Em março de 2026, uma equipe composta por oito exploradores, entre mergulhadores técnicos e especialistas em técnicas verticais, realizou uma expedição de alta complexidade ao Poço da Camisa, em Goiás.
O objetivo: Avançar na exploração subaquática de um sistema ainda pouco conhecido, cujo potencial ultrapassa, com folga, os limites atualmente alcançados.
Localizado na região de Divinópolis de Goiás, no entorno do complexo espeleológico de Terra Ronca, um dos maiores conjuntos de cavernas da América do Sul, o Poço da Camisa é uma formação geológica singular, classificada como uma dolina de colapso, originada pelo desabamento do teto de uma caverna calcária ao longo de milhões de anos.
A estrutura impressiona pela geometria quase perfeita e pelas paredes verticais que conduzem a um espelho d’água de coloração variável entre azul-turquesa e verde-esmeralda, dependendo das condições sazonais.
Mais do que sua beleza, o local é marcado pelo mistério, embora já tenha sido explorado em profundidades próximas a 50 metros, seus condutos submersos ainda não haviam sido descobertos. Essa característica o posiciona como uma das fronteiras mais desafiadoras do mergulho técnico no Brasil.
Importante destacar que o Poço da Camisa está situado em área privada, fora dos limites oficiais do parque estadual, sendo indispensável autorização prévia do proprietário para qualquer acesso. O trajeto até o local envolve deslocamento por estradas não pavimentadas, exigindo o uso de veículos 4×4, seguido de técnicas verticais avançadas, o que restringe sua visitação a grupos altamente especializados.
A Operação
Desde o início, a expedição se apresentou como um desafio logístico relevante. O acesso à dolina exige veículos com tração 4×4 e navegação em terreno irregular, reforçando o caráter remoto e pouco acessível da região.
A chegada ao ponto de mergulho já antecipa o nível de comprometimento exigido, da borda da dolina até o espelho d’água são aproximadamente 45 metros de descida vertical, negativa em sua maior parte, realizada integralmente por técnicas verticais com cordas, sem qualquer apoio seco no interior.
Diante dessas limitações, a equipe estruturou uma operação completa de engenharia em ambiente natural.
Foi montado um sistema de descida e subida com redundâncias, linhas fixas e gerenciamento de carga. Na base, já sobre a água, construiu-se uma plataforma flutuante para organização dos equipamentos e preparação dos mergulhos. Caiaques foram utilizados como apoio logístico, enquanto um trapézio de descompressão foi instalado para garantir segurança nos perfis mais profundos.
A expedição teve duração de três dias, com acampamento montado à beira da dolina, permitindo continuidade operacional e planejamento detalhado das incursões.
Participaram da operação: Asdrubal Neto, Fred Samambaia, Saulo Cabral, Igor Peixoto, Rodrigo Bricks, João Paulo Tortola, Gilnei e Aquino, reunindo diferentes níveis de experiência, desde mergulhadores, técnicos especializados em exploração profunda e grandes operadores de técnicas verticais.
O Mergulho
O ponto alto da operação foi o mergulho de exploração conduzido pelos três mergulhadores técnicos, Asdrubal Neto, Rodrigo Bricks e Fred Samambaia, que avançaram pelo lado oeste do sistema. O objetivo era alcançar o conduto principal e expandir a compreensão da morfologia submersa.
A equipe atingiu a marca de 80 metros de profundidade, com um avanço de 300 metros conduto a dentro, explorando uma região de visibilidade excepcional.
A água, com temperatura média de 22°C, apresentou condições ideais para progressão, permitindo leitura clara das formações e identificação de possíveis continuidades do sistema.
As evidências observadas reforçam aquilo que já havia sido sugerido por outras expedições: o Poço da Camisa não se encerra nos limites atualmente conhecidos.
A presença de condutos laterais e a ausência de um fundo definido indicam um sistema possivelmente muito mais extenso e complexo.
Um santuário técnico e natural
Mais do que um desafio técnico, o Poço da Camisa impõe uma experiência sensorial singular. O isolamento, a ausência de interferência humana e a imponência da estrutura criam um ambiente que transcende a prática esportiva. Trata-se de um espaço que impõe respeito, um verdadeiro santuário natural.
Essa característica, aliada à sua localização em propriedade privada e à ausência de estrutura turística formal, reforça a necessidade de acesso responsável e controlado. A ausência de manejo oficial e a complexidade do ambiente tornam qualquer incursão uma atividade de risco elevado, restrita a equipes altamente capacitadas.
A operação realizada reforça o papel do mergulho técnico como ferramenta de exploração de fronteiras naturais ainda desconhecidas. O Poço da Camisa, com sua geologia singular, águas cristalinas e profundidades não totalmente compreendidas, permanece como um dos ambientes mais desafiadores e fascinantes do país.
Os 80 metros explorados são, ao que tudo indica, apenas o início.
Em um cenário onde grande parte do planeta já foi mapeada, locais como este lembram que ainda existem territórios intocados, silenciosos, profundos e repletos de perguntas e, é justamente isso que continua movendo exploradores.
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Asdrubal Nascimento Lima Neto
Mergulhador desde 1997, CCR Cave Diver, Trimix CCR Diver, Advogado Criminalista, Professor universitário de Direito Penal e Processo Penal.



