Mergulhadores que utilizam a roupa seca ,sabem os benefícios que esse equipamento possui e normalmente nunca mais deixam de utilizá-la.

Costumo dizer que a roupa seca é o segundo melhor custo benefício em equipamento de mergulho, pois ela realmente torna o mergulho muito mais confortável em águas frias, o mergulhador consegue aproveitar muito mais o mergulho pelo isolamento que ela consegue prover, além da diminuição do consumo de gás, aumentando tempo de fundo do mergulho.

Mas é aquilo, para tudo na vida há pontos positivos e negativos, e obviamente, a roupa seca possui alguns aspectos importantes e que o usuário desse tipo de equipamento deve estar atento.

Má circulação – Dormência nas mãos – Reflexo do Seio Carotídeo

As vedações ao redor do pescoço e dos pulsos feitas pelos chamados “selantes” de borracha ou silicone, devem estar bem ajustados e não devem estar apertados em demasia.

Vedações nos pulsos quando muito apertadas podem causar dor nas mãos, podendo gerar formigamento, perda de sensibilidade e aumento da suscetibilidade de lesões por causa do frio. Uma vedação do pescoço muito apertada também pode causar uma condição denominada “reflexo do seio carotídeo”, que resulta na diminuição do batimento cardíaco e no fluxo de sangue para o cérebro, fazendo com que o mergulhador sinta tontura ou fique meio atordoado, onde em casos mais graves, pode chegar a ter perda de consciência.

Recortar as pontas dos selantes de forma adequada ajudará a evitar excesso de constrição e tornará o mergulho mais confortável, mas se você não tem experiência em cortar os selantes, é aconselhável procurar um profissional experiente, para que lhe ajude a realizar o corte de forma correta, para que não ocorra algum erro e danifique o selante. O corte incorreto poderá inutilizá-lo.

Flutuabilidade

Toda roupa seca é projetada para receber um gás do cilindro de mergulho para diminuir a diferença entre a pressão externa em relação à pressão interna da roupa, o que gera o conforto ao mergulhador e evita alguns problemas. A inserção de ar para o interior da roupa seca também irá melhorar a flutuabilidade, sendo necessário para tal, apenas a adição ou ventilação mínima de ar para o interior da roupa.

Alguns profissionais recomendam usar a roupa seca para o controle de flutuabilidade, particularmente sou contra isso e recomendo que o controle seja feito apenas pelo colete equilibrador, mas é uma questão pessoal. Na minha opinião, a roupa só deve ser usada para controle de flutuabilidade num eventual problema com seu colete ou asa, sendo assim, uma redundância para esse tipo de controle.

Em todo o caso, o mergulhador deve treinar bastante a utilização da roupa seca para evitar uma possível perda do controle de flutuação e acabar parando na superfície, pela falta de controle de sua roupa. Isso acontece quando o mergulhador insere uma quantidade de gás acima do necessário e começa a subir em direção à superfície como um balão.

Conforme o mergulhador sobe, a pressão diminui e o volume de gás no interior da roupa se expande, consequentemente a velocidade de subida aumenta de forma exponencial, fazendo com que o mergulhador sem treinamento perca o controle e acaba virando uma boia parando na superfície.

Para evitar esse tipo de problema, o mergulhador deve inserir o gás em pequenas quantidades e o suficiente para que a roupa não fique absurdamente justa ao corpo do mergulhador.

Durante a utilização da roupa seca o mergulhador deve manter um posicionamento (trim) adequado durante todo o mergulho, evitando deixar os pés num alinhamento muito acima da cabeça. Se o mergulhador levantar muitos os pés, todo o gás no interior da roupa poderá se acumular nos pés, e isso pode fazer com que a roupa vire o mergulhador de cabeça para baixo e forme uma “boia” na região dos joelhos até os pés, pelo acúmulo de gás nessa área,.

Durante uma flutuação descontrolada, se você já realizou todos os procedimentos para retomar o controle da estabilidade e não deu certo, a melhor coisa a ser feita é enviar o dedo entre o pescoço e o selante, e liberar todo o gás do interior da roupa, isso fará com que você pare de subir, mas irá alagar todo o interior da roupa. A menos que você esteja mergulhando em águas contaminadas, certamente, o vai livrar de problemas mais sérios, principalmente se ele precisar realizar uma descompressão.

Isolamento Térmico

O que mantém a temperatura do mergulhador não é a roupa seca, mas sim, o isolamento térmico, mais conhecido como Undergarment. É importante usar um isolamento apropriado para se proteger das condições frias.

Você deve ajustar sua proteção térmica de acordo com o tipo de mergulho que pretende realizar. Os fatores a serem considerados na escolha do seu undergarment incluem a temperatura da água, seu metabolismo pessoal e seu nível de atividade previsto.

Alguns mergulhadores optam por usar roupas com aquecimento elétrico, mas é um acessório relativo caro e que gera mais trabalho para o mergulhador, pelo fato de ser mais um item a ser transportado e que requer o carregamento de baterias. Normalmente só é usado em águas extremamente frias e não encontradas no Brasil.

Selante posicionado de forma incorreta – Foto: Clécio Mayrink

Preocupações Dermatológicas

Existem muitas causas dermatológicas relacionadas ao mergulho. As vedações (principalmente as de borracha) podem irritar a pele, se você tiver a pele sensível. Neste caso, o uso de selantes em silicone são mais recomendados.

Uma roupa seca inadequada pode resultar em atritos. Alguns profissionais recomendam o uso de cremes para ajudar na proteção da pele em pontos de contato com os selantes. Particularmente não gosto disso, pois como são produtos à base de elementos químicos, e isso pode fazer com que os selantes sejam degradas mais facilmente.

O uso da roupa seca de forma incorreta também poderá fazer com que você tenha pequenas marcas devido à compressão da roupa, e em casos mais graves, hematomas. Isso ocorre pela adição incorreta de gás no interior da roupa.

Erupções cutâneas, irritações ou hematomas às vezes são preocupações dermatológicas confundidas com outras condições de pele relacionadas ao mergulho, principalmente as dobras cutâneas. As dobras cutâneas causadas por uma forma branda de doença descompressiva, são erupções cutâneas semelhantes às contusões, que geralmente ocorrem nas áreas do corpo com mais tecido adiposo, como abdômen, coxas, nádegas e seios.

As dobras cutâneas são frequentemente acompanhadas por sensibilidade ou sensibilidade do tecido profundo e, às vezes, por sintomas neurológicos, como fadiga, tontura, visão turva ou comprometimento da memória. Os mecanismos das dobras cutâneas não são claramente entendidos e não existem causas precisas da suscetibilidade de um determinado indivíduo à doença.

O reconhecimento precoce dos sintomas de dobras cutâneas é importante, e se você mergulhou recentemente e observou alguma lesão na pele, deve procurar um médico hiperbárico para uma avaliação imediata para ter um diagnóstico e eliminar possíveis sintomas neurológicos.

Aspectos Urológicos

Ao usar uma roupa seca, a urina pode ser eliminada através de uma Pee Valve, que inclui um dispositivo de coleta específico para cada tipo de sexo. Através da Pee Valve, a urina passa pelo interior de uma pequena mangueira para o exterior da roupa seca. No entanto, esses sistemas envolvem um risco de complicações, como pneumatúria (passagem do ar durante a micção), infecções urogenitais ou uma condição conhecida como “compressão genital” ou “compressão do cateter”.

A pneumatúria ocorre quando o ar ou o gás passa para a uretra antes ou depois da micção.

As infecções urogenitais geralmente são causadas pela limpeza inadequada dos tubos da Pee Valve, portanto, uma higiene completa pós-mergulho, inclui a desinfecção do sistema da Pee Valve após cada uso, minimizando essas complicações.

O uso de um sistema de Pee Valve balanceado, com válvulas unidirecionais, também ajuda a prevenir infecções.

Conclusões

Como mencionei no início do artigo, existem pontos positivo e negativos, contudo, os pontos negativos só ocorrem pela falta de treinamento e desinformação do mergulhador.

Se o mergulhador buscar informações e receber o treinamento por um profissional adequado, ele não vai precisar se preocupar.

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.