Mergulho no Mar Vermelho Sudanês

Vida subaquática abundante no Sudão - Foto: Armando de Luca Júnior

Após várias viagens para o Mar Vermelho egípcio, surgiu uma oportunidade de conhecer outra região, o Sudão, menos explorada e que causou forte atração por possuir no Parque Nacional Marinho de Sanganeb, um Patrimônio Natural classificado pela UNESCO como um dos locais com vida marinha mais abundante do planeta, apresentando mais de 120 espécies de corais com alto grau de preservação, e também, porque além das águas quentes, azuis e ricas em vida marinha, oferecia a chance de visitar as instalações do Pré-Continente II de Jacques Cousteau, o naufrágio do Umbria considerado entre os melhores e mais bem preservados naufrágios do período da Segunda Guerra Mundial e ainda conhecer um pouco da cultura de um país norte-africano recém-saído (2005) de um processo de separação (do atual Sudão do Sul) conforme as características étnico-religiosas de cada lado.

O porto de partida do live aboard era Port Sudan, e para chegar lá, foi necessário um voo para Dubai e outro para nosso destino em seguida.

O aeroporto de Port Sudan é minúsculo e tem uma área de desembarque e apresentação de documentos apertada e confusa, onde deixamos nossos passaportes e vistos, para recebê-los de volta somente depois que desembarcarmos do live aboard após uma semana.

Havia um representante do operador para nos receber e orientar, fator fundamental nesse tipo de viagem.

Na frente do aeroporto, um micro-ônibus nos aguardava, colorido e com jeito daqueles usados nos safáris africanos. Bagagens de nosso grupo e de um grupo de italianos acomodadas pelos bagageiros, corredor e sobre o veículo, partimos para o porto, bem próximo dali.

No porto, o MY Suzanna, comandado pelo Capitão Said, com seus 100 pés de comprimento, já nos aguardava, e fomos levados à bordo utilizando infláveis. Fomos apresentados ao staff, aos guias Sergio (italiano) e Hamman (egípcio), onde as instruções gerais foram recebidas, além de jantar e dormir cedo, pois na manhã seguinte partiríamos para os mergulhos.

Pré-Continente de Jacques Cousteau – Foto: Armando De Luca Júnior

Iniciando os mergulhos

O mergulho de adaptação já foi sensacional. Corais muito bem preservados, cardumes variados e aquela água azul, transparente e com temperatura entre 28 e 30°C. No segundo mergulho já veio um dos pontos altos da viagem, o recife de Sha’ab Rumi, onde se encontra o Pré-Continente II.

Nos anos 60, Cousteau e sua equipe conceberam uma revolucionária ideia, onde mergulhadores poderiam permanecer submersos por vários dias estudando e observando o ambiente, além de verificarem o comportamento do organismo humano submetido as altas pressões por bastante tempo, contando com o apoio de uma estrutura de abrigo e vários equipamentos para desenvolver os trabalhos.

Para nós mergulhadores, Cousteau é um verdadeiro ícone, pois junto de Emile Gagnan, além de ter criado o regulador para fornecer ar durante mergulhos com ar comprimido, além de  outras invenções voltadas para a exploração do mundo submarino, também encontrou o Thistlegorm (um dos mais importantes naufrágios do mundo), realizando uma infinidade de estudos sobre a vida marinha, trazendo conhecimentos que são utilizados até hoje visando a sua preservação.

Ter a oportunidade de realizar esse mergulho já trouxe um grau elevado de emoção e a descida sobre as estruturas, agora, cobertas por vida marinha, arrancou lágrimas de vários entre nós. É um mergulho raso (em média cerca de 12m) e muito tranquilo, onde a visibilidade ultrapassa os 30m e está próximo a uma parede que desce a dezenas de metros de profundidade. As estruturas que mais chamaram a atenção foram o alojamento, com seu aspecto de módulo espacial pousado sobre o fundo arenoso, além das gaiolas para observar tubarões em atividade de alimentação (lembrando que falamos de anos 60, conhecimentos sendo adquiridos) e uma “garagem” para scooters.

Realizamos mais três mergulhos no mesmo recife, apreciando os corais e a diversidade de peixes, se destacando os cardumes de “sweet lips” com seus lábios amarelos, além da presença de tubarões galha branca de recife, “silver tip” e martelo.

Peixe Palhaço – Foto: Armando de Luca Júnior

Famosos recifes

Mais expectativa e ansiedade, pois agora estávamos nos dirigindo para o recife de Sanganeb, onde fundeamos com excelente abrigo e próximos ao acesso ao farol de mesmo nome, construído em 1938 por ingleses utilizando blocos de corais.

No farol permanecem cerca de oito pessoas (equipes trocadas a cada 15 dias) e observamos salas destinadas a projetos de pesquisa com tubarões e raias da Universidade de Porto Sudão em parceria com a Cousteau Society.

A vista do farol é espetacular e as aves marinhas contribuem muito para enriquecer esse fato, mas as paisagens submarinas se superavam a cada batida de nadadeiras e confirmaram tudo que havíamos ouvido a respeito desse local. Mergulhos rasos em pontos abrigados até paredes profundas com correnteza, todos com uma quantidade de vida magnífica. Destaques para a grande diversidade de corais, cardumes de carangídeos, atuns, barracudas, trigger fishes, tubarões cinza de recife, napoleões, várias espécies de peixes borboleta, cardumes densos de peixes vidro e dos vermelhos Anthias.

Partimos para outros pontos, como os recifes de Jumma, Sha’ab Ambar, Nakhalat e Keary, em busca dos tubarões martelo. Como a água estava com temperatura média de 28°C, eles estavam mais concentrados a partir dos cerca de 50m de profundidade, em águas mais frescas. Encontrar esses animais fantásticos sempre foi e sempre será um dos pontos fortes dos mergulhos.

O perfil desses pontos era semelhante entre si, com paredes verticais repletas de corais moles, negros e de fogo, esponjas, gorgônias, enorme quantidade de peixes ornamentando a paisagem, várias espécies de invertebrados com destaque para nudibrânquios, tudo com uma intensidade e variedade de cores que tornavam cada minuto passado submerso num momento especial de nossas vidas.

Naufrágio Umbria – Foto: Armando De Luca

Naufrágio Umbria

Aproximava-se o final de nossos mergulhos, mas ainda restava um grande ponto a ser explorado, o naufrágio do Umbria. Construído em 1911 e de propriedade italiana, a partir de 1935 foi destinado ao transporte de tropas e cargas. Em 1940, estava navegando rumo à Eritréia (onde havia uma colônia italiana), o navio foi perseguido pelos ingleses. Logo após ter cruzado o Canal de Suez, no dia 9 de junho foi abordado por navios ingleses e neozelandês, que alegaram medida de controle de contrabando.

Este fato coincidiu com a entrada da Itália na guerra e o capitão italiano que havia recebido a notícia por rádio, decidiu afundar o Umbria para que o navio não fosse tomado pelos ingleses e neozelandeses. Assim, o navio foi ao fundo e levando sua carga composta por veículos Fiat 1100, bombas aéreas, detonadores, armas, cimento, vinho e mercadorias variadas.

Hoje ele repousa com seus 153m de comprimento e deitado sobre bombordo, em uma profundidade máxima de 36m no recife Wingate, a cerca de 20 milhas de Porto Sudão, tendo sido amplamente colonizado por vida marinha e completando o verdadeiro paraíso para mergulhadores.

Foto: Armando de Luca Júnior

Porto Sudão

Retornando a Porto Sudão, tivemos a noite livre para uma caminhada pela região portuária, onde a população local tem seus momentos de lazer sem sofrer com o sol causticante. Mulheres vaidosas usando burcas coloridas, crianças, todas muito sorridentes, bancas de souvenirs (conchas, artesanatos locais, etc) e até um barzinho onde é possível tomar um café, e para quem aprecia, fumar a “shisha”, o tabaco árabe (bem forte) em um narguilé.

No último dia, pela manhã, havia um tempo suficiente para realizar um dos raros passeios terrestres possíveis por ali, uma visita a Porto Suakin. Após mais de 2h por estrada cruzando o deserto e observando pastores conduzindo rebanhos de cabras e camelos, além das rústicas moradias dos tuaregues, chegamos a Old Suakin, uma cidade abandonada após sua destruição no período dos conflitos que resultaram na divisão do Sudão.

Apesar de ter perdido sua importância para Porto Sudão, Suakin ainda mantém serviços de embarcações e é o ponto de partida mais importante do país conduzindo africanos à Arábia Saudita em suas peregrinações a Mecca.

A cidade em ruínas é um atrativo e observa-se que suas construções eram um misto de blocos de corais extraídos do Mar Vermelho, com madeira e barro. Algumas mais notáveis estavam em processo de recuperação pelo governo local, visando um possível aditivo ao turismo.

Na volta paramos em um mercado local, cujas bancas ficam a céu aberto, chão de terra e venda de produtos alimentícios desde verduras, legumes e frutas, até carnes e pães. Tudo exposto e em condições precárias, caracterizando a condição de vida muito difícil que aquele povo vive.

Regresso

Finalmente, voamos de volta a Dubai, com escala sem sair do avião em Cartoon, capital sudanesa. Permanecemos por mais dois dias em Dubai, realizando alguns passeios e conhecendo um pouco das megaconstruções que caracterizam o chamativo daquela cidade, algo que está longe de meu ideal de viagem, mas muita gente aprecia.

Algo que valeu pelas paisagens pelas quais passamos, foi realizar um passeio com camionete 4×4 pelas areias do deserto, com a emoção da “pilotagem” por motorista indiano, pura emoção.

O encerramento foi feito com jantar em tendas montadas nas areias do deserto com dança do ventre e dervixe.

É uma viagem que vale muito a pena ser feita e com mergulhos inesquecíveis.

Armando De Luca Júnior

Biólogo pelo Mackenzie com aperfeiçoamento no Instituto Oceanográfico USP. Foi professor das redes Municipal e Particular de Ensino, sócio-proprietário na escola de mergulho Winner Sub e proprietário da operadora Nautilus (Laje de Santos). Trabalhou com turismo internacional se especializando no Mar Vermelho. Fotografa amadoristicamente.