Voar após o mergulho: Quantas horas de intervalo são necessárias ?

Os mergulhadores estão sempre dispostos a fazer alguns mergulhos extras antes de deixar um destino. Afinal, queremos aproveitar ao máximo nossas viagens de mergulho.

Talvez você tenha ouvido falar de uma nova caverna para explorar que não conhecia antes, ou talvez, um mergulhador tenha lhe avisado sobre a presença de algumas criaturas marinhas interessantes em um local de mergulho próximo, e você simplesmente não poderia deixar de ver essas maravilhas, porque poderá demorar muito até que possa voltar ao local.

Independente dos motivos, você provavelmente estará se perguntando se é seguro mergulhar no dia da sua partida ou na noite anterior ao seu voo. Esse dilema costuma surgir para os mergulhadores, já que mergulhar e voar são duas atividades que muitas vezes se sobrepõem e, se você não planejar adequadamente, poderá ter complicações de saúde que poderão ser graves e potencialmente fatais.

Sabemos que não é aconselhável voar tão rapidamente após o mergulho, mas a questão permanece: Quanto tempo realmente precisamos esperar ?

 

Quanto tempo você deve esperar antes de voar ?

Infelizmente não há uma resposta direta pra essa pergunta. Tudo se resume ao risco que você está disposto a correr, a altitude em que estará voando e se seus mergulhos envolveram paradas de descompressão.

Para dar uma ideia aproximada de quanto tempo você deve esperar, várias organizações forneceram sua opinião sobre o assunto.

A Marinha dos Estados Unidos recomenda que você espere pelo menos duas horas antes de embarcar em um avião após o mergulho, enquanto a Força Aérea americana diz que você deve esperar 24 horas.

A Divers Alert Network (DAN) recomenda um intervalo mínimo de superfície de 12 horas antes de voar, e uma grande certificadora de mergulho diz que os mergulhadores não devem subir a uma altitude elevada dentro de 12 horas após a conclusão de um único mergulho ou 18 horas após a realização de vários mergulhos, sendo o recomendável, que sempre que possível, aguardar 24 horas.

 

Essas recomendações são conflitantes, então, qual diretriz devemos seguir ?

A diretriz DAN afirma:

  • Após mergulhos simples não descompressivos, um intervalo mínimo de superfície antes do voo de 12 horas é o recomendável;
  • Após vários mergulhos não descompressivos por dia ou vários dias de mergulho, um intervalo mínimo de superfície antes do voo de 18 horas é o recomendável;
  • Para mergulhos que requerem paradas de descompressão, há pouca evidência experimental ou publicada na qual basear uma recomendação. Para mergulho descompressivo, um intervalo de superfície pré-voo substancialmente maior do que 18 horas parece prudente.

Nota: As informações acima são para mergulho esportivo e não devem ser aplicadas para mergulho comercial ou mergulho nitrox. Por causa da natureza complexa da doença descompressiva, e porque as programações de descompressão são baseadas em suposições não verificáveis, nunca poderemos ter regras fixas de voo após mergulho, que possam garantir a prevenção de curvas de forma totalmenre eficaz e complata.

Quer você espere 12 horas ou 18 horas (ou mais), não há garantias de que você não terá a doença descompressiva ao voar. Obviamente, quanto maior o intervalo de superfície pré-voo, mais nitrogênio você expele do organismo, minimizando o risco de doença descompressiva.

 

Computadores de mergulho X Cálculo do tempo de espera

Você provavelmente já possui um computador de mergulho, porém, se você não possuir um, certamente seria uma boa ideia adquirir uma unidade. Isso ajudaria a eliminar a maior parte das suposições de todo o dilema de voar após o mergulho, já que maioria (se não todos) dos computadores de mergulho disponíveis no mercado possuem a capacidade de calcular o tempo necessário antes de poder voar com base nos parâmetros do seu mergulho.

Não é aconselhável alugar um computador de mergulho se você planeja realizar vários mergulhos em dias diferentes, pois você precisará usar o mesmo computador durante cada mergulho para obter o máximo de precisão, e o computador usará as informações de todos os seus mergulhos para poder fornecer o cálculo correto e liberar o voo de forma segura

 

Risco de voar após o mergulho

Subir até uma grande altitude imediatamente após o mergulho aumenta o risco de uma pessoa ter doença descompressiva, por cauda da diminuição da pressão atmosférica conforme você sobe. As cabines dos aviões podem ser pressurizadas, mas a pressão interna é menor que 1 ATM. Algo em torno dos 0.7 e 0.8 ATM em média.

Poderão haver apenas algumas bolhas minúsculas em seu corpo quando chegar à superfície após um mergulho, não causando problemas, mas se você voar imediatamente e sem aguardar um determinado tempo, essas pequenas bolhas podem se expandir pela pressão inferior na cabine do avião e automaticamente causar o surgimento dos sintomas de doença descompressiva.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Intervalo pré-voo recomendado após mergulho autônomo

Existem muitas maneiras de evitar o mal da descompressão, mas é recomendável que você use o bom senso e considere alguns fatores antes de decidir quanto tempo aguardar antes de voar após um mergulho, como o número de mergulhos realizados durante a viagem, o tipo executado (sem descompressão, com descompressão, altitude, nitrox, etc.), seu estado de saúde, tipo de corpo e idade.

A probabilidade de doença descompressiva estimada para o intervalo de superfície de 12 horas antes de voar, é de cerca de um 1%.

Das 300.000 a 400.000 pessoas que voam para casa 12 a 24 horas após seu último mergulho, a incidência estimada de doença descompressiva entre esses mergulhadores é de cerca de 0,004%, tornando a regra das 12 a 24 horas a mais seguida entre os mergulhadores em todo o mundo.

Se você ainda está inseguro, a melhor coisa a fazer é planejar com antecedência e ter 24 horas de intervalo entre seu último mergulho e o voo.

Uma opção ainda melhor (e mais segura) é esperar dois dias inteiros, principalmente se você realizar mergulhos profundos ou múltiplos.

 

Aspectos importantes ao voar após o mergulho

É importante ter em mente alguns aspectos antes de voar.

  • Espere pelo menos 24 horas entre o mergulho e o voo;
  • Saiba quais são os sintomas de doença descompressiva para que você possa monitorar a si mesmo e seus companheiros;
  • Você corre o risco de sofrer ter doença descompressiva por altitude sempre que voar em uma aeronave não pressurizada acima de 18.000 pés. Se você mergulhou antes do voo, ainda estaria em risco, mesmo em altitudes muito mais baixas;
  • Respirar 100% de oxigênio a qualquer momento durante o voo não impede a doença descompressiva de altitude. No entanto, se você conseguiu realizar a pré-respiração de oxigênio antes da decolagem, isso deve ajudar muito a reduzir a probabilidade de sofrer de doença descompressiva;
  • Mesmo em uma aeronave pressurizada, você ainda pode experimentar doença descompressiva de altitude como resultado da perda repentina de pressão da cabine durante um voo com descompressão rápida por algum incidente com a aeronave. Se isso acontecer, evite voar novamente por pelo menos 24 horas. Além disso, certifique-se de observar os sintomas retardados de doença descompressiva e procure atendimento médico imediatamente;
  • Se você sentir sintomas durante o voo e eles desaparecerem durante a descida do avião, isso não significa que você está bem. Na verdade, pode ser a confirmação de que você está enfrentando doença descompressiva de altitude, e nesse caso, você deve ser avaliado por um profissional médico imediatamente;
  • Evite voar novamente se houver qualquer indicação de que você está com doença descompressiva. Faça uma consulta com um médico hiperbárico antes de embarcar em outro voo.

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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