dezenas de mergulhos frustrados, Joaquim finalmente viu comprovada a história dos pescadores: a 16m de profundidade totalmente coberta pela areia, jazia a carcaça do velho galeão.

Como todo bom mergulhador, Joaquim guardou segredo em torno de sua descoberta, pois existe rivalidade entre os chamados arqueólogos submarinos. As expedições funcionam na base do quem achar é dono e é comum que nem a própria capitania seja avisada nessas ocasiões. Pelas leis brasileiras, qualquer pessoa tem direito a metade do que descobrir no fundo do mar traço a outra metade pertenceria ao governo. Mas a possibilidade de encontrar uma partida de barras de ouro é tão sedutora que ninguém pensa em comunicar nada a quem quer que seja.

Local do afundamento do Califórnia – Foto: Joaquim Jamanta – Arquivo Pessoal

Dois meses após a descoberta, entretanto, a hipótese da existência de tesouros no interior do galeão está praticamente afastada. Do ponto de vista histórico, Joaquim acha que seu trabalho foi recompensado. Pois havia jogos de louças chinesas e inglesas, todos quebrados. E os porões estavam repletos de caixote de espingardas do tipo pederneira da marca Lacy e Co., London, em estilo quase artesanal.

Também foram encontrados dedais de metal, botões de ossos, fechaduras, lousas de pedra, balas de canhão, um cadinho e uma tigela de Grafita usada na fundição de ouro. Mas não havia qualquer objeto de ouro. Explica Joaquim: “É provável que o ouro existisse em forma de pepitas e, assim, já estaria completamente envolvido pelo calcário, tornando-se impossível distinguir o de uma pedra.”

De acordo com as características do material, Joaquim supõe que o naufrágio se deu por volta de 1850, quando a pirataria grassava em toda a costa. E que não está afastada a hipótese de que o Galeão tenha travado batalha com algum navio pirata e, levando a pior, procurando refúgio na Bahia de Angra dos Reis. De qualquer forma, todos os objetos encontrados tem um destino: serão leiloados brevemente. Joaquim acredita que os lances pelas peças não cheguem a 10.000 cruzeiros.

Poderiam valer mais se a descoberta de galeões circulares não fosse tão comum. o próprio Joaquim já colheu material de quase 100 navios afundados no século passado.

Um dos casos mais célebres foi o do navio Thetis, também inglês, que transportava ouro sul-americano para Londres e afundou no Arraial do Cabo em 1830, atraído por pequenas explosões feitas pelos piratas para confundir e atrair as embarcações à deriva

Artefatos recuperados – Foto: Joaquim Jamanta

Trinta anos depois, um comandante da Marinha inglesa localizou os destroços do navio e recuperou 90% do ouro. O resto da carga foi disputado avidamente por dezenas de outros mergulhadores, extasiados pelos lances mirabolantes do resgate: dizem que o comandante Dickson enfiou o braço até o ombro nas montanhas de moedas de ouro.

Além dos Thetis, há segundo Joaquim outros 300 veleiros estrangeiros afundados na costa brasileira, um total só superado pelo do litoral das Antilhas, o paraíso dos mergulhadores. Mais, no Brasil, as dificuldades são bem maiores, devido à falta de equipamentos adequados. “Resgate são feitos no peito e dependem muito da sorte. Às vezes, ficamos sabendo que as redes dos pescadores se enroscam diariamente em determinado ponto no mar. Essa é uma das pistas. A outra é mais rara: pode brotar uma vegetação marinha específica da madeira carcomida e cheia de areia. Mas em qualquer circunstância, a sorte é o elemento principal” – Explica Joaquim.

Espingarda pederneira recuperada – Foto: Joaquim Jamanta

Apesar das dificuldades, Joaquim e outros arqueólogos prosseguem suas pesquisas com aparente interesse histórico. Mas, no fundo, há o sonho alimentado durante anos: encontrar uma arca cheia de ouro, como nos filmes de piratas. Até hoje, as histórias de reluzentes tesouros pouco foram além da lenda e a mais fascinante delas continua a 100m de profundidade no Cabo São Tomé, perto de Campos. Ali, talvez no século 18, teriam naufragado em batalha 16 galeões ingleses, cheios de ouro. Até o famoso comandante francês Jacques Yves Cousteau participou da corrida ao ouro há menos de 10 anos, com seu moderníssimo mini-submarino movido à bateria. Não encontrou qualquer pista dos galeões, mas ajudou a manter a lenda viva. E é disso que vivem os mergulhadores.

Colaboração: Cézar Catapreta (Escola Scubalab)