Pra quem não sabe, podemos dizer que o rebreather é uma máquina antiga, mas que se modernizou ao longo dos anos, com diversas modificações, trazendo mais segurança ao mergulhador.
Um rebreather é capaz de reaproveitar grande parte do gás expelido pelo mergulhador, fornecendo uma autonomia muito superior aos tradicionais cilindros de mergulho.
Em cada inspiração, o mergulhador aproveita em média apenas 6%do oxigênio inspirado, jogando a maior parte desse oxigênio inspirado fora, através das bolhas de gás pelo regulador de mergulho, e quando falamos em mergulhos mais profundos, principalmente quando se utiliza o Trimix para tornar o mergulho mais seguro, o rebreather traz uma boa economia quanto ao uso inferior do hélio.
Mas como tudo na vida, o rebreather tem seus aspectos positivos e negativos.
Vira e mexe, alguém me questiona porque ainda não entrei nessa onda dos rebreathers, em que cada vez mais vemos mergulhadores em todo o mundo utilizando este equipamento, e a resposta é simples… custo do equipamento, manutenção e real necessidade quanto ao seu uso.
Um rebreather custa alguns milhares de dólares, não sendo um equipamento nada barato. Em média, uma máquina dessas custa entre 6 e 12mil dólares no exterior. Além disso, é preciso reaprender a mergulhar, pois o uso do rebreather interfere na dinâmica do mergulho por completo, obrigando ao mergulhador a adotar novos procedimentos e a realizar alguns cursos específicos para o uso desse tipo de máquina. São cursos com custo elevado e não tão rápidos.

A manutenção é outro aspecto importante e que o mergulhador não pode “vacilar”, caso contrário, as chances de um acidente com morte são altos, e se alguém disser que estou exagerando, não veja dessa forma.
Sei de um caso, por exemplo, onde um mergulhador com larga experiência em mergulho, quase perdeu a vida, se não fosse a atenção de outros dois enquanto se equipavam fora d’água, terem notado que havia ocorrido algo de errado com o primeiro mergulhador que havia entrado na água. Os dois pularam na água e retiraram o mergulhador em questão já inconsciente. Ele havia apagado dentro d’água e se não fosse retirado da água rapidamente, teria perdido sua vida.
Rebreathers são dotados de um sistema que analisa a mistura do gás durante todo o mergulho, verificando o percentual de oxigênio na mistura. Se o percentual é superior ou inferior a 21%, ele chama a atenção do mergulhador, avisando-o sobre essa diferenciação, para que ele tome as medidas cabíveis e volte a ter 21% de oxigênio na mistura.
Caso contrário, o mergulhador poderá convulsionar ou simplesmente apagar embaixo d’água sem ter algum aviso que irá apagar. Por isso, a manutenção ser um aspecto extremamente importante para que a máquina e todo o seu sistema, não apresente falhas durante o mergulho.
A manutenção de um rebreather não é barata, e normalmente o mergulhador é obrigado a trocar os três sensores de oxigênio (U$ 100 cada um deles nos Estados Unidos) anualmente. Além de caro, tem o problema da falta de peças disponíveis no Brasil. Isso sem contar, é claro, com a manutenção das demais partes do equipamento.
A pergunta que eu sempre faço para quem pretende adquirir um rebreather é: Quantos mergulhos longos / fundos você pretende realizar ao longo do ano, para que justifique o investimento em treinamentos e na aquisição de uma máquina dessas ?
No meu caso, tenho um filho ainda pequeno e dependente de mim, e não posso se quer cogitar na possibilidade em utilizar uma máquina onde a minha vida dependa totalmente dela.
O mergulho autônomo de circuito aberto (cilindro de mergulho) é um considerado um dos esportes mais seguros do mundo, mas quando falamos em mergulhos com rebreathers, a coisa muda, e infelizmente o mercado vende a ideia de mergulhos com rebreather como se fosse um equipamento para qualquer mergulhador, o que definitivamente não é.
Além dos treinamentos, alto investimento no equipamento e na manutenção, em cada mergulho perde-se em média em torno de 1:30h com a preparação da máquina, com toda a checagem de suas partes para verificar que a máquina está em pleno funcionamento.
O mergulhador precisa conhecer a fundo o equipamento, a técnica e, ser extremamente detalhista nas checagens prévias ao mergulho.
Mas porque investiria tanto tempo e dinheiro para realizar mergulhos não tão fundos ?
Só pela autonomia ?
No sistema de circuito aberto, quando o raramente algum tipo de problema ocorre, você já sabe de cara o que é e como resolver, mas quando falamos em rebreathers, a coisa muda.
Certamente alguns vão achar que estou exagerando, mas basta analisar os casos de acidentes e a quantidade de mergulhadores que perderam suas vidas mergulhando com rebreather, e na minha visão, eles ainda não trazem a segurança tão esperada como alguns acreditam que já exista.
Se você pretende entrar no mundo dos rebreathers, pense que não é só uma questão de custo, mas de necessidade, praticidade e principalmente, quanto à segurança de sua vida.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



