Estágio na DAN

Tudo começou por eu ser fisioterapeuta e instrutora de mergulho e, atualmente, estar me dedicando ao Mestrado na UNIFESP em Fisiologia do Exercício, estudando sobre obesidade e sedentarismo nos mergulhadores e sua relação com os níveis de treinamento de mergulho.

Por conta desse meu histórico, interessei-me em obter mais conhecimento sobre o assunto. A organização mais envolvida com isso é a DAN. Procurando artigos e informações sobre fisiologia do mergulho, encontrei o programa de estágio em pesquisa oferecido por eles e candidatei-me. Acredito ter sido a primeira brasileira a ter interesse nesse programa. Um programa em princípio moldado para norte-americanos, onde DAN2as pesquisas são realizadas no verão – junho a agosto. Mas o departamento de pesquisa está sempre aberto a exceções, como foi o meu caso. Fui aceita para o programa, principalmente porque a DAN apresenta grande interesse em conhecer o perfil de mergulho e mergulhadores no Brasil, o país da América Latina que mais recebe investimentos da DAN Internacional, e também por desejar crescer ainda mais na nossa região.

O programa normalmente é composto de uma semana de treinamento ao final de maio e posterior estágio de 2 meses em algum resort de mergulho ou laboratório de medicina hiperbárica. Mas algumas modificações foram feitas para mim, em função do calendário brasileiro. Fiz um mês de treinamento em julho no escritório DAN na Carolina do Norte, onde conheci a rotina de todos os departamentos, o desenvolvimento das pesquisas de campo e o laboratório de medicina hiperbárica, além de acompanhar um grupo de mergulhadores nos Naufrágios da Carolina do Norte para aprender sobre o PDE (Project Dive Exploration). Finalmente nos próximos meses de dezembro e janeiro, concluirei o estágio, coletando dados para o PDE em Fernando de Noronha na Atlantis Divers.

Esse programa de estágios está aberto a qualquer pessoa que tenha interesse em pesquisa e seja mergulhador; são 10 estagiários escolhidos no mundo todo por ano. As áreas de interesse são muito variadas, existem biólogos, biomédicos, médicos, analista de sistemas. O site contém todas as informações para quem quiser se candidatar ao DAN Internship Research

Os estagiários são importantíssimos nas coletas de dados do PDE. Esse projeto compreende a coleta de dados de uma série de mergulhos; com informações tanto pessoais do mergulhador, quanto as relevantes sobre cada mergulho, perfil registrado no computador de mergulho e relatório de 48h após o último mergulho e vôo. A intenção é saber quando e porque os mergulhadores desenvolvem doença descompressiva (DD), conhecer perfil de mergulho e dos mergulhadores em cada região. É um estudo longo, que nos proporcionará uma grande evolução nessa ciência.

Um caso bem específico e recente é sobre diabetes e mergulho. Até pouco tempo, a diabetes era uma contra-indicação ao mergulho, mas mesmo assim existiam mergulhadores com diabetes. Os dados mostraram isso e também mostraram em que situações é seguro um mergulhador com diabetes mergulhar. Portanto, foram criadas diretrizes gerais para que esses mergulhadores praticassem a atividade com segurança. Isto é só um exemplo, do que os dados do PDE podem gerar. Através deles também podemos conhecer as recomendações sobre vôo após mergulho, conhecer medicações utilizadas, estatísticas sobre a saúde do mergulhador e acidentes.

DAN1Qualquer pessoa que possua um computador de mergulho e interface pode doar seus perfis de mergulho para o estudo, ou quando mergulharem em um resort com um estagiário DAN, podem solicitar uma espécie de “caixa preta” para registrar as informações do mergulho e depois doar para o estudo. As informações dos mergulhadores são confidenciais, pertencem somente ao estudo, todos os papéis são destruídos após o registro dos dados no sistema. E muito importante: A DAN não é uma “polícia subaquática”! O único interesse é saber como os mergulhadores mergulham e não dizer se é certo ou errado!

Alguns estagiários participam de outras atividades em laboratórios. A DAN, a Marinha Americana e a NASA atualmente patrocinam os estudos na câmara hiperbárica da universidade de Duke. Eu tive oportunidade de participar do estudo de Vôo após mergulho, em que fui submetida a um mergulho na câmara e após um determinado intervalo de superfície, fui novamente levada à câmara, mas para simular um vôo. Nessa situações, são analisadas as presenças de bolhas na circulação sanguínea. Mas o mais interessante é que presença de bolhas não significa DD.

É um grande aprendizado passar um tempo conversando com os pesquisadores. Nós sempre esperamos que essas pessoas que passam a vida pesquisando sobre o assunto possam nos responder grandes perguntas, mas é aí que vemos o quanto o mergulho ainda é baseado em hipóteses. Muitas das respostas às minhas perguntas eram: “Não sabemos ainda !  Estamos estudando, ainda vamos estudar ou isso ainda não pode ser estudado”. Aí tentamos sempre argumentar: “Mas o meu computador é conservador, a tabela tal é melhor q a tal…” e a resposta desses mestres é: “Nunca vi um computador ou tabela ter DD !!!” .

O que eles querem dizer é que as tabelas para se evitar a DD, foram baseadas em modelos matemáticos e não na fisiologia e individualidade do corpo humano. E por isso, ainda temos muito o que perguntar e pesquisar. Os estudos com humanos é difícil e muitas vezes eticamente inviável, como tentar descobrir se mulheres grávidas podem mergulhar!

Portanto, a grande saída é simplesmente observar, como é feito no PDE e também na nova pesquisa sobre o uso de O2. Essa pesquisa quer medir, o que já se tem observado na prática. Muitos mergulhadores com suspeita de DD são tratados nos barcos com O2, apresentam melhora dos sintomas e acabam não indo para tratamentos hiperbáricos. Então, tornam-se casos perdidos nas estatísticas e não temos como medir a real eficiência do tratamento. Também, pretendemos saber se a quantidade de O2 administrada é a recomendada nos treinamentos. De repente, uma quantidade menor já é o suficiente ou uma quantidade maior é que faz a diferença. Essas são algumas suposições, que precisamos observar. Para que assim, nossos pesquisadores sejam capazes de nos fornecer respostas como: “Agora já sabemos!!”

Todos os programas de pesquisa e estágio são mantidos através de doações e afiliações à DAN. Portanto, para termos respostas às nossas perguntas e implementação de segurança nos nossos mergulhos, precisamos de pessoas envolvidas com a organização, ou seja, membros!! E para que o interesse da DAN, em pesquisa e serviços, cresça cada vez mais no Brasil, precisamos de brasileiros afiliados à DAN.

Nos próximos meses de dezembro e janeiro, ficarei em Fernando de Noronha na Atlantis Divers coletando os dados dos mergulhadores e seus mergulhos para o PDE. Quanto mais mergulhos brasileiros fizerem parte do banco de dados da DAN, mais os novos modelos baseados em fisiologia terão a “cara” do mergulhador brasileiro. A equipe da DAN no Brasil junto com o Departamento de Pesquisa está configurando o Programa de Estágio para o verão brasileiro. Como o programa nos Estados Unidos já opera na capacidade máxima, 10 estagiários entre junho e agosto, faremos o programa nos mesmos moldes, mas para ser realizado entre dezembro e fevereiro.

Portanto, você pode ajudar, seja através da afiliação, doando seus perfis de mergulho e/ou inscrevendo-se para o programa de estágio em pesquisa.

Juliana Belloti
Juliana Belloti é Fisioterapeuta desde 1997 (Crefito 3/23942-F), atuando na àreas de Hidroterapia, Postura e Ergonomia. Especialista em Fisiologia do Exercício e Fisioterapia Respiratória (UNIFESP). Possui mestrado do CEMAFE / UNIFESP (Centro de Estudos de Medicina da Atividade Física e Esporte) e é instrutora de mergulho desde 2003.