Mergulhando fundo com ar comprimido

Quem nunca ouviu algum mergulhador ficar dizendo que mergulhou fundo, mostrando aquela cara de prazer ao dizer que alcançou os 60, 70m de profundidade, utilizando ar comprimido ?

Isso não é raro, e principalmente quando os mergulhadores visitam locais como Cuba, onde encontramos os famosos paredões que somem no infinito, diante dos 30/40m de visibilidade e água quente.

Esses, são os principais fatores que contribuem para um “relaxamento” do mergulhador recreacional, dando força ao mesmo para ir muito além dos limites e burlando regras básicas do mergulho, aumentando exponencialmente os riscos de um acidente de mergulho, e que pode acarretar em graves consequências, além de estragar a viagem de todos.

Já está mais do que provado, que um acidente de mergulho normalmente é como uma bola de neve, e nunca têm somente uma causa. Quando um acidente de mergulho ocorre, o mergulhador burlou uma sequência de regras, onde estas, irão tornar o processo cada vez mais grave, onde praticamente em 100% dos casos, o problema se origina da própria atitude do mergulhador.

Ar Comprimido X Profundidade

O ar comprimido, mas precisamente a parte do nitrogênio, quando pressão, acarreta um efeito narcótico, também denominado Narcose das Profundezas (ou das Profundidades). Na medida em que uma pessoa mergulha respirando ar comprimido, conforme o aumento da profundidade, consequentemente há um aumento progressivo da pressão ambiente sob nosso organismo, e sob o nitrogênio que respiramos.

O efeito narcótico do nitrogênio vai aumentando no mergulhador, onde normalmente começa a ser sentido a partir dos 30/40m de profundidade, deixando-o com os movimentos e raciocínio cada vez mais lentos.

Este efeito é extinto, simplesmente com a subida do mergulhador a profundidades mais rasas.

O efeito narcótico é sentido por todos os mergulhadores, variando somente a profundidade de início do processo entre cada um.

O grande problema, é, além do raciocínio e movimentos lentos, a possibilidade de apagamento quando o mergulho for realizado em profundidades como 50/60m ou mais, e muitos ultrapassam os limites de segurança não se preocupando com esses riscos.

Um relato

Cuba, um grupo de mergulhadores com boa experiência e amigos de longa data, foram mergulhar em um belíssimo paredão, onde segundo os guias, a profundidade alcança os 300m.

Antes do mergulho, dois mergulhadores comentam que iriam até os 60m de profundidade.

Já durante o mergulho em si, uma mergulhadora perdeu seu dupla entre tantos outros mergulhadores, mas resolve descer em direção as bolhas provenientes de uma profundidade maior, acreditando ela, serem as bolhas dos outros dois amigos mergulhadores que iriam aos 60m.

Um dos guias de mergulho, um experiente mergulhador e caçador de corais em grandes profundidades, aproveitou o tempo e desceu até os 90m com ar comprimido, retirando corais para a venda na cidade, coisa que já faz há anos.

Repentinamente ele sente um vulto próximo pelo canto da máscara, e olha rapidamente para ver o que seria.

Simplesmente era a mergulhadora que estava indo atrás dos amigos que iriam descer aos 60m, porém, ela estava desacordada e com seu corpo indo em direção ao fundo do mar, aos 300m de profundidade.

Percebendo o problema, o caçador largou suas coisas e correu atrás da mergulhadora, recolhendo a mesma nos incríveis 105m, e entregando-a a outros mergulhadores aos 45m, que à levaram à superfície.

Como não era o dia dela, a reanimação cárdio-respiratória funcionou e ela sobreviveu.

Por sorte ou porque existe Anjo da Guarda, ela foi salva, porém, se o caçador não estivesse ali naquele momento e ou não percebesse o vulto ao seu redor, a mergulhadora teria sumido e ninguém saberia o que de fato teria acontecido, e isso tudo por não cumprir a regra básica de não ultrapassar os limites de profundidade.

Podemos dizer que ela nasceu novamente…

Conclusão

  • Não descumpra as regras. Elas existem não para serem descumpridas, e sim, para a sua segurança;
  • Regras são criadas com base em estudos e relatórios de acidentes, e devem ser respeitadas para a sua segurança e dos demais que estejam na operação;
  • Tome sempre cuidado com locais com águas claras e quentes, pois isso favorece um mergulho mais profundo, que poderá se tornar um mergulho sem volta;
  • Mergulhar fundo, significa jogar seu gás disponível fora, menos tempo de mergulho e um aumento exponencial quanto ao risco de acidentes;
  • Se realmente você quer ir fundo, faça um curso de Mergulho Técnico para ampliar seus conhecimentos e mergulhar de forma séria, ampliando seu treinamento e suas habilidades;
  • Jamais fique fazendo autopromoção de que fizera um mergulho profundo a ar. Além de uma atitude chata, você estará promovendo uma atitude errada para outros mergulhadores.
Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.