O número de corais com branqueamento anda aumentando, e segundo os pesquisadores, um dos fatores é o uso do protetor solar.
Os recifes de corais são as maiores construções biológicas do mundo e estão entre os ecossistemas mais belos do planeta. Eles abrigam uma grande parte da biodiversidade do oceano e são extremamente valiosos para os humanos, bem como para o turismo, quanto para o sustento das populações costeiras.
Eles são o resultado do crescimento lento e progressivo, de corais duros, demorando décadas ou séculos para se transformarem em grandes recifes.
Os corais crescem por meio da atividade de pequenas algas que vivem dentro dos tecidos dos corais e fotossintetizam a luz do sol. Os corais protegem as algas e fornecem amônio. As as algas por sua vez, liberam açúcares e outros nutrientes orgânicos que os corais usam como alimento.
Essas algas microscópicas e pigmentadas, conhecidas como zooxantelas, também provém a cor aos corais. A simbiose com essas algas é obrigatória para os corais tropicais. Se as algas morrem ou são ejetadas dos corais (um fenômeno conhecido como branqueamento de corais), os corais morrem quase que instantaneamente e, na maioria dos casos, sem chances de recuperação.
A perda desses simbiontes de algas significa a perda do “motor” que produz o alimento dos corais, e os corais se tornam imediatamente vulneráveis.
O risco do Protetor Solar
Muitos fatores ameaçam os corais, incluindo danos físicos causados por ancoragem, pesca com explosivos, aquecimento excessivo da superfície do oceano e poluição.
Recentemente, um novo aspecto chamou a atenção dos cientistas em todo o planeta, e o protetor solar foi adicionado como uma nova ameaça à lista das 10 maiores ameaças aos recifes de corais ao redor do globo.
Investigações científicas conduzidas em vários recifes ao redor do mundo, como Caribe, Fiji, Mar Vermelho e Indonésia, indicam que os efeitos são quase imediatos e geralmente levam à morte dos corais em 48 horas.
O protetor solar é comercializado deve ser comprovado ser dermatologicamente seguro e ter uma capacidade real de proteger a pele da luz UV, mas em geral, não está sujeito a nenhuma regulamentação ambiental. Alguns países iniciaram alguns procedimentos para a proibição quanto ao uso do protetor solar em alguns locais. O México, por exemplo, proibiu o uso de protetor solar nos cenotes, muito populares entre os turistas.
Estudos alertam
Uma equipe de pesquisa da Universidade Politécnica de Marche em Ancona, Itália, testou vários tipos de protetor solar, e todos tiveram impactos significativos na vida marinha, especialmente alguns tipos de protetor solar que alegam estarem seguros contra impactos aos corais, por serem “biodegradáveis”.
Esses produtos confundem os consumidores ao sugerir que biodegradável é equivalente a ecologicamente correto, mas esse não é o caso. Mesmo produtos que se degradam rapidamente na água do mar permanecem no sistema por tempo suficiente para matar qualquer tipo de coral que venha a ter algum tipo de contato.
Essa foi a conclusão que os pesquisadores chegaram, comprovando que essas alegações de “biodegradável” ser totalmente enganosa ou inverdades, que podem ser encontradas nos rótulos das embalagens de protetor solar.
Em alguns casos, os produtos afirmam que não são tóxicos para corais e outros organismos marinhos, apesar de conterem oxibenzona e/ou outros derivados de benzeno, que são perigosos para os corais.
Identificando um protetor seguro
Para identificar um protetor seguro, ignore o que está escrito na frente do produto, vire a embalagem e leia os componentes.
Primeiro, observe a presença de conservantes e, em seguida, leia a lista de filtros UV.
O protetor solar é letal para os corais, normalmente contém parabenos (conservantes comuns, como butilparabeno) ou qualquer um dos seguintes dos componentes químicos abaixo:
- BMDBM (4-terc-butil-4-metoxidibenzoilmetano benzofenona
- BZ (benzofenona-3)
- MBC (4-metilbenzilideno cânfora)
- OMC (etilhexil metoxicinamato)
- OCT (octil metoxicinamato)
- BEMT (bis-etilhexiloxifenol metoxifenil triazina)
- Qualquer componente que inclua o termo –benzeno
Cuidados com a nossa pele
Alguns fabricantes tentaram criar um protetor solar mais ecológicos através do uso de filtros físicos, como óxido de zinco e óxido de titânio, mas estudos complementares estão fornecendo resultados conflitantes.
Alguns produtos com óxidos de zinco e titânio, demonstraram ser prejudiciais aos corais, onde em alguns casos, apresentaram o branqueamento, mesmo após exposições por um curto espaço de tempo.
Uma empresa francesa desenvolveu um protetor solar chamado Evoa que foi testado e certificado como seguro para os corais. Recentemente um protetor solar contendo uma nova geração de filtros ecológicos chegou ao mercado e os corais testados com esse protetor ficaram aparentemente mais saudáveis. A Aethic, sediada em Londres, patenteou essa nova composição, chamada Aethic Sôvée.
De acordo com a cientista marinha e conservacionista Sylvia Earle, “No grande esquema das coisas, o protetor solar pode estar no final da lista de coisas com as quais os corais precisam se preocupar, mas pode ser um corte crítico entre os milhares que estão estressando os recifes e outros sistemas oceânicos — apenas mais uma coisa em cima de todo o resto que pode levar um ecossistema ao limite”.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



