No Brasil, raramente escutamos alguém comentar sobre o congelamento de reguladores, pois felizmente nossas águas não tem temperaturas tão baixas como em alguns países do hemisfério norte.
Mas por que um regulador pode congelar em águas com temperatura beirando os 10°C ?
Há muitas variáveis que determinam o congelamento de um regulador quando utilizado em águas fria incluem pressão do tanque, taxa de respiração/fluxo, tempo de mergulho, design do registro e temperatura da água, diz Mike Ward, presidente de um centro de testes de equipamentos de mergulho nos Estados Unidos.
A pressão do cilindro e a taxa de fluxo do gás, são fundamentais, porque atuam juntas para deixar o regulador mais frio. À medida que o ar flui do cilindro através do primeiro estágio do regulador e a pressão cai, o gás rapidamente se expande e esfria. Quanto maior a queda de pressão e maior o fluxo, mais frio fica, e quanto maior o tempo de mergulho, mais frio o regulador pode ficar.
O design do regulador é importante, porque os primeiros estágios com mais massa e área de superfície, podem extrair melhor o calor da água. Segundos estágios que isolam a área da válvula de entrada gelada do ar úmido exalado e que possuam no projeto de exaustão, a redução da entrada de água, podem ajudar a evitar o congelamento.
O papel da temperatura da água é um tanto contra-intuitivo, porque é a capacidade de aquecimento da água que evita que o regulador congele, e por isso que os treinamentos enfatizam a não respirar através do regulador acima da superfície, quando a temperatura do ar estiver abaixo de zero, pois isso possibilitará um congelamento mais rápido.
“Na verdade, a água é sua amiga, mas quando a água fica abaixo de 5°C, ela não tem calor suficiente para aquecer o regulador tão rápido quanto pode ser resfriado”, diz Ward.
Há uma variedade de formas para a possibilidade de falha do regulador. O gelo na válvula de entrada do segundo estágio, pode bloquear o fechamento da válvula após uma inspiração. O gelo espesso ao redor do primeiro estágio pode bloquear o fluxo de água para o diafragma ou portas, causando um fluxo livre.
Mas quanto mais fria a água, mais rapidamente as coisas podem dar errado.
Em um teste no Dive Lab, um regulador apropriado para águas frias foi inserido em um simulador, onde a temperatura da água atingiu 3°C, e após alguns poucos minutos de respiração pesada (25 grandes respirações por minuto) e pressão do cilindro a 3.000 PSI, o a temperatura atingiu cerca -19°C no primeiro estágio e -3°C entrando no segundo estágio., e em pouco tempo, o gelo estava se formando no primeiro estágio.
Com 10 minutos de teste, enquanto o gelo crescia em torno do encaixe da mangueira do segundo estágio, foram feitos alguns procedimentos, dentre os quais, normalmente não são recomendados nos cursos de mergulho no gelo.
Pressionar o inflador do colete equilibrador por cinco segundos, fez com que a temperatura do primeiro estágio caísse quase instantaneamente para cerca de -12°C. Um único acionamento da purga por cinco segundos, foi o suficiente para enviar a temperatura do primeiro estágio abaixo de -26°C e o segundo estágio abaixo de -17°C.
Vale ressaltar, que nos testes, o regulador estava logo abaixo da superfície da água. Mas, como a pesquisa de Ward mostrou, o efeito de resfriamento é ainda maior e mais rápido, em profundidades maiores, por causa do aumento da densidade do ar, e apesar dos reguladores projetados atualmente serem mais resistentes ao congelamento, ainda segundo Ward, os mergulhadores devem compreender que em águas geladas, forças físicas poderosas estão trabalhando no time contra.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



