Em 2011 estive na Alemanha com a minha esposa visitando um casal de amigos que trabalham na filial da ONU, em Bonn, e havia planejado fazer um bate e volta até a cidade de Bruxelas, na Bélgica, para mergulhar na piscina NEMO 33, naquela época, a piscina mais funda do mundo.

Viajei 250Km de trem em apenas 1:15h, no maravilhoso ICE da Deutsche Bahn, que em dado momento chegou aos 290 Km/h e paguei por isso a bagatela de 22€ ida e volta na época.

Acabei chegando 30min mais cedo na estação da Alemanha, por receio de me perder com as informações em alemão. Passei certo frio, e vi as pessoas chegando 2 ou 3min antes do embarque, porque lá, realmente os trens saem no horário.

Viagem realizada, cheguei em  Bruxelas com uma dificuldade: a língua francesa.

Sabia apenas umas 5 palavras e ninguém ajudava com informações. Dizia o nome do bondinho elétrico e a estação, e era ignorado. As pessoas simplesmente não tinham a menor vontade em ajudar.

Vagando pela estação de trens buscando uma forma de falar em inglês com alguém, tive a sorte de achar uma atendente da agência da KLM, que me ajudou a encontrar a estação subterrânea dos bondinhos elétricos que andam pela cidade, e que ficava próximo da estação de trens, mas incrivelmente não haviam placas indicativas, tornando uma coisa básica numa novela.

Vencido o obstáculo, peguei o bondinho correto e, após 40min passeando pela cidade, finalmente cheguei à estação de Stalle, ponto final da linha e distante apenas 150m da academia onde fica a NEMO 33. A ansiedade estava alta, e descubro que a piscina só iria abrir 1h depois e que teria que aguardar do lado de fora em meio ao frio intenso europeu.

Espera realizada, portas abertas, ticket pago, certificado conferido e, legal, vou mergulhar na NEMO 33, pensei !

Foi quando veio a pergunta: O senhor irá mergulhar com quem ?

Apontei para os demais que aguardavam o mergulho e disse: Com eles !

A atendente responde: O senhor precisa mergulhar com alguém, e não pode simplesmente mergulhar sem um dupla.

Naquela hora pensei: Mas isso é uma piscina, não tem como eles fugirem ou se distanciarem de mim, mas resolvi ser educado e disse que não tinha dupla e que tinha vindo de outro país só para mergulhar aquele dia e voltar, e a resposta da atendente foi desoladora…

Sem dupla, sem mergulho !

Naquele instante ficou claro para mim ao ver os presentes percebendo a situação e começar a olhar para os lados com aquele pensamento do tipo: “esse cara deve ser mergulhador básico, tô fora”.

Vendo aquela situação e sem falar o raio do francês, um casal de homens belgas se dispôs a mergulhar comigo e disseram que eu poderia descer com eles na piscina, resolvendo naquele instante o problema para mergulhar.

Só me perguntaram a minha certificação e experiência, e quando afirmei que era mergulhador técnico com vários anos de experiência, ficaram tranquilos e dizendo algo do tipo “poxa, tá tranquilo então”.

Percebi que havia um receio dos belgas (talvez dos europeus) em ter que mergulhar com desconhecidos / básicos por lá, mas confesso que não entendi o conceito deles, pois eu não poderia mergulhar havendo um monte de pessoas no mesmo mergulho, mas podia mergulhar com o casal ?  Não vi muito sentido nisso, principalmente por se tratar de uma piscina e todos descem juntos.

Se ninguém se prontificasse a descer comigo, eu não poderia mergulhar e teria que aguardar o outro horário, que era ao final da tarde, para “tentar” encontrar alguém que pudesse descer comigo.

Preconceito

Com tudo pronto, todos que iriam mergulhar foram chamados para subir pegar seus equipamentos. Durante a equipagem já quase para entrar na piscina, surge um sujeito apressado, perguntando se alguém poderia mergulhar com ele, pois também estava passando a mesma situação que passei… Não tinha um dupla para descer.

Vendo que ninguém se prontificava, quase que instantaneamente disse “você pode mergulhar conosco”. Ele olhou para o casal próximo a mim, amarrou a cara e foi embora, aparentemente xingando e demonstrando claramente seu absurdo preconceito.

Naquele momento ignoramos o fato, e após algumas instruções do coordenador da piscina, todos desceram para conhecer a NEMO 33, que acabou sendo um mergulho super tranquilo, interessante e diferente, por não haver atualmente no Brasil uma piscina como essa.

Naquela ocasião, tive o dia salvo pelo casal que resolveu me ajudar. Já o preconceituoso, foi barrado e não conseguiu mergulhar, fazendo alguns gestos de indignação.

Ao término do mergulho, troquei os e-mails com o casal e ao regressar ao Brasil, enviei as fotos do casal mergulhando, como agradecimento pela boa vontade em ajudar um desconhecido que tinha chegado de longe sem referências, para descer naquela piscina.

Após o mergulho, tive a oportunidade de aproveitar o resto do dia para conhecer os pontos turísticos de Bruxelas e retornar para a Alemanha para continuar as férias.

Foi um dia de mergulho, cultura e mais uma prova de que o preconceito faz mal para as pessoas.

NEMO 33 – Foto: Clécio Mayrink

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.