Por que alguns acidentes com mergulhadores acontecem ?

Algum tempo atrás, uma conhecida agência realizou a análise de 1.000 acidentes com mergulhadores para determinar quais circunstâncias e eventos que ocasionaram as mortes.

Nessa longa análise os resultados finais foram esses:

  • Falta de gás: 41%
  • Ficou preso: 21%
  • Falha no equipamento: 15%
  • Mau tempo: 10%
  • Trauma: 6%
  • Flutuabilidade: 4%
  • Gás inapropriado: 3%

 

Falta de Gás

O maior percentual de mortes está relacionado à falta de gás, mas como imaginar problemas com a falta de gás embaixo d’água nos dias de hoje ?

Os manômetros são precisos e mais resistentes que os modelos antigos, além de raramente apresentarem algum tipo de problema. Além disso, encontramos muitos computadores que auxiliam o mergulhador no gerenciamento do gás. Logo, tudo aponta para um mau gerenciamento feito pelo mergulhador. O famoso “vamos só até ali que vai dar tempo”, e acaba não dando.

Mergulhadores precisam seguir regras e estar atentos ao gás durante todo o mergulho e realizar um planejamento dentro da sua capacidade. Ele deve planejar com sua dupla o que será realizado e cumprir o planejado.

Mergulhadores de cavernas usam a regra do terço, utilizando 1/3 do gás para entrar na caverna e outro 1/3 para sair dela, sobrando 1/3 para uma eventual emergência. Isso pode parecer conservador para o mergulho em águas abertas, mas a ideia de ter uma reserva significativa para emergências ou circunstâncias inesperadas é absolutamente relevante, pois qualquer contratempo durante o mergulho poderá colocar todos sob risco.

Mergulho sob teto

O aprisionamento foi considerado o segundo aspecto com maior número de acidentes, onde mergulhadores por ficaram presos em ambientes com restrições e não tiveram a capacidade de retornar à superfície.

Um ambiente com teto é qualquer local que não permite o acesso direto e vertical até superfície, como uma grande pedra, caverna, naufrágio ou gelo. Todas as certificadoras fazem alertas aos mergulhadores sobre os perigos de entrar nesses ambientes sem o treinamento e experiência adequada, sem contar, com a falta de planejamento e equipamentos apropriados para tal, onde a forma mais simples de eliminar esse tipo de risco é simplesmente não entrar em um ambiente com teto, independente de quem esteja guiando e sua experiência como guia.

Falhas no Equipamento

O terceiro aspecto foram falhas nos equipamentos de mergulho.

Equipamentos de qualidade são testados exaustivamente e raramente dão problemas. Quando dão, normalmente é por mau uso ou falta de manutenção adequada.

Segundo um dos investigadores, em 100% dos casos não foi possível atribuir a falha do equipamento por falha na fabricação ou qualidade do produto. O mau uso e a falta de manutenção recaem sobre o mergulhador como o causador do fato.

Infelizmente muitos mergulhadores não procuram treinar, ler e compreender o equipamento adquirido, além de dar toda a atenção necessária para a utilização correta. Pior, poucos se preocupam em manter a manutenção dos equipamentos em dia, acreditando que os equipamentos são eternos. Certamente os equipamentos de mergulho são de altíssima qualidade e resistência, mas como tudo na vida, eles possuem um tempo de vida útil.

Foto: Clécio Mayrink

Aspectos importantes e que aumentam a segurança dos mergulhadores

Treinamento

As pessoas que realizam mergulhos com frequência, devem aproveitar as oportunidades para aprender mais, treinar e trocar experiências.

Procure ler os artigos disponibilizados aqui no Brasil Mergulho, converse com instrutores das escolas e mergulhadores experientes, pois certamente você vai ampliar seus conhecimentos e estará sempre aprendendo algo novo.

Praticar

As habilidades de mergulho e do gerenciamento de emergência exigem treino e reforço constante. Refresque suas habilidades com frequência, principalmente se você mergulhou meses atrás.

Procure familiarizar-se com novos equipamentos em ambiente controlado antes de utilizá-lo em águas abertas. Embora a prática não o torne perfeito, essa atitude vai ajudar a tomar decisões corretas e gerenciar melhor os problemas de forma adequada, ao invés de simplesmente tentar escapar para a superfície.

Experiência

O valor da experiência não pode ser exagerado. Mergulhadores com experiência limitada, inclusive aqueles que retornam ao esporte após longa ausência, estão em maior risco.

De acordo com os dados de mortalidade informados pela instituição responsável pela pesquisa, 88% dos mergulhadores morreram no primeiro mergulho do dia.

Considere que o número de mergulhos no seu diário de bordo ou data do seu cartão de certificação, não o qualifica automaticamente para maiores desafios. Para realmente estar preparado para um mergulho mais avançado, o processo deve ser lento e metódico, pois há um aumento na complexidade e execução de tarefas nos mergulhos mais avançados.

Expanda seus horizontes gradualmente, certificando-se de que você não excede seu treinamento e nível de conforto. A certificação não é a mesma coisa que proficiência.

Saúde

Aproximadamente 1/4 das mortes estudadas envolvem problemas cardíacos.

Surpreendentemente em 60% dos casos com envolvimento cardíaco, os mergulhadores apresentavam sintomas como falta de ar, dor torácica ou fadiga, mas foram mergulhar de qualquer forma.

A maioria dos mergulhadores tem consciência da importância da boa saúde geral e da aptidão para o mergulho, mas o conforto e o bem-estar no momento do mergulho também são importantes. Se você não está se sentindo bem até a hora de mergulhar, não mergulhe.

A maioria dos casos envolvendo problemas cardíacos foram associados à condição pré-existente ou idade superior a 40. É uma boa ideia para todos aqueles com idade acima dos 35 anos, é realizar um check-up anual. Em São Paulo, por exemplo, há um atendimento gratuito pela UNIFESP (Leia aqui o artigo)

Preparação do Mergulho

À medida que você se prepara para mergulhar, é uma boa recomendação que você e seu amigo, configurem e montemos equipamentos juntos, pois isso permitirá que você possa identificar qualquer coisa que pareça estranha ou fora de lugar. Isso também oferece uma oportunidade de se familiarizar com o equipamento do seu dupla.

Se for sair embarcado, é recomendável preparar o material antes que a embarcação saia do píer, principalmente se você tem problemas com enjoo. Montar os equipamentos em mar agitado e estando enjoado, aumenta a probabilidade de erros potencialmente perigosos.

Antes de mergulhar, reveja seu plano de mergulho com seu dupla para garantir que você tenha a compreensão compartilhada dos objetivos do mergulho.

Estabeleça um plano B, imaginando que qualquer pessoa pode terminar o mergulho a qualquer momento e por qualquer motivo, até mesmo antes do início do mergulho e sem repercussões, criando um ambiente em que os mergulhadores se sintam confortáveis​, além de criar uma cultura de segurança.

Desenvolva e reforce continuamente um ritual pré-existente. Faça verificações de equipamentos, revisão do plano de mergulho, revisão do sinal manual, revisão do protocolo de separação entre mergulhadores e revisão de gás.

Isso pode parecer desnecessário se você mergulhar com as mesmas pessoas com regularidade, mas são bons rituais, geram confiança e reduzem a probabilidade de você não estar preparado para algo inesperado.

O uso de uma lista de verificação para ajudar neste ritual é recomendado. Nunca diga: “Não se preocupe, eu cuidarei de você”. Isso pode significar que um dos mergulhadores não é tão qualificado ou preparado para o mergulho como deveria ser, sendo uma fórmula para o desastre. Qualquer um que mergulhe, deve estar totalmente preparado e porque deseja mergulhar, não porque o outro quer.

O Mergulho

Estando na água, verifique o equipamento do seu dupla se está tudo OK e no lugar. Se não há vazamentos e que a flutuabilidade esteja devidamente ajustada.

Dê e receba o sinal OK para começar com uma descida controlada.

Mantenha atenção constante ao ambiente durante o mergulho e saiba quando finalizar (chamar) um mergulho. É sempre sábio planejar seu mergulho e mergulhar como planejado, mas você pode modificar seu plano de mergulho se as condições exigirem uma abordagem mais conservadora. Se o mergulho passar a ter condições mais difíceis do que o previsto, esteja atento ao consumo de gás e profundidade.

O ritmo de natação deve ser ditado pelo mergulhador mais lento do grupo. Nunca assuma que outro mergulhador possa acompanhar você.

Se você estiver mergulhando em um grupo de três e um mergulhador decide retornar à superfície, termine o mergulho como grupo ou acompanhe o mergulhador de volta ao ponto de saída, certificando que ele está saindo da água antes de continuar o mergulho.

Conclusão

A análise inicial de acidentes com mortes de mergulhadores indica que o mergulho recreativo é intrinsecamente perigoso ?

Não. Existem milhões de mergulhadores certificados que realizaram dezenas de milhões de mergulhos seguros e divertidos sem incidentes, mas você deve considerar que existe risco em qualquer coisa que você faça.

Sempre haverá um grau de risco no mergulho, mas é um risco que podemos identificar e aprender a gerenciá-lo.

O mergulho autônomo é um esporte fantástico, sendo apreciado por pessoas de todas as idades, mas sempre devemos ter como foco, maximizar o prazer e minimizar o risco. Você supera os desafios da água tendo uma preparação adequada, boa capacidade física, aplicação efetiva de conhecimento e tendo habilidade necessárias para a atividade.

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount IANTD, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho, fotografia e vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, sendo o idealizador do portal Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP).

Atuou na produção de diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência para a mídia, órgãos públicos no país e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO, quando o assunto é mergulho em naufrágio.

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