Muitas vezes o mergulhador escuta sobre a tal roupa seca de mergulho, mas não sabe exatamente o que é, mas tentarei trazer um pouco mais de informação sobre esse tipo de equipamento.

Até onde se sabe, esse tipo de roupa era usada somente por mergulhadores comerciais no passado, por eles descerem em locais de grandes profundidades usando misturas respiratórias especiais em mares agitados e água fria. Ao mesmo tempo, o mercado mundial mergulho começou a ganhar mais adeptos, e com isso, surgiram novos fabricantes, tornando a concorrência maior a cada dia.

Com a participação dos mergulhadores residentes em locais onde o frio é mais intenso, os fabricantes perceberam que o uso da roupa seca seria um equipamento interessante para essas pessoas, e com isso, diversas marcas passaram a investir e fabricar modelos de roupa seca com um custo mais baixo que os modelos fabricados para o mergulho comercial, envolvendo modificações na matéria prima utilizada.

Ao longo do tempo, isso contribuiu para a evolução da roupa seca em todo o mundo, pois os fabricantes tentam a cada ano, trazer mais novidades nesse seguimento, fazendo com que a roupa seca passasse por diversas evoluções, tanto em peso, quanto resistência e desempenho.

Mergulho Técnico – Divisor de águas

Com o surgimento do mergulho técnico em todo o mundo, as vendas de roupa seca cresceram exponencialmente, visto que, o mergulhador acaba passando mais tempo submerso, e como a melhor proteção térmica para mergulhadores técnicos é a roupa seca, os lojistas passaram a comercializar também essas roupas.

No Brasil isso não foi diferente, e lembro bem na década de 90′ quando vi os primeiros mergulhadores usando roupa seca e realizando mergulho técnico por aqui. Hoje, vemos diversos mergulhadores recreativos também usando roupa seca no dia a dia como se fosse uma roupa qualquer. Esse tipo de roupa ganhou seu espaço em todo o mundo e muitos adeptos.

Partes de uma roupa seca

Basicamente uma roupa seca completa é composta por:

  • Roupa externa;
  • Undergarment;
  • Mangueira de enchimento;
  • Botas (Boot ou Rock Boot) – Alguns modelos necessitam dessas botas a parte;
  • Pee Valve (Opcional)
  • Luvas (Opcional e usada em casos extremos).

A roupa seca em si, é puramente a parte externa que isola o mergulhador da água, como se fosse apenas uma capa. Se vestíssemos somente ela passaríamos frio, pois há o isolamento da água, mas não há isolamento térmico. Nesse caso, o mergulhador precisa vestir antes o que chamamos de Undergarment, que é um macacão completo que isolará termicamente o mergulhador do contato com a roupa seca propriamente dita.

Existem diversos modelos de Undergarment, desde os modelos de baixa qualidade e que isolam pouco o mergulhador, até os modelos para mergulho no gelo, com alto desempenho e mantendo o mergulhador bem aquecido durante todo o mergulho.

Normalmente os modelos de alto desempenho utilizam uma manta fabricada pela 3M denominada Thinsulate, que é fabricada no exterior. Essa manta tem a capacidade de manter a temperatura corporal do mergulhador e não deixar transpassar a alta ou baixa temperatura do lado externo da roupa seca. Os undergarments que utilizam o Thinsulate possuem o que chamamos de “gramatura”, ou seja, um tipo de codificação para a identificação do quanto o modelo de Thinsulate é capaz de atuar. Há modelos codificados como 100, 200 e 400, onde o maior número, indica a capacidade de retenção de temperatura e eficácia em não transpassar a temperatura externa. (Veja também: Undergarment DUI XM450).

Muitas vezes encontramos undergarment fabricados com um tecido conhecido como Fleece (vulgo “Polar”). A empresa mais famosa mundialmente desse tipo de tecido chama-se Polartec, dos Estados Unidos, comercializando o Fleece também em gramaturas, sendo um tecido também muito usado no mergulho em em roupas de esportes radicais. Várias marcas de mergulho fabricam undergarments usando o Fleece da Polartec, que funciona bem em águas mais quentes.

Alguns aspectos

Algumas marcas produzem as roupas secas com meias apenas, obrigando o mergulhador a usar uma bota parecida com os tênis do tipo “All Star”, porém, bem mais resistentes, grossos e pesados. Na hora da compra, o mergulhador precisa analisar que modelo de roupa irá comprar, já com a bota fixa na roupa seca fabricada em borracha ou apenas com meia, tendo que usar a bota. Particularmente não gosto do uso de botas separadas da roupa, pois é mais um item para lembrar e transportar. Além disso são pesadas e volumosas, e em tempos de tamanho de bagagens cada vez menores, vejo isso como um transtorno.

Já as luvas de roupa seca, elas podem ser adquiridas a parte, são normalmente usadas em águas extremamente geladas, não sendo o caso do Brasil. Como são fabricadas em borracha ou silicone, as luvas diminuem muito a sensibilidade das mãos do mergulhador, pois antes de enfiar as mãos nelas, é necessário que o mergulhador coloque uma luva de nylon para aquecer e isolar as mãos do contato direto com as luvas estanques.

Aqui no Brasil, quem chega a mergulhar com luva e roupa seca, prefere usar luvas de neoprene de 3 ou 5mm. Quem tiver uma roupa seca e quiser usar luva com as pontas dos dedos expostas para ter mais sensibilidade nos dedos, pode comprar um par de luvas de academia em neoprene, são bem mais em conta, utilizam neoprene de 3mm e você acha em qualquer lugar.

Urina X Roupa Seca

E se você pensou: O mergulhador precisa segurar a urina quando usa roupa seca ?

Você se enganou.

Você pode adquirir a chamada Pee Valve, que é um dispositivo que permite ao “mergulhador ou mergulhadora”, expelir sua urina para o exterior da roupa seca durante o mergulho.

Atualmente encontramos dois modelos distintos, a Pee Valve manual e a automática. A válvula manual requer a abertura de um pequeno parafuso na altura da perna, que permitiria a saída da urina para fora da roupa seca. Já a Pee Valve automática, a pessoa pode urinar a qualquer instante, e automaticamente a válvula irá permitir a passagem da urina para fora da roupa e sem a necessidade da intervenção do mergulhador.

Para o uso de Pee Valve, o mergulhador necessita utilizar uma camisinha de incontinência urinária, que possui um pequeno bico emborrachado à frente, permitindo encaixá-la em uma pequena mangueira no interior da roupa, conectando à Pee Valve. Normalmente esse tipo de camisinha só é encontrada nos Estados Unidos ao custo médio de US$ 1 / 1.5 a unidade.

No caso das mergulhadoras existe a SHE-P, que é um dispositivo fabricado em silicone de alta qualidade, feito especialmente para as mulheres. Esse dispositivo é único em todo o mundo e fabricado por uma mergulhadora holandesa, sendo inclusive, amiga e parceira do Brasil Mergulho.

Necessariamente a pessoa não precisa usar a Pee Valve e pode usar como alternativa o fraldão geriátrico, mas quem já usou afirma que dá uma sensação bem desagradável durante o mergulho, além do desconforto devido ao volume da fralda no interior do undergarment.

Custo elevado

Infelizmente a produção de uma roupa seca é muito mais trabalhosa que uma roupa úmida comum, pois como o próprio nome diz, ela é seca e não pode haver furos na roupa, caso contrário, ela não terá efeito.

Além da produção mais cara, ela utiliza componentes que as roupas tradicionais de mergulho não se usa, como o zíper seco, válvulas de controle de flutuabilidade e a manta térmica (Thinsulate) no caso do undergarment, que é comercializado pelo metro e não é barato.

Treinamento

Algumas certificadoras possuem cursos especializados para que a pessoa aprenda a mergulhar usando uma roupa seca. A utilização dela em si não é coisa de outro mundo ou difícil, mas é preciso compreender algumas práticas de uso e realizar alguns treinos para conhecê-la na prática.

Quando comecei a mergulhar com a minha primeira roupa tive que aprender na marra, pois infelizmente naquela época eram pouquíssimas as pessoas mergulhando com esse tipo de roupa, e foi na cara e coragem mesmo, munido de algumas dicas básicas.

Vale a pena comprar uma roupa seca mesmo sendo mergulhador recreativo ?

Quando alguém me faz esse tipo de pergunta, geralmente eu respondo com um “Sim !”

Mergulhar com frio, além de criar “riscos” ao mergulhador, não irá deixá-lo curtir o mergulho. Sempre existirá aquele pensamento do tipo “quero acabar logo esse mergulho porque estou passando muito frio”.

O mergulhador perde 5x mais calorias na água e mergulhar com frio é sempre muito desagradável. Imagine você mergulhar sem passar frio algum. Algumas vezes, você até passa calor durante o mergulho. Isso também pode acontecer, apesar de raro.

Quando comprei minha primeira roupa seca, era para ser usada no mergulho técnico, mas logo percebi que o mergulho recreativo com ela tornava o mergulho mais confortável quando viajava para locais onde a água é bem mais fria, como é o caso dos mergulhos no sudeste e sul do país.

O aspecto negativo da roupa seca no mergulho recreativo é a flutuabilidade. O mergulhador precisa colocar muito mais lastro para conseguir afundar, principalmente se a estatura é baixa. Isso acaba diminuindo a velocidade da natação do mergulhador e no retorno para a embarcação, pelo excesso de lastro.

Agora, se você é um mergulhador avançado e mergulha em águas frias com frequência, uma roupa seca irá tornar seus mergulhos mais do que confortáveis.

Seu custo é mais elevado que as roupas tradicionais, mas é um equipamento que vai durar muitos anos se você der a devida manutenção que esse tipo de equipamento requer.

Normalmente é só trocar os chamados selos dos pulsos (fabricados em borracha ou silicone) e do pescoço anualmente ou a cada dois anos, conforme o número de mergulhos realizados, além de lubrificar o zíper corretamente.

Se você mergulhar apenas em água doce, o desgaste é bem menor, pois o ressecamento será bem mais lento nessas partes pela falta do sal.

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.