Contra a opinião de alguns, considero o mergulho um esporte elitizado, pois querendo ou não, é uma atividade que envolve diversos custos para o praticante, e mesmo que ele tente economizar, não é uma atividade de baixo custo quando comparada com o futebol ou vôlei de praia, por exemplo.

Um dos grandes problemas que venho percebendo ao longo do tempo são algumas “tentativas de baratear” o custo operacional do mergulho no que tange as embarcações de mergulho, o que pode ser um grande risco para o mergulhador.

Pessoas são coagidas a entrar em roubadas e quando elas se dão conta, já é tarde demais.

Botes infláveis saindo de praia

Alguns empresários tiveram a ideia de usar os infláveis de grande porte saindo de praia, economizando principalmente na quantidade de combustível necessário para alcançar os pontos de mergulho.

Apesar de não haver restrições para este tipo de operação no Brasil, dependendo da praia por onde será realizada a saída, pode ser uma operação arriscada, principalmente quando não há uma saída em direção ao mar de forma segura. Se o local sofre com mudanças repentinas de mar e grandes ondulações, sempre existirá a chance da embarcação virar com todos, pois não serão poucas as vezes em que a embarcação sairá em direção ao mar tendo que brigar com as ondulações, e sabemos que isso aconteceu algumas vezes no litoral sul de São Paulo em uma área totalmente desprovida de segurança para uma saída com grande número de mergulhadores.

Além da ida para o mar, o retorno também pode ser complicado, podendo haver dificuldade para adentrar ao canal que desemboca no mar, fazendo com que a embarcação receba as ondulações pela popa e acabar virando.

O quanto vale arriscar a vida e seus equipamentos para economizar R$ 150 / 200 ?

Se a praia não oferece riscos para adentrar ao mar e o ponto de mergulho for em um local abrigado e sem riscos de virada repentina de mar, a operação pode ser feita de forma segura, caso contrário, é um risco desnecessário.

Barcos de alumínio

Outro tipo de embarcação que oferece risco são as pequenas embarcações de alumínio, aquelas normalmente usadas por pescadores em rios.

São embarcações instáveis e não apropriadas para o mar. Pior ainda, quando usada por mergulhadores autônomos com seus pesados cilindros. A embarcação balança para os lados com qualquer movimento e marola, facilitando que ela vire.

Confesso que já usei esse tipo de embarcação em algumas situações no passado pela falta embarcações melhores na região, mas são embarcações que não oferecem segurança alguma.

Vale lembrar, que recentemente um grupo de 3 ou 4 mergulhadores usaram uma embarcação desse tipo em Arraial do Cabo e que acabou virando, tornando os mergulhadores náufragos. Até onde soube, tiveram a sorte de conseguir subir em uma ilha até a passagem de alguma embarcação para pedir socorro, o que foi feito algumas horas depois.

Saída de praia exige mais cuidados – Foto: Clécio Mayrink

Operação com pessoas que não são do mercado

Outro aspecto importante e que infelizmente as grandes certificadoras não se preocupam, é com o surgimento de pessoas que se dizem “profissionais” e que não estão diretamente ligados ao mercado de mergulho, trabalhando vez e outra para ganhar um extra e mergulhar de graça.

Em grande parte, essas pessoas não possuem a mesma preocupação e conhecimento técnico encontrado naqueles que dependem e vivem diretamente do mergulho. A falta de comprometimento é grande, porque ele sabe que pode largar a atividade a qualquer instante, afinal de contas, ele não vive disso.

Isso me faz lembrar uma ocasião, onde um grupo de mergulhadores ficou abandonado em uma ilha, porque a embarcação que os levou havia regressado para terra para buscar um segundo grupo de mergulhadores, mas como a embarcação acabou sendo abordada por uma lancha da Marinha, não foi possível voltar para o mar, deixando o primeiro grupo de mergulhadores abandonados e sem informações. Mesmo que o problema tenha sido temporário, imagine se algum mergulhador estivesse passando mal e houvesse a necessidade de um resgate imediato ?

Há quem concorde com esse tipo de coisa e chegando a me chamar de exagerado, para o meu espanto, mas é aquilo… É tudo maravilhoso até um acidente acontecer, e acreditem, as coisas acontecem.

Conclusão

O mergulho é uma atividade que envolve baixos riscos e estes podem ser minimizados ao máximo se os envolvidos cumprirem as regras. Não podemos querer economizar quando o aspecto é segurança. Essa conversa do tipo “saia com a gente e você fará o mesmo mergulho do que com a operadora X pagando muito menos”, é a típica conversa para enganar pessoas e você não deve cair nessa.

Uma operadora de mergulho descente tem custos para manter a operação em dia dentro das normas de segurança e tudo mais. Não é simplesmente combustível, uma operação envolve documentação, manutenção, marina, marinheiro, equipamentos de mergulho e a diária dos profissionais envolvidos, pois eles também precisam ganhar dinheiro para se manter, afinal de contas, ninguém vive apenas e oxigênio.

Se o custo da operação é muito mais baixo que as demais, desconfie.

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.