Mergulho em Cozumel e quase levado pela corrente

Foto: Clécio Mayrink

Recentemente ocorreu mais incidente no México, onde dessa vez, a vítima foi uma mergulhadora americana que sumiu durante um mergulho na ilha de Cozumel.

De uns anos pra cá, infelizmente o México vêm enfrentando uma série de incidentes com mergulhadores, e pouco se sabe, o que as autoridades estão fazendo para sanar esses problemas, se é que estão fazendo algo.

Por exemplo, ano passado um casal de mergulhadores brasileiros sem treinamento em mergulho em caverna, foi conduzido em um mergulho de caverna por um guia que não era qualificado e nem certificado para tal. Houve pelos menos duas outras mortes por aspiração de monóxido de carbono, proveniente do gás exalado pelos motores dos compressores de recarga. Além desses, ocorreram alguns casos de mergulhadores que sumiram durante o mergulho e nunca mais foram vistos, e pior, ninguém fala mais sobre o assunto, ficando a imagem de impunidade e desprezo à segurança dos mergulhadores.

No caso dos mergulhadores que sumiram, muito provavelmente foram pegos pelas fortes correntes que passam por aquela região. No ano passado, em 2012, passei por uma situação bem desagradável e que poderia ter se tornado uma nova estatística.

Cozumel

Para não perder algumas milhas aéreas, acabei decidindo ir para a ilha de Cozumel para fazer alguns mergulhos, curtir a paisagem local, e aproveitar as condições de água para realizar um check-out de básico da minha esposa, e antes mesmo de ir, o Parola da Narwhal me alertou para tomar cuidado com as correntes daquela região, pois são fortes e realizar mergulhos saindo de praia por lá, têm certo risco.

Ao chegar por lá, realizei duas saídas com uma das maiores operadoras e pude verificar a força que as correntes que passam pelo “corredor” formado entre a Ilha de Cozumel e a costa. Os mergulhos por lá são realizados em drift o tempo todo.

Após alguns dias na ilha, chegou o dia do check-out da minha mulher, que recebeu as informações de um instrutor local, que pelo tempo de mergulho e instrução que possui, deu certo conforto em termos de segurança e conhecimento das condições de mergulho na ilha, e lá estava eu em todos os mergulhos olhando as instruções dadas de um curso básico, observando tudo o que era feito e dando uma certa segurança a mais a minha esposa.

No segundo dia de mergulho, saindo pela praia e em frente à operadora de mergulho, nos distanciamos uns 200m indo até uma poita bem pesada aos 6/8m de profundidade apenas. Dessa poita, subia um cabo até uma bóia que era interligada até um píer de uma casa por outras 10 bóias em forma de globo, estando distante umas cinco ou seis casas para o lado direito da operadora de mergulho. Essas bóias demarcavam o espaço à frente da luxuosa casa de praia.

Em um determinado momento, o instrutor avisou que iria subir com a outra aluna para realizar uma simulação de subida emergencial, demos um ok e ficamos aguardando no fundo de areia e próximos da poita. Nesse instante, para passar o tempo fiquei mostrando os peixes coloridos que estavam ao redor da poita.

Coisa de uns 2 minutos após a subida do instrutor, repentinamente percebemos uma corrente no local, e em questão de segundos, a força aumentou de tal forma, que ficou impossível ficar parados no local. Começamos a olhar para cima e nada do instrutor e da aluna.

Fiz sinal para a minha mulher segurar firme no cabo da poita e subimos, pois ficou impossível retornar por baixo d´água sem que a corrente nos levasse para fora no sentido da mesma.

Indo em direção à superfície, me dei conta que a situação era de risco, pois apesar da baixíssima profundidade no local, a medida que nos aproximávamos da superfície, a corrente aumentava exponencialmente, chegando ao extremo de estar tão forte, que era incapaz de algum mergulhador retornar em direção à praia sem um cabo de auxílio. Em mais de 20 anos de mergulho, jamais presenciei uma situação dessas, em um local tão próximo de uma praia e com tão baixa profundidade.

Um detalhe importante… As nadadeiras alugadas nas operadoras da ilha possuem uma pala muito pequena, o que piora ainda mais a natação.

Acalmei minha dupla, pois afinal de contas, ela não tinha experiência em mergulho, e retornamos até píer pelo cabo das bóias de demarcação, chegando muito cansados diante do esforço demasiado necessário. A medida que ia me refazendo, olhava para o mar tentando encontrar o instrutor com a outra aluna. Nesse momento um caseiro apareceu, pedimos desculpas por subir no píer privado e explicamos a situação, e quando íamos pedir socorro para os outros dois que desapareceram, escutamos um grito de longe…. era o instrutor que havia sumido com sua aluna.

Segundo ele, no momento em que eles estavam na superfície, a correnteza os pegou de surpresa, e como estavam desgarrados do cabo da poita, não tiveram a chance de retornarem. Com muito custo, conseguiram nadar em 45 graus em direção à praia a favor da corrente, alcançando um ponto seguro distante 500m de onde estávamos.

Após ter passado por isso, me perguntei… E se eu e minha esposa fôssemos alunos do curso básico ?   Teríamos conseguido sair dessa ?

Se desgarrássemos da bóia, como teria sido ?

A corrente era tão forte, que retornamos ainda equipados pela calçada da avenida principal até a operadora de mergulho, e para aminha surpresa, encontrei um grupo de brasileiros de uma operadora de São Paulo, que tinham passado pelo mesmo problema, e por pouco não precisaram de uma embarcação para resgatar dois mergulhadores que haviam ficado para trás.

Depois do que aconteceu, analisando a situação e as condições das operações de mergulho da ilha, chego à conclusão de que existe de fato, uma situação em que os operadores deveriam dar mais atenção no que diz respeito aos mergulhos, pois as alterações nas condições do mar são bem rápidas. O instrutor que estava ministrando o curso, era um instrutor local, com vasta experiência em treinamentos, trabalhou na Polinésia por muitos anos, e ainda assim, fora pego de surpresa pela corrente, ficando preocupadíssimo, pois ele não sabia como tínhamos ficado, e o seu gesto ao nos ver, mostrou o quanto relaxou quando percebeu que estávamos bem.

Conclusão

Em todo esse tempo em mergulho, já passei por diversas alterações de condições de mar, onde em muitas ocasiões, eram mergulhos técnicos, com descompressões à deriva, longe da costa e mar alto, mas jamais havia passado por uma alteração de corrente tão rápida como foi em Cozumel.

Mergulhar em Cozumel é sensacional em razão da vida marinha, mas o mergulhador precisa estar muito atento ao mergulho como um todo. Em diversos momentos nas operações de mergulho, percebi que o guia não tinha uma atenção total ao grupo, em diversos momentos, ele perdia alguns mergulhadores de vista por causa das grandes formações de corais.

Se você pretende mergulhar por lá, esteja muito atento durante todo o mergulho e ao grupo. Se você for básico, mergulhe com um dupla experiente ou fique ao lado do dive master.

Clecio Mayrink

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount).

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou como consultor para a ONU, UNESCO, Segurança Pública, além de diversos órgãos públicos no Brasil.