Naufrágio da moréia verde em Arraial do Cabo

Foto: Clécio Mayrink

Realmente mergulhar reserva grandes aventuras e diversões.

No dia 18 de julho estava visitando as águas de Arraial do Cabo a cargo dos serviços de uma conhecida operadora e aproveitando uma rara oportunidade de tempo disponível, convenci outros dois (Celso Pontes e Pedro Valério) a fazerem o que seria o terceiro mergulho do dia para realizarmos uma busca de um pequeno naufrágio.

Naufrágio ???  Novo ???  Em Arraial ???

Calma gente !

Acontece que é uma traineira de médio porte que afundou meados de 2007 nas proximidades do píer de embarque de Arraial do Cabo. Não tem nada de valor histórico para se pesquisar nele, é só mais um naufrágio de um barco de pesca que está localizado em frente a poita da embarcação Pelicano, a uma profundidade de 7 metros e tinha o nome de Mizoneide.

Mas, apaixonado que sou por Naufrágios, considerando que não há naufrágio que não mereça ser visitado ao menos uma vez, parti para a pesquisa de campo para descobrir a sua marca, só que assim que comecei a colher informações sobre a sua localização, tive a grata advertência de que lá morava uma moréia enorme e invocada.

Então, quer dizer que o naufrágio que aparentemente não tinha nada para ser desvendado guardava uma imagem única de Arraial do Cabo ?

Mas isto justificaria qualquer esforço para ir lá, concluí. Ainda obtive a informação que exatamente em baixo do Píer, na vaga da embarcação Barco Cidade do Cabo, havia outro “naufrágio” que a tal moréia também costuma passar seu tempo quando não está atarefada em busca de alimento. Só que meu “informante” avisou que este barco na verdade era um caiaque bem pequeno.

Perfeito então… estava prestes a mergulhar em um naufrágio que servia de morada para uma moréia enorme e depois iria mergulhar no menor naufrágio do mundo (1m x 1,5m) !

Convencer ao Antônio (proprietário da operadora) a fazer uma manobra complicada com seu barco para me deixar próximo do suposto local para busca e convencer mais dois mergulhadores a participarem da busca ao naufrágio aparentemente sem atrativo algum, era minha prioridade naquele dia.

Eu, Celso e Pedro rapidamente encontramos o naufrágio e curtimos muito fazer as penetrações embora que pequenas, mas com muita adrenalina em imaginar dar de cara com a tal Moréia. Desta vez ela não estava lá e partimos então utilizando técnicas de navegação subaquáticas para o Píer.

Chegando ao Píer, uma visão que eu nunca tinha visto: um misto de explosão de natureza com poluição visual. Cardumes de sardinhas, tartarugas, corais, esponjas, mariscos, ouriços, baiacus, coiós, polvos, moréias e diversas outras espécies interagiam em meio aos pilares do píer, sacos plásticos, redes, anzóis, linhas de pesca, cabos de nylon, garrafas e pneus…

Moreia-VerdeMuitos pneus !     É pneu demais !

Não dá para ver se o fundo é de areia, cascalho ou lama, porque o fundo é de Pneus !

Esses pneus quando na superfície servem de proteção para os barcos não baterem no píer, mas quando caem no mar e afundam, tornam-se abrigo para milhares de espécies. Como poderia descrever ?    É um feio que de tão feio ficou bonito demais ?   Sei lá…

Encontramos então o “Menor Naufrágio do Mundo” e pudemos ver de relance a moréia que entocou e não deu o ar da graça novamente, infelizmente pouca imagem foi captada deste momento pois a bateria da filmadora chegou ao fim justamente naquele momento.

O mergulho chegara ao fim também e ao emergimos bem ao lado do píer havia certa aglomeração de curiosos que estavam acompanhando as bolhas de ar que surgiam do fundo. Imediatamente perguntei ao publico:

Aqui é o Cais de Búzios ?

Não !   Aqui é o Cais de Arraial do Cabo. Respondeu alguém.

Olhei então para meus parceiros e gritei:

Eu não falei que você havia errado o rumo !   Agora vamos ter de nadar tudo de novo !

E então simulamos que estávamos submergindo novamente para o espanto geral do pessoal.

Hahaha….. foi muito engraçado e rimos muito depois !!!

Foi um mergulho muito emocionante, bonito e divertidíssimo como todo mergulho deveria ser. E tudo isso aconteceu por causa de um naufrágio sem valor histórico e uma moréia verde que carinhosamente apelidei de “Marciana”.

Paulo Dias

Paulo Dias mergulha a mais de 20 anos, é Instrutor Silver PDIC (#11332) e Isntrutor PADI #1569264, formando um número superior a 500 mergulhadores. Foi o primeiro mergulhador a utilizar Trimix no mergulho recreativo e sua escola foi a primeira a trabalhar com Nitrox e Trimix no Brasil. Possui também certificação TDI como Advanced Nitrox Diver e Extended Range Diver.

Tem como hobby, a pesquisa de naufrágios e a prática de hipismo. É integrante do grupo Wreckfinder, grupo voltado a pesquisa e busca de naufrágios na costa brasileira.